Fiquei com a data cravada a lâmina atrás do medalhão. Parece coisa feita com raiva, anos depois, naquela capela vazia. Na sua cabeça o Ezekiel gravou aquilo na mesma noite do ataque?
Capítulo 08 - Ezekiel, o Grande Herói
O túnel terminou pouco antes do amanhecer, quando os quatro finalmente saíram da passagem subterrânea, encontraram-se em uma encosta por árvores baixas e pedras antigas, bem longe das muralhas de…
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Pensamento
Fiquei com a data cravada a lâmina atrás do medalhão. Parece coisa feita com raiva, anos depois, naquela capela vazia. Na sua cabeça o Ezekiel gravou aquilo na mesma noite do ataque?
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O túnel terminou pouco antes do amanhecer, quando os quatro finalmente saíram da passagem subterrânea, encontraram-se em uma encosta por árvores baixas e pedras antigas, bem longe das muralhas de Arken. A cidade ainda podia ser vista ao fundo, envolta por uma camada escura que cobria parte do céu, mas a distância fazia o caos parecer quase irreal. Havia fumaça subindo de alguns e, acima da torre branca da biblioteca, a presença de Azoth ainda podia ser percebida como uma mancha escura contra o horizonte.
Edran recomendou que não permanecessem ali por muito tempo, mas ninguém parecia disposto a seguir em frente sem antes de descansar. Daiquiri estava exausto, tanto fisicamente quanto pela quantidade de coisas que descobrira em poucas horas, e a lembrança de Polaris continuava voltando à sua mente sem que ele conseguisse impedir. Sempre que fechava os olhos, via os dois meninos correndo pelo campo, embora não soubesse quando aquela cena acontecera ou por que havia desaparecido de sua memória.
Maria percebeu isso antes dos outros, ela havia se sentado sobre uma pedra enquanto organizava os objetos da bolsa, mas percebeu que Daiquiri permanecia afastado, olhando para a paisagem sem realmente enxergá-la. Aproximou-se devagar e ficou ao lado dele sem dizer nada por alguns instantes, respeitando o silêncio. Depois falou com a mesma tranquilidade que costumava usar sempre que precisava abordar algum assunto difícil.
— Você não precisa fingir que está bem só porque ainda consegue andar. Desde que você teve essa nova lembrança, você está tentando reconstruir alguma coisa que não consegue alcançar, e isso está te consumindo mais do que a própria ligação com Azoth. Eu não vou pedir para você me contar o que está pensando, mas quero que saiba que, quando estiver pronto, pode contar... Nem tudo precisa ser resolvido no mesmo dia em que descobrimos que existe um problema.
Daiquiri permaneceu olhando para a mancha no céu.
— O pior é que eu não consigo saber se aquela lembrança é realmente minha. Eu lembro de Polaris, mas as coisas são confusas — ele abaixou sua cabeça e colocou as mãos sobre ela. — Eu lembro de nós dois juntos, lembro do rosto dele, lembro da voz do meu pai, mas não consigo lembrar de como tudo terminou. É como se alguém tivesse arrancado a parte mais importante da história e deixado só os pedaços que não doem. E agora aquela coisa dentro de mim está trazendo tudo de volta.
— Talvez porque você tenha passado muito tempo sem olhar para isso. — Marina cruzou os braços e apoiou a cabeça no ombro dele. — O que sabemos é que Ezekiel não queria que você soubesse de alguma parte da sua própria história, e isso pode ter sido por medo, pode ter sido proteção ou pode ter sido culpa, isso ainda não sabemos.
— E acha que ele fez isso de propósito? — ele perguntou.
— Não sei, eu acho que seu pai fez muitas coisas de propósito, o problema é que ainda não sabemos quais foram feitas para salvar você e quais foram feitas porque ele próprio não conseguiu lidar com o que aconteceu — ela se afastou e puxou o rosto dele para si e ficou o olhando nos olhos, ele não tinha mais os mesmos brilhos nos olhos de quando saiu com a caravana, ela percebeu que o rosto dele estava começando a ficar vermelho e ele então desviou o olhar.
— Marina... — ele suspirou fundo. — Você acha que ele era um homem ruim?
