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Capítulo 08 : Minha irmã

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Muito acima das antigas prisões, longe das velas verdes e das correntes de fragmentos da Luz, outro debate acontecia.

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DILMAR

Esse Oden defendendo a irmã depois de falar mal dela inteirinha é irmão de verdade. Mexeu comigo, tenho duas filhas que se tratam bem assim.

Esse Oden defendendo a irmã depois de falar mal dela inteirinha é irmão de verdade. Mexeu comigo, tenho duas filhas que se tratam bem assim.

Conteúdo da publicação

Muito acima das antigas prisões, longe das velas verdes e das correntes de fragmentos da Luz, outro debate acontecia.

E estava longe de ser pacífico.

O salão de guerra dos eterianos ocupava o topo da fortaleza.

Cristais escuros emergiam do chão e das paredes como raízes petrificadas. No centro da sala, um mapa de Etérea brilhava sobre uma mesa circular de pedra.

Quatro nações humanas.

Rotas de invasão.

Fortalezas.

Depósitos de Éter.

Tudo marcado.

Oden observava aquilo em seu trono quebrado.

Ele era alto, quase como um titã em sua forma corrompida.

Imponente, temível é sem dúvida sua aparência o fazia parecer perverso.

Os cabelos negros caíam pelos ombros como uma sombra viva. Os olhos prateados percorriam cada ponto do mapa sem realmente enxergá-lo, e de sua boca dentes grandes rasgavam os cantos.

Seu pensamento permanecia preso no castelo, no ataque que havia treinado pessoalmente seus homens para não haver erros. E na retirada, na ordem que jamais dera.

— Explique novamente.

A voz dele ecoou pela sala.

O eteriano ajoelhado diante da mesa engoliu seco, sentindo os calcanhares tremerem.

— Os grupos avançaram conforme planejado, meu senhor.

— E então?

— Recebemos ordem de retorno.

— De quem?

O soldado hesitou.

— Da senhorita Amme.

Uma veia pulsou na têmpora de Oden.

Atrás dele, uma mulher soltou um suspiro delicado.

Yria.

Sua noiva.

Ela estava sentada próximo à janela de pedra, elegante como sempre. Os cabelos claros caiam em ondas perfeitas pelas costas enquanto observava tudo com expressão tranquila. Sua forma humanoide era tão delicada, tão branca, que se passaria facilmente por uma elfa ou ninfa.

— Talvez tenha sido um mal-entendido.

Oden não desviou os olhos do soldado.

— Minha irmã não possui autoridade para cancelar uma operação militar!

— Eu sei, meu senhor.

— Então, por. que. obedeceram?!

— Porque ela disse que era urgente.

— URGENTE COMO?!

O soldado baixou ainda mais a cabeça.

— Ela disse que havia encontrado a salvadora.

Oden fechou os olhos.

Quando os abriu novamente, o soldado sentiu vontade de fugir. A cor prateada escorria em suas bochechas, o rasgo nos cantos se abriam cada vez mais.

— Dispense-o.

A voz veio de outro homem. Esse que tinha um timbre calmo, controlado.

Pentre.

O melhor amigo de Oden permanecia apoiado contra uma das colunas da sala.

Diferente dos demais eterianos, sua aparência conservava algo surpreendentemente gentil.

Talvez fossem os olhos totalmente verdes, como esmeraldas límpidas que refletiam a imagem que estivesse encarando.

Possivelmente seu corpo, que mesmo tento um pouquinho de músculos, ainda era redondo e fofo.

Ele simplesmente não ter se deixado consumir pelo ódio completamente, o mantinha mais próximo da forma saudável de seu povo.

Oden fez um gesto.

O soldado desapareceu da sala quase correndo.

Assim que a porta se fechou, Yria falou novamente.

— Isso está ficando preocupante.

Pentre suspirou.

— Lá vem.

— O quê?

— Você.

Yria ergueu uma sobrancelha.

— Eu apenas estou preocupada com a segurança do nosso povo.

— Claro que está.

Ela ignorou a ironia.

— Primeiro ela desaparece por dias.

— Estava investigando.

— Depois invade um castelo humano sem autorização.

— Não foi sem autorização.

— E então cancela uma operação inteira porque acredita ter encontrado uma figura de uma profecia infantil.

Pentre cruzou os braços.

— Você nem sabe o que aconteceu lá.

— Nem você.

— Exatamente.

Yria voltou-se para Oden.

— Está vendo?

Pentre soltou uma risada descrente.

— Ver o quê? — Oden a questionou, enquanto modifica a sua aparência para a humanóide.

— Como ele sempre a defende.

— Porque alguém precisa fazer isso! — Pendre não conseguiu engolir quieto.

— Curioso.

— Nem um pouco.

Oden massageou a própria testa.

— Chega!

Os dois se calaram imediatamente.

Por alguns milésimos de segundos.

