A primeira noite após a fuga foi a mais desafiadora.
Não porque o caminho fosse novo. Não porque a floresta estivesse envolta em sombras. Mas porque Isabel ainda aguardava, a qualquer instante, o eco dos cavalos de Castiel se aproximando.
A cada batida, o ruído parecia se aproximar, misturando-se ao som de sua própria respiração. O medo que até então ela tentara manter sob controle começava a apertar-lhe o peito. Já não era apenas uma ameaça distante, uma possibilidade que poderiam evitar se fossem rápidos o bastante.
O som dos cascos dos cavalos e cada estalo de galho faziam seu coração acelerar.
Ela olhou para Henrique, que estava atento a cada passo. Cavalgava à frente, com os olhos fixos no caminho, desviando habilidosamente das raízes e dos galhos baixos, enquanto Isabel o seguia a alguns passos de distância.
Nenhum dos dois trocava palavras.
Não havia necessidade disso. Ambos estavam cientes do que estava em jogo. Precisavam avançar o máximo que pudessem antes que alguém notasse por onde tinham ido.
E, quando perceberam que ainda estavam sozinhos ao amanhecer, Henrique finalmente resolveu desacelerar.
— Precisamos descansar.
Isabel o encarou.
— E se eles estiverem por perto? — indagou.
— Se continuarmos nesse ritmo, nossos cavalos não vão aguentar.
Ela respirou fundo.
Desceu do cavalo com esforço, quase escorregando. As pernas estavam pesadas, como se não fossem suas, após tantas horas na sela. Respirou fundo para se recompor.
Henrique aproximou-se num instante e estendeu a mão para ajudá-la.
— Está bem? Tem certeza?
Isabel assentiu rapidamente, mas o peito subia e descia com ansiedade.
— Claro que estou.
Ele franziu levemente a testa, não se deixando enganar.
— Não mente para mim. Não precisa fingir nada.
Ela virou o rosto para outro lado, evitando o seu olhar atento.
— Eu não estou fingindo.
— Você está com medo.
Dessa vez, Isabel não disse nada. Porque, na verdade, estava.
Muito.
Mas havia algo diferente.
Pela primeira vez, o medo não se originava das paredes do palácio.
Não vinha das mãos de Castiel.
Nem das ameaças que a cercavam.
Era um medo novo.
O medo de perder a liberdade que ela acabara de conquistar.
Henrique estendeu a mão, os dedos abertos, esperando.
Isabel a segurou com firmeza, entrelaçando os dedos nos dele.
— Ainda podemos voltar — disse ele sussurrando, mas com esperança na voz.
Ela levantou os olhos.
— Não — disse em voz baixa, mas sem qualquer hesitação.
— Não posso voltar.
Henrique apertou seus dedos com carinho, como se prometesse tudo sem dizer uma palavra.
— Então não vamos.
Os dias que se seguiram foram longos e arrastados. Eles percorreram estradas estreitas, passaram por vilarejos esquecidos e cruzaram trechos de floresta onde raramente alguém se aventurava.
Henrique evitava as grandes cidades. Sempre que avistavam uma carroça ou um grupo de viajantes à distância, mudavam de rota.
Dormiam em lugares simples. Às vezes, sob árvores. As vezes, em pequenos abrigos abandonados.
Em uma das noites, encontraram uma pequena casa de madeira pertencente a um velho camponês que, ao perceber que estavam viajando com pressa e sem criados, não fez perguntas.
Ofereceu-lhes pão, água e um pouco de sopa.
Isabel agradeceu com um sorriso.
Fazia anos que não comia uma refeição tão simples. E, estranhamente, nunca havia sentido algo tão próximo da paz.
Sentada diante de uma pequena lareira, com os cabelos soltos e as mãos aquecidas pelo fogo, Isabel percebeu que já não sentia falta dos vestidos.
Nem das joias.
Nem dos grandes salões.
Nem mesmo da vida luxuosa que um dia acreditara ser o seu destino.
Sentia falta apenas de uma coisa.
Cecília.
A lembrança da filha era uma dor que não a deixava em paz.
À noite, enquanto Henrique dormia tranquilamente, Isabel ficava acordada. Seus pensamentos estavam com a pequena que dormia em seu quarto. Ela se via imaginando Cecília encontrando a carta, o instante em que a menina descobriria que a mãe não estava mais ali. E, a cada vez que isso passava pela sua mente, seu coração se partia um pouco mais. Em uma dessas noites, Henrique a encontrou sentada do lado de fora da pequena casa.
Ela observava as estrelas como se procurasse respostas nelas.
— Já é tarde. Você deveria estar dormindo — disse ele, baixinho, aproximando-se.
— Não consigo fechar os olhos.
Ele se sentou ao seu lado, ombro a ombro. Ficaram assim em silêncio por alguns minutos.
— Está pensando nela?
Isabel assentiu, a voz quase um sussurro.
— Todos os dias.
— Um dia ela vai compreender tudo. Tenha fé.
Isabel fechou os olhos e suspirou.
— Tomara que seja assim.
Ele olhou para ela com ternura.
— Você deixou uma carta antes de partir.
— Eu sei. Foi a única forma que encontrei.
— Então ela vai perceber que você a ama.
Isabel respirou fundo, um pouco nervosa.
— E se ela pensar que eu a deixei para trás?
Henrique ficou em silêncio por alguns instantes, refletindo.
