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Capítulo 05: O sequestro

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O som veio antes da dor.

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BiaCastelo

Trancar o castelo depois que a dama sumiu num redemoinho de sombra não prende quem saiu, só quem ficou dentro. Aposto que o próximo capítulo tem guarda desconfiando de servo e algum inocente pagando.

Trancar o castelo depois que a dama sumiu num redemoinho de sombra não prende quem saiu, só quem ficou dentro. Aposto que o próximo capítulo tem guarda desconfiando de servo e algum inocente pagando.

Conteúdo da publicação

O som veio antes da dor.

Um ruído úmido, logo o guarda travou.

Os joelhos atingiram o chão de pedra com força, fazendo Aras perder o equilíbrio junto dele. Por um segundo, ela não compreendeu. Então algo quente atingiu seu rosto.

Sangue muito, muito sangue.

As damas gritaram. Ou talvez apenas uma delas. Era difícil distinguir.

A cabeça do guarda rolou pelo corredor.

O corpo permaneceu ajoelhado por um instante absurdo, quase respeitoso, antes de desabar para frente.

Aras caiu junto. O cheiro de ferro tomou o ar imediatamente.

As tochas tremularam e então ela viu.

Uma das damas de companhia permanecia de pé no centro do corredor. Ou melhor— o que restava dela.

O vestido claro estava completamente encharcado de vermelho. Não apenas manchado, realmente encharcado.

Os fios dourados bordados no tecido haviam desaparecido sob camadas espessas de sangue fresco.

Atrás dela, duas outras damas jaziam no chão. Imóveis. Os pescoços abertos de forma grotesca.

Aras reconheceu uma das mãos caídas. Ainda segurava parte da saia em um reflexo inútil de fuga.

A dama ergueu lentamente o rosto.

Os olhos.

Não havia humanidade neles.

As pupilas estavam dilatadas demais, quase consumindo toda a íris, enquanto veias escuras subiam por seu pescoço como raízes apodrecidas sob a pele.

O sorriso veio depois. Lento, com dentes afiados e tortos.

Sangue escorria de sua boca até o queixo.

— Finalmente sozinha… — a voz dela saiu errada. Como se outra coisa respirasse junto das palavras.

As damas nunca haviam sido guerreiras. Aquela também não era. O braço que segurava a espada porém, tremia por excesso de força.

Aras se levantou imediatamente, ainda escorregando no sangue do guarda.

Sem espada. A sua havia ficado no salão.

A criatura — porque já não parecia correto chamá-la de mulher — inclinou a cabeça de maneira brusca, quase quebrando o próprio pescoço no movimento.

— Procurei por você durante tanto tempo… — sussurrou ela. — E agora… agora finalmente posso vê-la… outra vez.

Aras recuou um passo.

Aquilo não era um eteriano comum.

Não. Aquilo, aquela voz parecia… familiar.

Os sons da batalha pareciam distantes agora, possivelmente pelas paredes de pedra, mas poderia ser também por culpa daquele momento. A respiração ofegante de ambas coordenadas, fazia com que o cérebro da princesa se cala-se.

A dama avançou.

Aras desviou por pouco quando a espada desceu contra a parede, arrancando pedra e faíscas do corredor.

A princesa agarrou o pulso da mulher imediatamente, usando o próprio impulso dela para desviá-la contra a lateral.

Mesmo sem arma, Aras continuava tentando atacar.

A dama riu.

Riu mesmo com o braço claramente deslocado. E então o recolocou no lugar sozinha, com um estalo seco.

Aras finalmente sentiu algo próximo do medo.

A mulher ergueu os olhos outra vez.

E sorriu ainda mais ao perceber isso.

— Ah… então você ainda consegue sentir alguma coisa… princesa.

— O que você quer dizer? — sua voz saíu falha, ofegante.

— Logo irá descobrir, alteza.

A criatura assoprou um pó, que saiu de sua própria boca. Era verde e cintilante, com um cheiro surpreendentemente agradável de hortelã é limão.

A princesa não teve chance. Seus olhos pesaram ao inalar a substância, e não teve força alguma para se mover.

A Dama pegou Aras nos braços, deixando marcas no vestido branco. Seu rosto voltou a ser humano, o sangue de sua boca que havia escorrido até seu queixo já estava seco.

Os olhos castanhos agora tinham um pequeno brilho, enquanto encarava a princesa. Uma sombra enrolou as duas, a sensação de estar em um redemoinho já era rotineira para a dama. Porém, admirando o rosto sereno de Aras, ela sentiu algo mágico. A jovem criatura, de aparência tipicamente feminina, estava feliz.

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O aço atravessou o último eteriano.

Yal puxou a espada de volta com força, sentindo o corpo da criatura desabar aos seus pés como matéria sem estrutura. Ao redor dele, o salão havia se tornado irreconhecível.

Sangue, vidros quebrados. Bandeiras queimando lentamente e Corpos espalhados entre mesas destruídas.

Os gritos começaram logo depois.

— Eles estão recuando!

— Recuando!

— Nós vencemos!

