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Capítulo 2: Café, vergonha e travesseiros

hyan_amorim

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Sábado, 15/02/2025

É de manhã, e sou arrancado do meu sono por uma voz irritantemente familiar.

- Ariel, acorda! - diz Ariana, minha irmã.

- O que foi, Ariana...? - resmungo, enfiando a cabeça embaixo do travesseiro, completamente derrotado pelo mundo.

- Só não falei com você ontem porque você estava completamente bêbado! - ela diz, puxando meu travesseiro com força assassina.

- Hoje é sábado! Minha folga! Me deixa dormir, pelo amor de Deus! - reclamo, me enrolando no lençol como uma lagarta em negação.



- Então me explica isso aqui. - diz ela, empurrando o celular na minha cara.



Quando olho para a tela... eu gelo.



- Hã...? - digo, com os olhos arregalados. Era uma foto minha e do meu chefe. Mas... espera aí... ELE TÁ BEIJANDO O MEU CABELO?!

- Tá saindo com o seu chefe agora? - diz Ariana, cruzando os braços. - Quando eu vi essa cena ontem, eu achei que estava delirando. Tive que tirar foto, né? Pro histórico da vergonha familiar.

- Meu Deus... o que foi que eu fiz?! Eu não lembro de nada! - digo, pálido.

- Eu só escutei você dizendo: "Beija a minha cabeça!" - diz ela, debochando. - Você parecia uma criança mimada implorando por um pirulito. Foi ridículo.

- Eu vou parar de beber. Juro. Dessa vez é sério. - digo, sentando na cama como um zumbi arrependido.

- Seu chefe estava tão desconfortável... ele só fez o que você pediu pra você parar de insistir. Parecia que você ia chorar se ele não fizesse! - diz Ariana, rindo como se estivesse vendo um episódio de comédia ao vivo.

- Eu tô ferrado... completamente ferrado. - digo, enterrando o rosto nas mãos, desejando evaporar da terra.

- Ariel, Ariana, o café está pronto! - grita minha mãe da cozinha.

- Vamos lá, depois você pensa nas suas besteiras. - diz Ariana, saindo do meu quarto com aquele ar superior de irmã mais velha que sabe de tudo.

Eu suspiro fundo e desço as escadas como se estivesse indo para a forca. Sentado à mesa com minha família, tento tomar o café da manhã, mas tudo tem gosto de desespero. O pão? Amargo. O café? Um lembrete líquido do que eu fiz.

Enquanto todos conversam normalmente, eu só consigo pensar na burrada monumental da noite passada. Como é que eu vou encarar o senhor Daniel na segunda-feira? Com que cara? Com que dignidade? Será que ele vai me olhar e lembrar do beijo na minha cabeça? Ou pior... será que vai me mandar embora com uma carta de demissão perfumada com aroma de humilhação?



Cada gole de café é uma tortura psicológica. E o pior? Minha mãe ainda diz:

- Ariel, você está tão quieto hoje, filho. Está tudo bem?

- Tudo ótimo, mãe... só estou... digerindo a vida. - respondo, tentando sorrir, mas por dentro, estou gritando.

Segunda-feira, 17/02/2026

É de manhã, e eu já estou na empresa, andando pelos corredores feito um espião da CIA tentando evitar qualquer contato visual com o homem - o temido senhor Daniel. Meu plano? Chegar na cozinha, fazer o café dele rapidinho, deixar na sala antes que ele apareça, e fugir para o anonimato.

Mas, como todo bom plano que depende da sorte...

- Aaaah! - dou um grito ao abrir a porta e me deparar com o senhor Daniel já sentado na cadeira, todo elegante e impassível.

- E aí. - diz ele, como se fosse a coisa mais normal do mundo me dar um susto às 7h da manhã.

- Bom dia, senhor. - respondo com um sorriso tão sem graça que até o café na xícara sentiria vergonha.

- Sério? É só isso que tem a dizer: "bom dia"? - retruca ele, arqueando uma sobrancelha.

- Senhor, eu sinto muito por ontem. - digo, abaixando a cabeça, como se estivesse confessando um crime.

- Beba com mais moderação da próxima vez. Ou da próxima vez pode acordar debaixo de uma ponte. - ele diz enquanto se levanta, ajeitando o terno como quem acabou de sair de um comercial de perfume.