— Olha — Marina demorou um pouco para responder, a voz soou mais baixa do que o normal, ela se aproximou um pouco mais, reduzindo perigosamente a distância entre os dois. — Eu não conheci o seu pai, então não vou fingir que sei quem ele era, mas eu conheço o que ele deixou para trás. Um homem ruim não necessariamente deixaria registros tentando proteger o próprio filho, arriscaria a própria vida para impedir que uma entidade voltasse ao mundo e esconderia informações que poderia tornar sua família um alvo — Os olhos dela desceram para os lábios de Daiquiri, demorando-se ali um segundo a mais do que o necessário, antes de voltarem a capturar o seu olhar. — Isso não significa que eu ache que ele é perfeito, pessoas podem amar alguém e ainda assim machucá-las com as escolhas que fazem, e talvez seja isso que precisamos descobrir.
Daiquiri baixou os olhos, a respiração presa na garganta. O coração batia tão forte que parecia ecoar no silêncio ao redor, a vulnerabilidade do assunto se misturando a uma esranha atração repentina.
— Eu só queria ter tido a chance de perguntar... — ele sussurrou e se aproximou de Marina.
— Então vamos descobrir... — ela murmurou de volta.
Eles inclinaram os rostos, as respirações se misturaram, os lábios a meros milímetros de se tocarem, a tensão puxando os dois como a gravidade, inevitel.
— Edran mandou a gente seguir.
A voz de João soou de supetão bem atrás deles, cortando a tensão como uma lâmina. Os dois deram um sobressalto, separando-se abruptamente como se tivessem levado um choque. Daiquiri pigarreou, o rosto ardendo em um vermelho vivo, desviando o olhar para qualquer lugar que não fossem os olhos do outro. João estava parado ali, os braços cruzados, a expressão alegre de quem está preparado para contar uma piada, mas que não havia percebido que acabara de arruinar o momento.
— É melhor irmos logo — ele completou, virando de costas e já começando a caminhar, deixando os dois para trás com as respirações ainda descompassadas e o gosto fantasma de algo que não aconteceu.
Mais tarde, quando retornaram a caminhada, Edran os conduziu para uma antiga estrada que cortava as montanhas em direção ao sul. O velho explicou que, antes da ascensão de Arken, aquela região havia servido como rota entre os pequenos povoados, e que existiam alguns santuários e locais de repouso construídos por famílias importantes e tribos de homens-fera. Um desses lugares, segundo ele, estava ligada diretamente ao túmulo oficial do herói, mas um local que o próprio Ezekiel teria usado para guardar objetos pessoais e homenagear pessoas que perdera ao longo da vida, a notícia fez Daiquiri mudar o rumo sem hesitar: — Eu quero ir até lá.
Edran não discutiu e aceitou.
A viagem durou quase um dia inteiro, o grupo atravessou uma região cada vez mais afastada das estradas principais, onde as árvores cresciam em maior quantidade e pequenas construções abandonadas surgiam entre as montanhas. João passou boa parte do caminho tentando adivinhar quantas armadilhas antigas existiam naquela região, enquanto Alexander mantinha-se atento a qualquer movimento.
Marina, por outro lado, continuava estudando os mapas e registros retirados da biblioteca. De tempos em tempos, fazia anotações e guardava papéis dentro da bolsa, que parecia já ter se transformado em um pequeno arquivo ambulante.
No fim da tarde, encontraram uma escadaria de pedra parcialmente destruída que subia até uma pequena construção cerca por árvores. O lugar não tinha o tamanho e nem a imponência de um túmulo dedicado a um herói. Parecia quase uma capela abandonada, não havia estátuas de Ezekiel, nenhum símbolo da antiga ordem de cavaleiros a que ele pertencia e nenhuma bandeira, havia apenas uma porta de madeira envelhecida e uma placa de pedra coberta de musgo.
Daiquiri foi quem se aproximou primeiro, limpou a placa com a mão e conseguiu ler apenas parte da inscrição.
— "Aos que..." — ele começou, franzindo a testa. — O resto sumiu.
— Não é um túmulo, é um memorial — Edran respondeu atrás dele.
— Pra quem? — Daiquiri se virou.
— Para todos aqueles que Ezekiel não conseguiu salvar — Edran olhou para a construção, não percebeu, mas sua fala fez todo o grupo permanecer em silêncio.
A porta estava destrancada.
Quando entraram, encontraram um salão estreito cheio de pequenas placas na parede, haviam nomes de soldados, aldeões, crianças e pessoas de diferentes povos e raças. Algumas placas eram antigas demais para serem lidas, no centro havia uma mesa de pedra com algumas flores secas e, na parede atrás dela, duas pequenas placas maiores.
Daiquiri se aproximou e se pôs a ler: uma delas trazia o nome de Ezekiel e a outra, menor, trazia um nome que ele não via havia anos, o nome de Polaris.
