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Capítulo 1 — A Menina dos Olhos Grandes

SamanthaBruxa
Pensamento

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Eu tenho olhos grandes 💞

Eu tenho olhos grandes 💞

Conteúdo da publicação

Naquela época, Charllotte tinha oito anos.

Era uma menina magra demais para a idade, de braços finos e pernas compridas, como se ainda estivesse crescendo para dentro de um corpo que não conseguia acompanhar.

Mas eram os olhos que mais chamavam atenção.

Grandes.

Castanhos.

Sempre atentos.

Os olhos de Charllotte pareciam maiores porque ela costumava permanecer em silêncio. Enquanto outras crianças corriam, gritavam e disputavam brinquedos, ela observava.

Observava as pessoas.

Observava os adultos.

Observava sua mãe.

E, principalmente, observava tudo aquilo que ninguém parecia querer enxergar.

Charllotte morava no Mato Grosso do Sul com sua mãe, Margareth, e sua irmã mais velha, Vitória.

Naquele período, Frederic ainda não fazia parte daquela casa.

As três mulheres viviam em uma pequena construção localizada nos fundos do quintal dos tios.

Não era exatamente uma casa.

Era o lugar que elas conseguiam chamar de casa.

Havia poucos móveis, paredes simples e um quarto dividido pelas duas meninas. Quando chovia, o barulho da água no telhado era tão forte que Charllotte precisava elevar a voz para conversar com Vitória.

O quintal dos tios era maior que a própria casa.

Havia árvores, algumas plantas crescendo sem cuidado e um caminho de terra que levava até a pequena construção onde elas moravam.

Charllotte gostava daquele quintal.

Era provavelmente o único lugar onde conseguia respirar sem sentir que estava incomodando alguém.

De manhã, o sol entrava pelas frestas da janela.

Vitória geralmente acordava primeiro.

Ela tinha cabelos lisos, cheios, que batiam nos ombros, olhos pequenos e castanho-escuros e uma timidez que fazia com que falasse pouco.

Era a filha querida.

Charllotte sabia disso.

Não porque alguém tivesse dito.

Mas porque algumas coisas não precisavam ser ditas.

Margareth tratava Vitória de maneira diferente.

Quando Vitória pedia alguma coisa, sua mãe escutava.

Quando Vitória precisava de ajuda, Margareth tentava ajudar.

Quando Charllotte fazia o mesmo, muitas vezes recebia apenas um olhar impaciente.

— Depois.

— Agora não.

— Para de pedir.

— Você é muito complicada.

Charllotte foi aprendendo a pedir menos.

Naquela manhã, ela estava sentada na beirada da cama, tentando arrumar os cabelos ruivos.

Os fios eram lisos no alto da cabeça e cacheados nas pontas, compridos até a cintura.

Ela havia encontrado um pente antigo.

Passava lentamente pelos cabelos, tomando cuidado para não puxar os nós.

Vitória estava perto da janela.

— Você vai perder a hora — disse a irmã.

Charllotte olhou para o relógio.

— Ainda dá tempo.

— Mamãe já está acordada.

Charllotte parou de pentear.

Essa informação era suficiente para fazê-la se apressar.

Ela colocou o uniforme da escola.

Era antigo.

Um pouco desbotado.

Na barra da saia havia uma pequena marca que não saía mais, mesmo depois de várias lavagens.

Charllotte olhou para a roupa.

Depois olhou para Vitória.

A irmã tinha uma peça melhor conservada.

Charllotte não reclamou.

Nunca reclamava.

Ou, pelo menos, tentava não reclamar.

Na cozinha pequena, Margareth preparava algo simples para o café da manhã.

Ela era uma mulher morena escura, magra, de cabelos muito curtos e aproximadamente um metro e sessenta e oito.

Seu braço esquerdo possuía uma pequena deficiência.

Margareth estava acostumada a enfrentar dificuldades e parecia ter desenvolvido uma dureza que atingia até mesmo as pessoas dentro de casa.

Charllotte entrou.

— Bom dia, mãe.

Margareth não respondeu imediatamente.

Continuou fazendo o que estava fazendo.

Charllotte ficou parada.

Esperou.

— Bom dia.

— Eu ouvi.

A menina abaixou os olhos.

Pegou o pouco que havia para comer.

Vitória entrou logo depois.

— Bom dia, mãe.

Margareth olhou para ela.

— Bom dia, filha.

Charllotte percebeu.

Mais uma vez.

A diferença.

Pequena.

Quase invisível.

Mas suficiente para doer.

Ela terminou de comer rapidamente.

Depois pegou a mochila.

— Vamos?

Margareth respondeu:

— Vai andando. Eu tenho umas coisas para resolver.

Charllotte ficou surpresa.

— Sozinha?

— Você conhece o caminho.

A menina não respondeu.

Apenas colocou a mochila nas costas.

E saiu.


A Creche Sementinha do Saber

A Creche Municipal Sementinha do Saber ficava a algumas ruas de distância.

O prédio era simples, cercado por um muro baixo.

Havia desenhos coloridos nas paredes, pequenas árvores no pátio e um portão azul que rangia sempre que alguém entrava.

Para muitas crianças, aquele lugar significava brincadeiras.

Para Charllotte, significava outra coisa.

Vergonha.

Ela sabia que algumas crianças olhariam para suas roupas.

Sabia que comentariam seus cabelos.

Sabia que olhariam para seu corpo magro.

E sabia que seus olhos seriam motivo de piada.

Quando entrou na sala, a professora Érica estava organizando algumas atividades sobre uma mesa.

Érica era uma professora paciente.

Tinha o costume de sorrir antes de falar e sempre tentava fazer com que todos os alunos participassem.

