Terça-feira, 18/02/2025
É de manhã. O senhor Daniel recebe uma mensagem da recepcionista avisando que o tal estrangeiro já foi para o zoológico.

- Vamos, temos que ir até o zoológico - diz ele, levantando-se com pressa.
- Nossa, eu nunca fui a um zoológico! - digo empolgado, já imaginando os bichinhos.
- Não vamos lá para passear, vamos fazer o estrangeiro beber o nosso café. - rebate o senhor Daniel com aquela seriedade toda, como se fosse uma missão diplomática secreta. Eu reviro os olhos.
A gente se arruma e vai até o zoológico. O lugar é simplesmente incrível! Pena que não dá tempo nem de acenar pros macacos. A gente vai direto para a lanchonete e o senhor Daniel começa a conversar com a gerente.
- Eu topo, mas com uma condição! - diz a gerente, com um olhar afiado.
- Qual? - pergunta o senhor Daniel, tenso.
- Você precisa fazer o café para todos os meus clientes. - diz ela com um sorriso que não prometia nada fácil.
- Claro que sim. Você dá conta, né, Ariel? - ele diz, virando-se para mim como se eu fosse um super-herói barista.
- É óbvio. - respondo cruzando os braços, tentando esconder o leve pânico.
- Aqui, aqui tem café para usar o mês todo. - diz ele, me entregando uma sacola com pacotes de café como se estivesse me dando um presente de aniversário.
- Ei, você aí! Entra logo e vem me ajudar. A lanchonete tá lotada! - grita a gerente, me encarando como se eu fosse o estagiário do caos.
- Mas o tal estrangeiro já tá na mesa? - pergunto, rezando pra ganhar uns minutinhos.
- Ainda não, ele tá vendo os animais. - responde o senhor Daniel, consultando o relógio.
- Anda logo! - insiste a gerente.
- Tô indo! - digo, suspirando fundo como quem vai entrar em uma arena.
Entro, coloco o avental e a touca, e em segundos já estou atrás do balcão. A gerente começa a gritar os pedidos como se estivesse comandando uma brigada de guerra: capuccino, expresso, macchiato, café gelado com chantilly e raspas de chocolate... e até um tal de "café do Instagram". Mas eu dou conta. Porque mexer com café é mais do que uma tarefa. É uma paixão.
Depois de atender muitos pedidos - incluindo um senhor que exigiu um café "com gosto de abraço de vó" - finalmente chega o momento decisivo:
- O estrangeiro quer um capuccino! - diz a gerente, com a mesma energia de quem anuncia o fim do mundo.
- Pode deixar! - respondo, já sentindo o suor escorrer.
Eu capricho. Pego o melhor leite, faço a espuminha perfeita, coloco o toque final com canela e até desenho um coração no topo (mesmo sabendo que ele nem vai notar). Entrego para a garçonete como se estivesse passando um troféu olímpico.
- Boa sorte, campeão... - sussurro para a xícara.
Cruzo os dedos. Espero que ele goste.
Tiro o avental, a touca e já me sinto um herói voltando da guerra.
- Ei! Aonde pensa que vai? - diz a gerente, arqueando a sobrancelha.
- O trato era fazer os cafés até o estrangeiro chegar. E ele chegou, tomou, missão cumprida. Tchauzinho! - digo, escapando antes que ela invente mais tarefas.
Vou até o lado de fora e encontro o senhor Daniel, que observa à distância o estrangeiro tomando o capuccino como se estivesse vendo uma bomba prestes a explodir.
- Espero que ele goste... - digo, chegando perto.
- Ele precisa gostar. - responde Daniel, visivelmente nervoso. - Se ele gostar, vai perguntar à gerente qual é a marca. Ela mostra o pacote e... missão cumprida.
- Senhor, podemos dar uma olhada agora? Tipo... nos bichos, no sol, na vida? - digo.
- Temos que ficar de olho nele até o fim! - responde ele, obstinado como se estivéssemos numa missão secreta da CIA.
- A gente já fez nossa parte! Se ele realmente gostar, vai entrar em contato com a empresa. Agora deixa eu ver os pinguins, por favor. - digo dramaticamente.
- Mas...
- Fique aí, então. Eu vou ver os animais. - digo, me afastando com pose de quem acabou de salvar o dia - e merece muito ver uma capivara feliz.
Eu estou parado bem no meio do pátio do zoológico, girando devagar, sem saber por onde começar. Tem tantos caminhos, tantas placas... e todos parecendo igualmente interessantes.

- Não tem. - diz uma voz atrás de mim.
- O quê? - pergunto, me virando.