Daiquiri ficou travado, João que vinha logo atrás, percebeu a mudança em seu rosto e não fez nenhuma piada. Alexander também permaneceu em silêncio, Maria até se aproximou lentamente, mas não o tocou.
— Por que o nome dele está aqui? — Daiquiri passou o dedo sobre as letras.
— Por que esse lugar era onde seu pai vinha quando precisava lembrar por que continuava vivo — disse o velho homem após alguns segundos.
— Eu não sabia que o Polaris tinha um memorial.
— Pouca gente sabia — disse imediatamente. — O Ezekiel era um grande herói, ele não queria que o nome do falecido filho circulasse por aí — e desviou o olhar por um breve momento.
— Edran — Marina percebeu imediatamente. — Acho que passou da hora de algumas coisas deixarem de ser escondidas, Azoth está livre, precisamos fazer alguma coisa.
O velho respirou fundo e buscou um lugar para se sentar.
— Ezekiel acreditava que, quanto menos pessoas soubessem que Polaris existiu, menores seriam as chances de o culto procurar a sua família novamente. O culto conhecia a sua família e eles atacaram uma vez, acreditavam que a essência de Azoth estava com seu irmão, Polaris — Edran olhou para Daiquiri e percebeu que o mesmo tinha uma expressão assustada, como se estivesse tentando juntar as peças na sua cabeça. — Na época, ninguém sabia ao certo onde a essência de Azoth estava, o culto reuniu fragmentos de informações e chegou à conclusão de que Ezekiel era um descendente dos antigos magos e que poderia a essência poderia ter reencarnado em um dos filhos dele, mas eles não sabiam qual, quando perceberam que Polaris estava mais próximo dos registros e que Ezekiel tentava escondê-lo da sociedade, decidiram que era ele.
— E foi por isso que atacaram a família? — Marina perguntou, apesar de já saber a resposta.
Daiquiri fechou os olhos, a lembrança que tivera no túnel voltou, mas agora havia algo novo dentro dela, não apenas duas crianças correndo felizes, elas corriam com medo, havia um som distante de metal, alguém gritando e o barulho de uma porta sendo arrombada.
— Eu lembro vagamente. — Daiquiri murmuou, apertando a testa com uma das mãos. — Meu pai estava machucado, eu lembro dsso, havia sangue, muito sangue, ele estava segurando alguma coisa... talvez uma espada, e o Polaris estava fugindo comigo — A respiração dele ficou mais pesada. — Eu... Eu sei que havia pessoas entrando, eles estavam procurando por alguém, mas também lembro do meu pai mandando a gente correr.
— E depois? — Edran interrompeu.
— Eu não consigo mais lembrar. — Daiquiri abriu os olhos novamente.
— Não precisa forçar — João se aproximou e tocou o ombro dele.
— Não, João. Eu quero lembrar! — ele se afastou um pouco. — Eu quero lembrar e saber o que realmente aconteceu com meu irmão.
João não respondeu de imediato, mas quando finalmente falou, não falou como o João que o grupo conhecia, sua voz estava firme e séria.
— Nós vamos descobrir Daiquiri, mas você não precisa arrancar isso da própria cabeça somente pra provar que se importa com ele, nós sabemos que se importa com ele, então está tudo bem ficar confuso e triste pela morte dele, mas não se culpe.
Daiquiri permaneceu em silêncio.
Marina caminhou até uma pequena prateleira no fundo da sala, haviam alguns objetos cobertos por tecido, ela puxou um deles e encontrou um medalhão antigo.
— Edran, isso era do Ezekiel?
O velho se aproximou e reconheceu o objeto do seu antigo amigo, então assentiu com a cabeça. Marina entregou o medalhão na mão de Daiquiri, o símbolo gravado na frente era diferente do brasão usado nas estátuas do herói, era uma representação simples de duas estrelas.
— Polaris e Daiquiri — disse Edran. — Seu pai mandou fazer com um ferreiro competente quando vocês ainda eram crianças.
— Ele nunca me mostrou isso — Daiquiri segurou o objeto.
— Isso porque, depois da morte de Polaris, ele a guardou.
Daiquiri virou o medalhão e havia uma pequena inscrição na parte interna: "Enquanto um de vocês viver, nenhum dos dois estará perdido". Daiquiri passou o polegar pelas palavras, João respirou fundo, Alexander permaneceu próximo à porta e Marina se aproximou do medalhão e passou a observá-lo.
— Ei, tem algo escrito ali atrás — disse ela.