- Eu vou me lembrar disso, senhor. - respondo, tentando parecer digno.

- Está arrependido pelo que fez? - pergunta ele, encarando meus olhos.

- Sim, senhor. Muito. - respondo com sinceridade.

- Então, mais dois meses me servindo café. - diz ele com um leve sorriso.

Espera aí. O quê?

Dois meses a mais? Então era isso?! Tudo aquilo... só pra me manter de barista oficial dele?

- Eu quero café. Você faz pra mim? Por favor. - diz ele, imitando a minha voz bêbada com deboche, e sentando na cadeira como se fosse um trono.

- Não era pra o senhor ter feito aquilo! Era pra me ignorar e ir embora! Minha irmã viu... e agora acha que a gente é um casal! - digo, vermelho como um pimentão.

- Pois sua irmã se enganou. Você definitivamente não faz o meu tipo. - diz ele, seco como um deserto. Eu quase engasgo com o ar.

Me viro, respiro fundo, e começo a preparar o café. Quando termino, entrego a xícara a ele com uma reverência irônica.

- Aqui está, senhor. - digo.

Pego outra xícara para mim e provo o café, tentando manter o mínimo de dignidade.

- Está perfeito. - digo, saboreando como se fosse um sommelier de café.

- O café fabricado pela empresa é realmente impecável. - diz ele, tomando o dele calmamente.

- Mas fui eu que preparei! Mereço um pouco do crédito, né? - digo com um fiapo de orgulho.

- Não exagere. O café da empresa é o mais vendido do Brasil. Você só contribuiu com uma parte muito... pequena. - responde ele, reabastecendo a xícara como se tivesse vencido a discussão.

Antes de sair, ele vira-se com um sorriso que eu nunca tinha visto antes - um sorriso de verdade.

- Não se esqueça do meu café do meio-dia. - diz ele... sorrindo.

Eu fico congelado por uns segundos.

- Nossa, que arrepio. - digo baixo, assim que ele sai.

Primeira vez que vejo o senhor Daniel sorrir daquele jeito. E, honestamente? Isso foi mais forte que o próprio café.

Estou agora na área de marketing. Estão gravando um comercial para divulgar o produto da empresa. O pai e o irmão do senhor Daniel estão presentes - os dois são extremamente sérios e estão completamente focados. É a primeira vez que vejo o presidente da empresa tão de perto. A tensão no ar é quase palpável.

- Que café mais delicioso, mamãe! - diz a atriz mirim com um sorrisinho forçado.

- É porque eu uso Grão UP, minha filha. É o melhor café do mundo! - responde a atriz, pegando o pacote e apontando diretamente para a câmera com aquele sorriso robótico de propaganda de margarina.

- Corta! - grita o diretor.

Eu observo em silêncio, tentando não rir. Que comercial mais sem sal... Totalmente sem criatividade! Uma menina com uma xícara, uma mãe sorrindo e uma embalagem tremendo na mão... É sério que isso vai ao ar? Não acredito que vão aprovar isso. Mas, para a minha surpresa, aprovam. Com entusiasmo.

Agora, estou ajudando a desmontar o cenário com um certo desgosto interno, pensando: "Se é isso que vende café, talvez eu devesse escrever os roteiros também..."

De repente, o senhor Daniel aparece, com aquela expressão séria de sempre, mas com algo diferente no olhar.

- Tenho uma coisa para falar com você - diz ele, direto ao ponto.

- O que foi, senhor? - pergunto, tentando manter a calma.

- Fui designado para uma missão importante. Preciso ir até o interior encontrar um estrangeiro que está de férias. Meu pai quer que ele experimente o nosso café... Vai que ele gosta e decide exportar para o país dele.

Eu continuo sem entender aonde isso está indo.

- Mas o que eu tenho a ver com essa história toda? - questiono, confuso.

- Você faz o melhor café- diz ele, com um tom de voz mais baixo, quase relutante. - Se ele experimentar o seu, talvez goste. E se ele gostar... meu pai pode finalmente me ver como alguém capaz nos negócios.

- Mas o senhor mesmo disse, mais cedo, que a qualidade vinha do café da empresa, e que eu só contribuí com uma pequena parte... - rebato, ainda surpreso.

Ele suspira, um pouco impaciente.

