Pular para o conteúdo
Carregando…

Capítulo 07 : Uma porta aberta

sids
Pública 2 conversas 8 pensamentos 33 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Aras soltou uma respiração lenta.

Em séries

In groups

Pensamento

Pensamento

NunoParreira

Uma criatura com séculos, que diz ter visto cadáveres que cheguem, rapta uma princesa sem pensar no que faz se ela disser que não. Isso deixa-me mais desconfiado do irmão do que dela: alguém a deixou chegar até aqui sem perguntas, e eu inclino-me a achar

Uma criatura com séculos, que diz ter visto cadáveres que cheguem, rapta uma princesa sem pensar no que faz se ela disser que não. Isso deixa-me mais desconfiado do irmão do que dela: alguém a deixou chegar até aqui sem perguntas, e eu inclino-me a achar que ele sabe mais deste rapto do que a Amme imagina.

Conteúdo da publicação

Aras soltou uma respiração lenta.

— Não sou salvadora de ninguém.

Amme sorriu.

Não um sorriso fanático desta vez.

Um sorriso cansado.

— Eu também teria dito isso.—  A eteriana abaixou-se e pegou a bandeja. — Você precisa comer.

— Não estou com fome.

— Está sim.

— Não. estou.

Amme ignorou a resposta.

Sentou-se diante das grades e aproximou o recipiente metálico.

— Se continuar sem comer, vai desmaiar de novo.

Aras observou a sopa.

— Está envenenada?

— Se eu quisesse matar você, teria escolhido um método menos trabalhoso.

A princesa selou os lábios fortemente.

Amme suspirou.

— Certo.

Pegou uma colher.

Tomou um gole da sopa.

Depois outro.

E mais um.

Somente então voltou a estender o recipiente.

— Satisfeita?

Aras continuou encarando-a.

— Não.

— Justo.

Por fim, após alguns segundos, aceitou uma pequena colherada.

O sabor era estranho, uma mistura de ervas e raízes.

Algo levemente adocicado equilibrava o amargo é o azedo.

Amme pareceu genuinamente feliz por aquela pequena vitória.

— Viu? Não morreu.

— Ainda não.

— Dê alguns minutos.

A resposta arrancou uma expressão quase indignada de Aras. Amme soltou uma risada baixa.

Durante alguns instantes, o único som foi o da colher tocando o metal.

Então a eteriana voltou a falar.

— Eu tive uma ideia.

Aras ergueu os olhos.

— Isso nunca é uma frase tranquilizadora.

Amme apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Não quero perder ninguém.— A mudança em sua voz foi imediata. — Nem humanos. Nem eterianos.

Aras observou seu rosto.

Pela primeira vez desde que acordara, não viu obsessão.

Viu apenas cansaço.

— Meu irmão acha que a guerra é inevitável.

— E você não?

— Passei séculos vendo cadáveres.— A resposta veio simples. — Já tivemos vingança suficiente.

As velas verdes estremeceram.

— Então qual é o plano?

Amme endireitou a postura.

Como alguém que finalmente chegava ao ponto principal.

— Apresentar você a ele.

Aras piscou.

— A quem?

— Você e meu irmão.

— Você me sequestrou para uma conversa?

— Sim.

A princesa encarou-a perplexa.

— Essa é, sem dúvida, a pior forma possível de organizar uma reunião.

— Admito que a logística poderia ter sido melhor.

Aras fechou os olhos tentado fingir que àquilo era normal.

— Continue.

— Você conversa com ele.

— E então?

— Vocês encontram uma solução.

— Uma solução para uma guerra que dura séculos?

— Sim.

Aras encarou-a como se tivesse enlouquecido. Amme prosseguiu mesmo assim.

— Depois eu a devolvo.

— Devolve?

— Ao seu marido.

Marido?

O casamento nem sequer havia terminado.

Ainda assim...Yal.

O olhar quando escolheu ficar para lutar... ele ainda estaria vivo?

Amme continuou:

— Você convence ele.

— Convenço do quê?

— Da paz.

Aras soltou uma risada curta.

Sem humor.

— Você realmente acha que isso é tão simples?

— Não. — Pela primeira vez, Amme respondeu sem hesitação. — Acho que é quase impossível.

Aquilo surpreendeu Aras.