— Não acha estranho? — perguntou Yria suavemente. — Séculos se passam. Então, de repente, Amme encontra exatamente a pessoa que procurava.

— Sim — respondeu Oden.

— E logo depois todo o ataque é interrompido.

— Sim.

— E ninguém sabe onde ela está.

Pentre descruzou os braços.

— Está sugerindo alguma coisa?

Yria inclinou levemente a cabeça.

— Não sugeri nada.

— Sugeriu sim.

— Apenas apresentei fatos.

— Não. Você apresentou suspeitas.

Os olhos dos dois se encontraram.

A temperatura da sala pareceu cair.

— Você a conhece há tempo demais para ser imparcial — disse Yria.

— E você a conhece de menos para acusá-la.

— Eu não a acusei.

— Ainda.

Oden soltou um suspiro longo.

— Minha irmã é impulsiva. — Sua altura diminuiu para um metrô e oitenta.

— Concordo — disse Yria.

— Irritante. — seus cabelos pretos longos se tornaram um coque, com algumas mechas soltas.

— Concordo plenamente.

— Impossível de controlar. — As aberturas em sua boca se fecharam, e nelas surgiram cicatrizes.

— Concordo plenamente e infinitamente.

— Mas não é traidora. — Finalmente sua aparência estava completa, com os olhos prateados criando uma pupila branca.

— Isso mes-

A palavra morreu na língua da loira.

Pentre foi o primeiro a sorrir.

Ela observou Oden cuidadosamente.

— Eu não disse que ela era.

— Mas queria que eu pensasse nisso.

Pela primeira vez, a expressão dela vacilou.

Pentre percebeu e sorriu ainda mais.

— Eu avisei que não funcionaria.

Yria lançou-lhe um olhar fulminante.

— Você está muito confiante para alguém que não sabe onde ela está.

Pentre ficou imóvel.

Oden percebeu imediatamente.

Porque conhecia seu amigo há séculos.

Conhecia aquele olhar.

Conhecia aquele silêncio.

Conhecia aquela preocupação.

— Ela está em mania.

Não era uma pergunta.

Pentre desviou os olhos.

Erro.

Um erro enorme.

Porque confirmou tudo.

Yria sorriu discretamente.

Oden apenas encarou o amigo.

— Há quanto tempo?

Pentre fechou os olhos.

— Oden...

— Há quanto tempo?

— Não sei... Eu soube que ela estava nas masmorras um pouquinho antes de você me chamar para essa reunião.

— Eu não estava me referindo a isso. Espera minha irmã está nas masmorras? Ela está louca de andar por lá?!

Oden se enrolou em sua fumaça, logo yria o imitou.

A fumaça negra atravessou os corredores da fortaleza em velocidade absurda.

Servos saltavam para os lados. Guardas abaixavam a cabeça.

Oden caminhava tão rápido que parecia estar tentando alcançar um pensamento antes que ele fugisse.

Pentre vinha logo atrás.

Yria também.

Os três desciam níveis cada vez mais profundos da fortaleza.

Pedra. Umidade.

Até que as grandes portas das masmorras surgiram à frente.

Dois guardas imediatamente se endireitaram.

— Meu senhor.

— Onde está minha irmã?

Os dois trocaram olhares.

Oden parou.

— Onde. Está. Minha. Irmã?

— Nós...

— Eles não sabem — interrompeu Yria suavemente.

Oden fechou os olhos por um instante.

Respirou.

Não ajudou.

— Explique.

— Talvez não seja ela.

Pentre virou o rosto imediatamente.

— O quê?

Yria cruzou as mãos atrás das costas.

— Os relatos são vagos.

— Relatos?

— Guardas disseram ter visto a senhora Amme descendo.

— Porque era Amme.

— Talvez.

Oden já parecia perigosamente irritado.

— Continue.

— Os corrompidos podem alterar a aparência.

Pentre soltou uma risada descrente.

— Ah, céus...

— Estou apenas considerando possibilidades.

— Está inventando possibilidades.

— Não, não estou.

— Você ouviu meia fofoca de corredor!

Yria ignorou completamente.

— Se os rumores forem verdadeiros, ela também estaria acompanhada por uma humana.

Oden ficou imóvel.

Perigosamente imóvel.

— Sim.

— O que significa que alguém pode estar tentando manipulá-la. Ou usando sua imagem. Ou atraindo-a para uma armadilha. Ou

— Chega.

A palavra saiu baixa.

Muito baixa.

Pentre imediatamente deu um passo para trás.

Porque conhecia aquele tom.

Yria continuou.

— Eu apenas estou tentando—

— Eu disse chega.

Os olhos prateados de Oden se voltaram para ela.

E, pela primeira vez naquela conversa, não havia cansaço neles.

Nem irritação.

Nem preocupação.

Havia raiva.

— Há séculos você faz isso.

Yria piscou.

— Oden...

— Há séculos.

Ela ficou em silêncio.