- Pinguins. Não tem pinguim aqui. - responde o senhor Daniel, com as mãos no bolso e uma expressão quase séria... mas só quase.
- Ah, que decepção. - digo, com um falso drama. - Então quero ver os macacos.
Ele dá de ombros, e a gente começa a andar juntos.
Quando chegamos à área dos primatas, somos recebidos por uma verdadeira orquestra de gritos e saltos. Os macacos brincam entre si, balançam em cordas, fazem caretas e, para nossa surpresa, jogam amendoins de volta na gente. Começo a rir alto, e, pela primeira vez, ouço o riso do senhor Daniel. É um som raro - meio tímido, meio solto - como se ele não estivesse acostumado a rir com tanta leveza. Eu olho de lado. Ele realmente parece estar se divertindo. E isso... é estranho. Estranhamente bom.

Depois, vamos até o espaço das girafas. Elas se aproximam com aquela elegância desengonçada, e uma delas estica o pescoço para pegar a comida direto da minha mão. Rio, surpreso com a língua áspera dela.

- Elas são tão fofas... - comento.
- E famintas. - diz ele, limpando a mão, mas sorrindo. Seu sorriso é discreto, quase envergonhado. Mas é bonito. Muito bonito.
Seguimos para o recinto dos cangurus, e um filhote pula bem perto de nós, nos arrancando outro ataque de riso.


O sol está mais quente agora, e o calor nos guia até a área sombreada dos pássaros.

Ali, dezenas de aves exóticas voam soltas. Em poucos segundos, um pássaro pousa no meu ombro. E depois outro na minha cabeça. Eu começo a rir sem parar.
- Senhor Daniel, tem um papagaio grudado em você! - digo, apontando.
Ele olha para o ombro com calma, como se já esperasse por isso. - Ele tem bom gosto. - diz.
Mais dois pássaros se aproximam, um pousa na mão dele.


E aí acontece algo estranho: ele ri. E não é só um riso qualquer. Ele está completamente entregue ao momento. Os olhos brilham, os lábios se curvam com naturalidade... é um sorriso genuíno. Aquele tipo de sorriso que parece abrir janelas dentro da gente.

Eu fico olhando. Em silêncio. Queria que ele sorrisse assim mais vezes.
Talvez ele também esteja pensando o mesmo. Porque, por um instante, ele me olha. Um olhar rápido, direto, que me pega desprevenido. Não diz nada. Mas também não precisa.
E então um passarinho pousa na minha cabeça de novo e quebra o momento com um grito.
- Aí! Pega leve! - brinco.
O senhor Daniel dá uma gargalhada baixa, e seguimos andando.
Agora estamos na área dos peixes, jogando pequenas porções de ração na água e observando as carpas coloridas se aglomerarem em um espetáculo de cores e movimentos.


- Faz muito tempo que não me divirto tanto em um zoológico... - diz o senhor Daniel, em um tom quase nostálgico.

- O senhor devia se permitir mais momentos assim. A vida não é só trabalho. - respondo, sorrindo enquanto jogo mais um punhado de ração na água.
Ele hesita por um segundo, seus olhos observando os peixes distraidamente.
- É que o meu pai... Ele...
Antes que ele continue, somos interrompidos por um funcionário do zoológico, que se aproxima apressado.
- Ei! A gerente da lanchonete está procurando vocês. - diz ele, apontando para a direção de onde viemos.
- O que o senhor ia dizer? - pergunto, curioso com o que ficou no ar.
- Deixa pra lá... Vamos ver o que ela quer. - responde ele, voltando ao tom sério de sempre. Seguimos lado a lado até a lanchonete.
- O estrangeiro quer falar com quem fez o capuccino. - diz a gerente, parecendo um pouco nervosa.
- Isso quer dizer que ele gostou? - pergunta o senhor Daniel, erguendo uma sobrancelha.
- Não sei... ele estava bem sério. - responde a gerente, o que me faz engolir seco. Minhas mãos suam instantaneamente. Me aproximo da mesa onde ele está.
- Aqui está ele, senhor. - diz a gerente, me apresentando. O homem me encara com intensidade e logo se levanta, estendendo a mão.
- Então foi dessas mãos que saiu aquele capuccino esplêndido? - diz ele com um forte sotaque, enquanto segura minha mão e beija levemente meus dedos.
Sinto um arrepio subir pela espinha. Meu corpo fica tenso, e puxo a mão de volta com certa pressa.
- Fico feliz que tenha gostado. - digo, forçando um sorriso desconfortável.
- Qual a marca de café você usou? - pergunta ele, ainda me encarando como se quisesse ler minha alma.
- Eu usei o Grão UP, uma marca renomada aqui no país. - respondo, tentando soar profissional.
- Estava perfeito... Mas duvido que apenas a qualidade da marca seja a responsável. - diz ele, com um leve sorriso nos lábios.
- O Grão UP é o melhor, senhor. Eu só preparo meus cafés com ele. - insisto, querendo desviar o foco de mim.
- Grão UP... interessante. - diz ele, passando os dedos pelo queixo. - Mas eu não tenho interesse em exportar apenas o café deste país... - completa, agora com um olhar mais intenso e direto, que me deixa completamente desconfortável.