- Esquece o que eu disse, tá bem? Vai, Ariel, me ajuda com isso. Eu realmente preciso que isso dê certo.

Fico em silêncio por alguns segundos. Nunca imaginei que o senhor Daniel pediria minha ajuda de forma tão... humana.

- Está bem, então - digo, finalmente.

Ele me olha com um leve aceno de aprovação.

- Vai pra sua casa e se arruma. Eu te busco em meia hora - diz o senhor Daniel, já se virando para sair.

Sinto meu coração acelerar. Eu? Numa missão com o chefe? Isso definitivamente vai dar história.

Eu então corro para casa e começo a colocar algumas roupas em uma pequena mala. Ainda estou tentando entender como acabei envolvido nessa missão inesperada com o senhor Daniel. De repente, ouço a buzina tocar lá fora. Espio pela janela e vejo o carro dele já estacionado - nem vinte minutos se passaram!

- Boa viagem, meu filho - diz minha mãe, me dando um abraço apertado.

- Obrigado, mãe - respondo, forçando um sorriso. Meu estômago está embrulhado de ansiedade.

Desço rapidamente com a mala, e o senhor Daniel está parado ao lado do carro, com seu habitual olhar sério.



- Vamos - diz ele, seco.

- Vamos - digo, entrando no carro.

A viagem é silenciosa por um bom tempo. Eu me mantenho quieto, observando a estrada pela janela, sem saber o que esperar. Estou com a sensação constante de que essa viagem é um teste... e não posso falhar.

Chegamos ao hotel, que é muito mais luxuoso do que eu imaginava. Só de estar ali, já me sinto deslocado, meio fora do meu mundo.

- Quero dois quartos, por favor - diz o senhor Daniel para a recepcionista.

- Sinto muito, senhor, mas só temos um quarto disponível - responde a recepcionista com um sorriso educado.

- Eu quero esse então - diz ele, sem pestanejar.

- Aqui está a chave, senhor. - diz a atendente, entregando-a.

O quê? Um quarto só? Eu congelo por um instante. Tento disfarçar o desconforto - não tem nada de romântico nisso, é só uma missão de trabalho, mas ainda assim, dividir o quarto com o chefe é... esquisito.

- Onde está o estrangeiro? - pergunta o senhor Daniel.

- Ele já está no seu quarto - diz a recepcionista com naturalidade.

- E o que ele vai fazer amanhã? - pergunta o senhor Daniel.

- Só sei que ele vai ao zoológico e vai tomar café da manhã por lá - responde ela.

A gente então sobe para o quarto. Quando entramos, percebo que o espaço é... menor do que eu esperava. Não é claustrofóbico, mas também não dá pra fazer coreografia de boyband ali dentro.

- Você dorme no sofá - diz o senhor Daniel, seco.

- E por que eu dormiria no sofá? - digo com a mão na cintura, já indignado.

- Não vá pensar que eu vou dormir no sofá! - diz ele, incrédulo, como se tivesse ouvido a maior heresia do mundo.

- Se eu não dormir bem, acordo indisposto, e isso prejudica minhas habilidades de fazer café. - digo com toda a seriedade dramática que tenho.

- Então o que vamos fazer? - pergunta ele, claramente perdendo a paciência.

- Simples: a gente faz um muro. Um muro de travesseiros! - digo, pulando na cama com empolgação.

- Isso é ridículo... - resmunga ele ao me ver montando uma verdadeira muralha de algodão no meio da cama.



- Pronto! - digo, orgulhoso, admirando minha obra como se tivesse acabado de construir a Muralha da China versão hotel.

Depois que cada um toma banho, a gente finalmente se deita - cada um de um lado da fortaleza de travesseiros. Um silêncio engraçado paira no ar.



Amanhã começa a tal missão. Mas, por enquanto, estou dividido entre a ansiedade da tarefa e o absurdo de dividir uma cama com meu chefe... Separados por um muro de dignidade.

#romanceviral

Thoughts

  • sofadasala

    A Ariana fotografando o irmão bêbado só pra jogar na cara dele no café da manhã, toda casa tem uma dessas kkk

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  • xadrezista

    O Daniel aceitou o quarto único sem piscar, e antes disso cobrou mais dois meses de café do Ariel. Desconfio que esse homem planeja tudo uns dois passos antes, véi, inclusive a viagem.

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