— Sempre a mesma coisa.— A voz dele ecoava pelas pedras. — Uma dúvida aqui.

— Não foi isso que eu quis—

— Uma suspeita ali.

— Estou apenas—

— E então você recua! — O olhar dele tornou-se afiado. — "Eu não disse isso." Eu não acusei." "Eu apenas apresentei fatos."

Yria permaneceu imóvel.

Pentre observava em silêncio absoluto.

Porque sabia.

Sabia que Oden raramente perdia a paciência.

E quando perdia...

Era melhor não interromper.

— Minha irmã desaparece por dias?

— Porque ela é impulsiva.

— Invade um castelo?

— Porque é impulsiva.

— Sequestra uma princesa?

Os olhos dele se fecharam por um instante.

— Porque é completamente incapaz de ter uma única ideia sensata durante mais de cinco minutos por culpa daquela mania que os humanos trouxeram!

Pentre concordou imediatamente.

— Verdade, geralmente os lapsos dela vêm por essa questão.

— Obrigada, Pentre — respondeu Oden sem nem olhar para ele.

— Disponha chefe, o mínimo.

Yria apertou os lábios.

— Mas isso não significa—

— Não significa que ela seja traidora.—

A voz dele cortou o ar..— Não significa que foi substituída. Não significa que enlouqueceu. Não significa que está conspirando.— Ele deu um passo à frente. — Significa apenas que minha irmã continua sendo minha irmã.

Yria sustentou o olhar dele.

— Eu estava tentando proteger você.

— Não.Você estava tentando proteger sua coroa.

Oden respirou fundo.

Quando voltou a falar, sua voz estava cansada.

— Você está aqui como conselheira porque respeito sua família. Seu avô lutou ao lado do meu pai. Sua mãe morreu defendendo nosso povo. Seu clã sacrificou tudo durante Profén.— Os olhos dele não se desviaram. — É por isso que escuto suas opiniões.— outro passo.— E sou seu noivo por uma razão igualmente política.

A expressão dela endureceu.

Pentre decidiu fingir que não existia.

Era uma estratégia excelente.

— Foi Amme quem me convenceu.— Yria ficou imóvel. — Ela passou cinquenta anos insistindo.  Cinquenta. Anos.

Pentre quase engasgou para o corrigir:

— Foram cinquenta e três.

— Obrigado, Pentre.

— Disponha!

Oden massageou a testa.

— Segundo ela, unir nossas linhagens ajudaria a reconstruir Etérea. Segundo ela, nossos descendentes representariam uma nova era.

Segundo ela, isso criaria estabilidade política. Segundo ela...—Ele soltou um suspiro. — Segundo ela, seria romântico.

Pentre cobriu a boca imediatamente.

Yria pareceu ofendida.

— Isso não foi—

— Foi exatamente o que ela disse. Ela Ela tinha cento e oitenta e sete. Ainda era jovem para nossos padrões. Mas ela negou seu trono, para que eu pudesse estar onde estou é me influenciou a te escolher como futura rainha, então chega de tentar me virar contra sua cunhada!  Você é minha conselheira. Não minha governante. Não minha irmã. E certamente não decidirá quem Amme é ou deixa de ser.

Oden desviou o olhar.

— Agora.— As pupilas prateadas voltaram-se para os guardas. — Abram essa porta.

Os dois obedeceram imediatamente.

As correntes rangeram.

A entrada das masmorras começou a se abrir lentamente. Se Amme realmente estivesse lá embaixo...

Havia uma boa chance de que tivesse feito algo extremamente estúpido.

E, infelizmente, isso tornava os rumores muito mais críveis.

Thoughts

  • NunoParreira

    Reli isto à noite e ficou-me atravessada a ideia da Yria de que os corrompidos mudam de aparência. Ela atira aquilo ao ar e depois já ninguém consegue tirar a coisa da cabeça, nem eu. Aposto que essa dúvida vai descer com eles, com a Amme e a humana lá no meio.

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  • DILMAR

    Esse Oden defendendo a irmã depois de falar mal dela inteirinha é irmão de verdade. Mexeu comigo, tenho duas filhas que se tratam bem assim.

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  • thiago_backend

    A irmã não tem autoridade nenhuma e mesmo assim os grupos voltaram quando ela mandou. Na prática a ordem dela pesa mais que a regra. Aposto que é isso que volta pra morder o Oden mais pra frente.

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  • Ovid

    O Oden encolhendo de tamanho e fechando os cortes da boca enquanto vai dizendo que a irmã é impulsiva, irritante, impossível de controlar, isso me fez pensar em como a gente se acalma justo falando mal de quem ama. Aposto que aquela porta abre num problema bem maior do que ele calculou. Fico esperando o próximo.

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  • pavor_incluso

    O Pentre entregou tudo sem dizer uma palavra, só com o olhar, e depois ainda ficou de corretor de datas no meio da briga. Cinquenta e três anos, chefe.

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