— Então por que tentar?

A eteriana olhou para as próprias mãos.

— Porque a alternativa é assistir meu irmão conquistar os reinos um por um.— Seus dedos apertaram o recipiente metálico. — E assistir os humanos responderem da única maneira que sabem.

Aras permaneceu em silêncio.

Por um momento, Amme pareceu muito jovem.

Muito mais jovem do que uma criatura que sobrevivera por séculos deveria parecer.

— Então é isso? — perguntou Aras. — Seu plano é me entregar ao líder dos eterianos e esperar que eu resolva tudo conversando?

— Resumidamente?

— Sim.

— Sim.

— É o plano mais absurdo que já ouvi.

Amme sorriu.

— Eu sei.

— Tem inúmeras falhas.

— Eu sei.

— Provavelmente vai terminar em desastre.

— Também sei.

— Então por que continua acreditando nele?

A eteriana ergueu os olhos cheios de uma pequena, frágil e infantil esperança.

— Porque você abriu uma porta uma vez.

Aras sentiu algo apertar dentro do peito.

— O quê?

Amme sorriu suavemente.

— Uma única porta foi o suficiente para mudar o destino de muitos. Então por que uma conversa não teria o mesmo efeito? Quero dizer... você já conseguiu fazer o que eu considerava impossível, então eu acredito que você pode fazer isso outra vez!

— E se eu não quiser fazer isso?

A expressão de esperança morreu.

— Como é?

— Você me ouviu bem. — Aras inclinou levemente a cabeça. — O que vai fazer comigo se eu não quiser conversar com seu irmão? E se eu aceitar, mentir para ele e não cumprir nada do que foi prometido?  Me diz. — A voz de Aras permaneceu calma. — O que exatamente você vai fazer comigo?

Amme a encarou boquiaberta.

Seria quase cômico se os dentes afiados não estivessem aparecendo entre os lábios entreabertos e se uma fina linha de saliva escura não estivesse escorrendo por um dos cantos da boca.

A eteriana piscou, como se a pergunta jamais tivesse lhe ocorrido.

— Eu...

Ela parou.

Aras ergueu uma sobrancelha.

— Você não pensou nisso, pensou?

— Pensei.

— Não pensou.

— Pensei sim.

— Então responda.

Amme abriu a boca.

Fechou.

Abriu novamente.

— Eu não sei.

Aras engoliu a risada que subiu pela garganta. Respirou fundo é forçou a voz para seguir minimamente séria.

— Você não sabe?

— Não.

— Você me sequestrou.

— Sim.

— Me drogou.

— Sim.

— Me trouxe para uma prisão subterrânea.

— Tecnicamente é uma fortaleza.

— Amme!

— Certo. Prisão subterrânea.

Aras fechou os olhos, se sentia falando com um dos sobrinhos pequenos quando eram pegos antes de fazer suas traquinagens.

— E não pensou no que faria se eu recusasse?

— Eu achei que você aceitaria!

A princesa voltou a encará-la, com um brilho de abismada e diversão.

— Baseada em quê?

Amme pareceu genuinamente confusa.

— ora, em você.

— Isso não responde a pergunta tão bem assim .

— Responde sim.

— Não, não responde.

A eteriana soltou um suspiro frustrado.

— Você ajudou pessoas que estavam presas.

— Quando eu tinha uma suposta idade de sete anos não é?

— Ainda ajudou.

— Isso não significa que vou arriscar uma guerra inteira porque uma desconhecida acredita numa profecia.

— Eu não acredito numa profecia. Eu acredito em você!— A eteriana abaixou os olhos para o recipiente metálico em suas mãos. — São coisas diferentes.

As velas verdes tremularam.

— Profecias mentem. Pessoas também.

— Sim.

— Então por que confiar em mim?

Amme demorou a responder.

Quando falou, sua voz estava muito envergonhada.

— Porque eu preciso de esperança.—

Os dedos dela apertaram o metal. — Quando eu estava quase a perdendo, me tornando um monstro... você me ajudou,não tinha motivo para nos ajudar mas mesmo assim o fez.

— suponho que eu talvez fosse ingênua.

— Talvez.

— Crianças costumam ser.

A resposta arrancou um ruído estranho da princesa.Não chegou a ser uma risada, mas foi perto disso.