— Bom dia, Charllotte.

— Bom dia, professora.

— Dormiu bem?

Charllotte sorriu discretamente.

— Dormi.

Érica percebeu que havia alguma coisa diferente na menina.

Mas ainda não sabia o quê.

Charllotte sentou-se em seu lugar.

Poucos minutos depois, começaram os comentários.

— Olha a Charllotte.

Ela fingiu não ouvir.

— Parece que não come.

Algumas crianças riram.

Charllotte abaixou a cabeça.

Outro menino olhou para ela e arregalou os próprios olhos.

— Olha o tamanho dos olhos dela!

Mais risadas.

— Parece um desenho!

Charllotte apertou o lápis entre os dedos.

Não chorou.

Não queria chorar.

Porque sabia que, se chorasse, eles continuariam.

Uma menina olhou para sua roupa.

— Essa roupa é velha?

Charllotte ficou em silêncio.

— Minha mãe comprou — respondeu baixinho.

— Mentira.

Outra criança entrou na brincadeira:

— Aposto que ela ganhou.

Mais risadas.

Charllotte sentiu o rosto esquentar.

Olhou para a professora.

Érica havia percebido.

— Chega — disse ela.

A sala ficou quieta.

— Não vamos fazer comentários sobre o corpo, a aparência ou as roupas dos colegas. Cada pessoa tem uma história e vocês não sabem o que existe por trás dela.

As crianças ficaram quietas.

Charllotte continuou olhando para a mesa.

Érica se aproximou.

— Charllotte?

A menina levantou os olhos.

— Você está bem?

Ela queria dizer não.

Queria contar que não gostava de ser chamada de magrela.

Queria dizer que odiava quando riam dos seus olhos.

Queria dizer que não gostava das próprias roupas porque sabia que eram diferentes das outras.

Mas respondeu:

— Estou.

Era mais fácil dizer que estava bem.

Era mais fácil mentir.


Na hora do recreio, Charllotte ficou sentada perto de uma árvore.

As outras crianças corriam pelo pátio.

Ela observava.

Uma menina passou por ela e disse:

— Você não brinca porque é muito magra?

Charllotte não respondeu.

A menina riu.

— Parece que vai quebrar.

Charllotte apertou os braços contra o corpo.

Naquele instante, teve vontade de desaparecer.

Não queria ser magra.

Não queria ter olhos grandes.

Não queria roupas velhas.

Não queria chamar atenção.

Queria apenas ser como as outras crianças.

Quando voltou para a sala, Érica encontrou Charllotte em silêncio.

— Você pode conversar comigo quando quiser.

Charllotte olhou para ela.

Por alguns segundos, quase falou.

Mas não falou.

Porque havia aprendido, mesmo tão pequena, que algumas coisas era melhor guardar.


De volta para casa

No fim da tarde, Charllotte voltou para a pequena casa no quintal dos tios.

Abriu o portão.

Entrou.

Encontrou Vitória sentada perto da janela.

— Oi — disse a irmã.

— Oi.

— Como foi?

Charllotte colocou a mochila no chão.

— Normal.

Vitória observou o rosto dela.

— Você chorou?

— Não.

— Tem certeza?

Charllotte assentiu.

Vitória não insistiu.

Talvez porque também tivesse aprendido que algumas perguntas poderiam machucar.

Margareth estava dentro de casa.

Charllotte entrou.

— Mãe?

— O quê?

— A professora falou que...

— Depois, Charllotte.

A menina parou.

— Tá.

Ela entrou no quarto.

Sentou-se na cama.

Olhou para suas próprias mãos.

Por alguns segundos, lembrou da professora Érica perguntando se estava bem.

Então pensou em dizer a verdade.

Mas qual verdade?

Que estava cansada?

Que não gostava da escola?

Que as crianças riam dela?

Que se sentia diferente dentro da própria casa?

Que às vezes tinha a impressão de que Vitória era filha de verdade e ela apenas alguém que havia aparecido por acaso?

Charllotte não sabia explicar.

Só sabia que alguma coisa dentro dela estava começando a ficar pesada.

Naquela noite, enquanto Vitória dormia ao seu lado, Charllotte ficou acordada olhando para o teto.

Do outro lado da parede, ouviu a voz da mãe.

Margareth falava sobre dinheiro.

Sobre contas.

Sobre dificuldades.

Sobre trabalho.

Charllotte ouviu tudo em silêncio.

E percebeu que, naquela casa, sempre havia alguma coisa mais importante do que ela.

O dinheiro.

As contas.

O trabalho.

Os problemas.

Qualquer coisa.

Menos Charllotte.

Ela fechou os olhos.

E, pela primeira vez, fez uma pergunta que ainda levaria muitos anos para conseguir responder:

Se uma criança percebe que sua própria mãe não se importa com ela, para quem ela deveria pedir ajuda?

Charllotte tinha apenas oito anos.

Ainda não sabia.

Mas um dia descobriria que aquela pergunta seria o começo de toda a sua história.

Thoughts

  • Rui_Salgueiro

    Força, Charllotte.

    Permalink
  • carola_2026_s2

    Eu tenho olhos grandes 💞

    Permalink
  • RenataAlmeida

    A Charllotte vai aprendendo a pedir menos ao longo do dia, e quando chega a noite já nem à professora consegue dizer que não está bem. Cabe uma infância inteira num só dia. Aposto que aos dezoito anos ela ainda responde que está bem a toda a gente, e que alguém na série vai finalmente reparar.

    Permalink
  • Oliviamar

    Uma marca na barra da saia que não sai com lavagem nenhuma. Aposto que a Charllotte sabe de cor onde ela está, mesmo sem olhar.

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Naquela época, Charllotte tinha oito anos.

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