Daiquiri virou a peça, era exatamente a data do ataque, havia sido cravada com uma lâmina, abaixo dela havia uma frase talhada: "Eu falhei com uma de minhas estrelas".
— Meu pai escreveu isso? — Daiquiri olhou para Edran e viu o velho assentir com a cabeça. Ele então caminhou até uma pequena passagem, e atrás dela havia um nicho estreito contendo um punhado de papéis, que pareciam documentos.
— Seu pai me pediu para esconder isso, dias antes dele morrer — Edran se levantou e se aproximou de onde o garoto estava. — Ele me pediu para que não entregasse enquanto você não estivesse preparado para ouvir a história completa. Mas agora, Azoth está livre, você carrega uma das duas essências e os seguidores dele já sabem que você é o receptáculo. Acredito que continuar escondendo seria condená-lo à ignorância justamente quando ela pode custar sua vida.
O velho retirou um envelope amarelo e entregou para Daiquiri, seu nome estava escrito na frente com a letra de Ezekiel, por alguns segundos ele ficou olhando para o envelope, até que decidiu abrí-lo, mas não chegou chegou a ler, pois um ruído veio do lado de fora.
Alexander foi imediatamente até a porta e retornou ao grupo com a espada em mãos.
— Temos companhia.
— Quantos? — João pegou o arco.
— Muitos — Alexander olhou pela fresta. — Provavelmente seguidores de Azoth.
Enquanto eles se preparavam para enfrentar as pessoas que se aproximavam, Marina abriu sua bolsa e começou a pegar o máximo de documentos possíveis e guardá-los dentro da bolsa.
— Precisamos decidir rápido se vamos lutar ou ficar e defender o memorial. — disse Alexander.
— Vamos embora — Daiquiri segurou a carta contra o peito. — Já temos tudo o que precisamos.
— E o memorial? — Questionou Alexander.
— Nós vamos voltar em breve — Daiquiri voltou a olhar para a placa com o nome de Polaris.
O grupo saiu pela parte de trás da construção antes que os perseguidores alcançassem a entrada principal. A descida pela encosta foi difícil, especialmente com Edran carregando alguns documentos e Daiquiri ainda tentando processar tudo o que haviam descoberto.
Quando eles finalmente chegaram à floresta, ouviram o som dos cultistas quebrando portas e entrando no memorial. O grupo se esconder e permaneceu ali em silêncio por alguns minutos, foi João quem quebrou aquele silêncio.
— Ei Daiquiri... acho que seu pai errou em uma coisa.
— O quê? — olhou para João.
— Ele achou mesmo que esconder o nome de Polaris ia esconder o seu passado de você?
— Eu não sei se posso perdoar ele por isso — pressionou o envelope contra o peito.
— Não precisa decidir isso agora — Marina respondeu enquanto puxava os dois para que saíssem logo dali. — Primeiro descubra o que realmente aconteceu, e depois você decide se vai perdoar ele ou não.
— E lembrem-se que ainda estamos sendo perseguidos. — Alexander acelerou o passo, falou sem olhar para trás, enquanto carregava Edran nos ombros.
O grupo continuou pela floresta enquanto o céu escurecia. Atrás deles, o memorial de Ezekiel permanecia escondido entre as árvores, agora cercado por inimigos que procuravam uma resposta que o próprio herói havia passado anos tentando esconder.
À frente, Daiquiri carregava a carta do pai junto ao peito, não tinha coragem de ler, mas sabia que, quando o fizesse, talvez encontrasse a primeira resposta para uma pergunta que o acompanhava desde criança: "O que de verdade aconteceu com Polaris?". E, em algum ponto entre a lembrança fragmentada e as palavras de Ezekiel, talvez estivesse a verdade sobre o homem que todos chamavam de herói, um homem que, em apenas uma noite, não conseguiu salvar os dois filhos.
Thoughts
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PermalinkDesde o túnel que o João só fazia piadas, e agora a falar a sério foi o que mais me ficou. Se calhar é ele quem vai aguentar o Daiquiri quando a carta for aberta.
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PermalinkAs duas estrelas no medalhão me fizeram pensar no nome do Polaris, que é a estrela que não sai do lugar e guia quem está perdido no escuro. Aposto que isso foi escolhido de propósito e que o Daiquiri vai acabar sendo a estrela que sobra pra guiar o resto do grupo. Fiquei curioso pela carta, espero o próximo!
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PermalinkFiquei com a data cravada a lâmina atrás do medalhão. Parece coisa feita com raiva, anos depois, naquela capela vazia. Na sua cabeça o Ezekiel gravou aquilo na mesma noite do ataque?
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