Para Aras àquilo era tão louco, estranho. Ela estava de frente para uma Eteriana de séculos de vida, mas apenas a enxergava como uma criancinha que acabará de descobrir a maldade do mundo.

Amme percebeu o riso frouxo, e mesmo não entedo o real motivo por trás, sorriu imediatamente.

— Você quase riu.

— Não.

— Quase.

— Não.

— Quase.

— Estou presa numa cela...

— Sim.

— Acorrentada...

— Sim.

— Conversando com uma sequestradora....

— Sim.

— Não existe nada engraçado nessa situação!

— Concordo.

— Então pare de parecer tão satisfeita, eu não ri!

— Não consigo.

— Por quê? — Aras mordeu os lábios, sentia sua bochecha esquentar conforme se segurava mais e mais para não gargalhar.

Amme apoiou o queixo na mão.

O sorriso continuava ali. Seus olhos admiravam àquela cena tão sem sentido.

Era tão linda. Mesmo com o vestido de noiva destruído e manchado de vermelho, mesmo com o cabelo desgrenhado. Aquela expressão tão exagerada, o rosto vermelho e os olhos quase virando uma linha. O céus, como Aras estava linda aos olhos de Amme.

— Porque quando acordou, parecia alguém procurando uma maneira de quebrar meu pescoço.

— Eu ainda estou procurando...

— Eu sei.

— Então por que está sorrindo?

Amme inclinou a cabeça.

— Porque você está quase sorrindo para mim!

O riso na garganta parou.

Por um instante, Aras percebeu algo desconfortável.

Amme não parecia temê-la, nem odiá-la e nem sequer esperar algo dela naquele momento.

Ela apenas...

Gostava de estar em sua presença.

Thoughts

  • brunocosta

    Fiquei no Yal, que ela lembra a meio da conversa e larga logo. O Yal volta no próximo capítulo?

    Permalink
  • Oliviamar

    A Amme só a gostar da companhia dela, no fim, foi o que vi antes do resto. As correntes e os sins todos do meio já me pareceram outra conversa depois disso.

    Permalink
  • NunoParreira

    Uma criatura com séculos, que diz ter visto cadáveres que cheguem, rapta uma princesa sem pensar no que faz se ela disser que não. Isso deixa-me mais desconfiado do irmão do que dela: alguém a deixou chegar até aqui sem perguntas, e eu inclino-me a achar que ele sabe mais deste rapto do que a Amme imagina.

    Permalink
  • bica_minimalista

    Fortaleza, então 😏

    Permalink
  • Ovid

    A porta que a Aras abriu aos sete anos me fez pensar em como um gesto pequeno de criança pode virar a razão de alguém seguir em frente por séculos. Aposto que ainda vamos ver essa porta de novo, contada do lado da Amme. Obrigado por seguir postando a história de Hagar!

    Permalink
  • pavor_incluso

    Cravei a sopa. Só não previ a Amme tomando três colheradas na frente dela pra provar que não tinha veneno.

    Permalink

Related posts

  • Capítulo 01 : A coroa

    Anos se passaram desde que Enaira desistiu do trono. Aras já completara dezoito anos, a coroa a aguardando - junto ao noivo escolhido dias depois de seu coração ter sido roubado.

  • Capítulo 06 : A salvadora

    A consciência voltou devagar.

  • Capítulo 02 : Condições diferentes

    Sua mente acabou sendo puxada à realidade quando três batidas sutis foram dadas na porta. Uma de suas novas damas de companhia — aquela a qual Aras desconfiava ter encontrado suas cartas íntimas —…

  • Epílogo -

    Pesada é a cabeça que carrega a coroa.

  • Capítulo 08 : Minha irmã

    Muito acima das antigas prisões, longe das velas verdes e das correntes de fragmentos da Luz, outro debate acontecia.

  • Capítulo 03: A cerimônia

    Yal estava prestes a retrucar, ou melhor, assegurar a sua noiva que não teria amantes de sua parte. Felizmente, antes mesmo das palavras saírem gaguejadas, um dos guardas bateu na porta.

  • Capítulo 09 : Apenas iguais

    As portas terminaram de se abrir com um rangido pesado.

  • Capítulo 05: O sequestro

    O som veio antes da dor.