Um dos guardas chegou a rir, quase incrédulo, enquanto outro erguia a espada ensanguentada para o alto. Os eterianos realmente estavam desaparecendo.

Pequenos redemoinhos negros se abriam pelo salão como rasgos na própria realidade. As criaturas restantes recuavam para dentro deles sem hesitação, sendo consumidas pela escuridão um a um.

Yal respirou fundo pela primeira vez desde o início do ataque.

Venceram.

"Vencemos" — O pensamento veio automático, natural. E assim, o próximo também chegou de supetão — "Aras."

Seu corpo endureceu imediatamente.

Os olhos verdes percorreram o salão. Não. Ela já deveria estar longe.

Com o guarda e as damas.

Segura.

O príncipe virou-se abruptamente.

— Alteza? — chamou um homem atrás dele.

Yal já estava andando.

— Chamem os curandeiros. Fechem todas as entradas do castelo. Ninguém sai sem minha autorização.

— Mas os eterianos estão fugindo—

— Agora!

Os guardas obedeceram no mesmo instante.

Yal começou a correr.

As botas esmagavam vidro e sangue enquanto atravessava os corredores laterais do castelo. Servos se afastavam contra as paredes ao vê-lo passar.

O coração batia rápido, a imagem de Aras sendo levada voltou à sua mente com violência.Os olhos fixos nele antes das portas se fecharem.

“Se um de nós tiver que cair…”

Os corredores ficaram mais estreitos conforme ele avançava para as passagens de subalternos.

Ele sentiu o cheiro do sangue.

Yal desacelerou apenas ao alcançar a curva final do corredor.

Viu o guarda.

Ou melhor o que restava dele.

O corpo estava ajoelhado no chão de pedra, tombado para frente em uma posição grotescamente obediente. Sem cabeça.

Por um instante, Yal não conseguiu se mover. Os olhos desceram lentamente.

As damas.

Mortas.

O vestido claro de uma delas estava rasgado até o abdômen. Outra permanecia caída próxima à parede, os dedos ainda presos à própria saia.

Sangue escorria entre as pedras do corredor em filetes lentos.

O príncipe avançou.

Os sentidos dos Leriodis captaram antes mesmo de sua mente aceitar.

Hortelã e limão.

O cheiro permanecia no ar.

Yal parou exatamente no centro do corredor. Os olhos verdes percorreram o ambiente com atenção, as marcas de impacto na parede. Pedra quebrada. Sangue arrastado.

Fragmentos escuros espalhados pelo chão. Como cinzas queimadas pelas bordas.

O aperto em sua espada aumentou tanto que os nos de seus dedos embranqueceram.

Atrás dele, alguns guardas finalmente alcançaram o corredor. Pararam imediatamente ao ver a cena.

Um deles levou a mão à boca.

Outro começou a rezar baixo.

Yal permaneceu imóvel.

O olhar fixo no ponto onde os fragmentos negros ainda desapareciam lentamente no chão de pedra.

Quando falou, sua voz saiu calma demais.

— Tranquem o castelo.

Os homens hesitaram.

— Alteza…

Ele finalmente virou o rosto.

— Ninguém dorme. Ninguém sai. E tragam qualquer registro que exista sobre redemoinhos negros, possessão eteriana… ou sequestros. Vou encontrar minha esposa e trazê-la de volta.

Thoughts

  • BiaCastelo

    Trancar o castelo depois que a dama sumiu num redemoinho de sombra não prende quem saiu, só quem ficou dentro. Aposto que o próximo capítulo tem guarda desconfiando de servo e algum inocente pagando.

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  • AmandaPeixoto

    Quando o Yal chega ele vê duas damas mortas no chão. Ninguém no castelo sabe que faltou uma, e aposto que vão tratar a terceira como vítima levada junto com a Aras.

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  • versoAlheio

    Pô, cara, o Yal sente hortelã e limão no corredor e a gente já sabe de onde vem esse cheiro. Leriodis é o povo dele, é por isso que ele fareja assim?

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  • soleioanoite

    Fiquei presa na dama dizendo que procurou a Aras por tanto tempo e que agora pode vê-la de novo. Junta isso com os olhos castanhos voltando e ela feliz com a princesa no colo dentro do redemoinho, e meu palpite é que essa criatura conheceu a Aras bem antes da cerimônia, alguém que ela perdeu de vista. E o Yal pedindo registro de possessão eteriana vai achar o nome dessa moça antes de achar a esposa, uai.

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  • tresPaginas

    Li isto de uma vez, a dama a pôr o braço no sítio com aquele estalo tirou-me o sono todo 😬

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  • Ovid

    O corredor aparece duas vezes, primeiro com a Aras lá dentro e depois com o Yal chegando atrasado, e quem lê já sabe tudo o que ele ainda está montando pelo cheiro e pelas cinzas. Aposto que essa distância entre o que a gente viu e o que ele sabe vai render muito no capítulo seis. Obrigado por seguir trazendo a lenda de Hagar pra cá!

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  • pavor_incluso

    Ela tava feliz. Ótimo.

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