Depois, segurou a mão dela com firmeza.
— Você não a deixou, Isabel.
Ela o encarou, buscando conforto em suas palavras.
— Você se afastou para dar a ela uma mãe que realmente pudesse viver. Não uma mulher que passasse a vida inteira apenas fingindo estar feliz.
As lágrimas deslizavam pelo rosto de Isabel. Ela não fez questão de limpá-las.
Henrique ficou ali, ao seu lado, sem tentar consertar a dor. Sem prometer que tudo ficaria bem. Apenas estava presente.
E, naquela noite, Isabel se deu conta de que talvez fosse isso que ela mais desejasse de alguém.
Não eram promessas.
Não eram riquezas.
Não era poder.
Era simplesmente alguém que ficasse ao seu lado.
🍂
Enquanto isso, no palácio de Valtoria, Castiel havia transformado a fuga de Isabel em uma caçada.
Os homens procuravam por estradas, vilarejos e passagens entre as montanhas.
Mensageiros foram enviados para diferentes regiões.
Guardas interrogavam viajantes.
Qualquer notícia sobre uma mulher acompanhada por um homem a cavalo era levada imediatamente até o duque.
Os primeiros dias foram marcados por silêncio.
Nenhuma notícia.
Nenhum rastro.
Nenhum sinal.
E isso apenas aumentava a fúria de Castiel.
Ele não conseguia dormir.
Não conseguia comer.
Não conseguia pensar em outra coisa.
À noite, caminhava pelos corredores vazios do palácio. As vezes, parava diante da porta dos aposentos de Isabel.
Ficava ali por alguns segundos.
Como se esperasse que ela estivesse do outro lado. Como se, de alguma maneira, pudesse voltar no tempo. Mas o quarto permanecia vazio. E aquela ausência o destruía mais do que qualquer insulto poderia fazer.
Em uma dessas noites, Castiel entrou. O quarto ainda guardava pequenos vestígios dela.
Um perfume suave.
Um livro deixado sobre a mesa.
Uma fita esquecida perto da janela.
Ele tocou o tecido com os dedos.
Fechou os olhos.
— Por que você fez isso comigo?
A pergunta saiu quase como um sussurro.
Mas ninguém respondeu.
Castiel apertou a fita entre os dedos.
— Eu teria dado tudo a você.
Parou.
Então soltou uma risada amarga.
— Tudo o que eu sabia dar.
E talvez essa fosse a verdade que ele mais odiava.
Ele havia dado a Isabel tudo aquilo que conhecia.
Proteção.
Riqueza.
Um título.
Um palácio.
Um lugar ao seu lado.
Mas nunca havia aprendido a oferecer liberdade.
Nunca havia aprendido a oferecer ternura. Nunca havia aprendido a amar sem possuir.
E agora ela havia encontrado, em um simples plebeu, aquilo que ele jamais soubera entregar.
Castiel deixou a fita cair.
— Henrique…
Seu nome saiu carregado de ódio.
Mas, por trás daquele ódio, havia uma pergunta que Castiel não conseguia responder.
O que você deu a ela que eu nunca consegui dar?
🍂
No quarto dia, Henrique percebeu que estavam sendo seguidos.
Foi apenas um detalhe.
Pegadas recentes na lama.
Galhos quebrados.
Cinzas ainda mornas em uma pequena fogueira abandonada.
Ele desmontou.
Ajoelhou-se diante do chão.
Isabel observava em silêncio.
— O que foi?
Henrique levantou-se lentamente.
Seu rosto havia mudado.
— Precisamos partir.
O vento cortava o rosto de Isabel, fazendo seus olhos lacrimejarem. Ela já temia o pior.
— Se continuarmos pela estrada, será mais fácil para eles.
Ele foi até os cavalos.
— Vamos cortar caminho pela floresta.
Isabel montou.
— Henrique…
O medo, que até então ela tentara manter sob controle, começava a apertar-lhe o peito.
Castiel estava cada vez mais perto.
Atrás deles.
À sua espera.
E Henrique também sabia.
Ele olhou para ela.
— O quê?
— E se não conseguirmos?
Henrique aproximou o cavalo do dela.
— Então continuamos tentando.
— E se nos encontrarem?
Ele segurou sua mão.
— Então enfrentaremos juntos.
Isabel apertou os dedos dele.
E, naquele instante, nenhum dos dois precisava dizer mais nada.
Eles partiram novamente.
A perseguição começou naquela mesma tarde.
Primeiro, distante.
Quase imperceptível.
Depois, mais próxima.
O som dos cascos começou a surgir entre as árvores.
Henrique olhou para trás.
Nada.
Continuou cavalgando.
Alguns minutos depois, tornou a olhar.
Dessa vez, viu uma luz.
Uma tocha.
Depois outra.
E mais outra.
Seu coração disparou.
— Isabel!
Ela olhou para ele.
— O quê?
— Continue cavalgando — pediu ele.
— Eles estão muito perto!
— Eu sei.
— O que vamos fazer?
À frente, a floresta tornava-se mais fechada. Os galhos baixos dificultavam a passagem, e o terreno irregular obrigava os cavalos a diminuir o ritmo. Henrique procurava uma saída, qualquer caminho que os afastasse dos homens de Castiel, mas cada direção parecia conduzi-los a um novo obstáculo.
Henrique olhou rapidamente para ela.
Por um instante, pareceu querer dizer alguma coisa. Talvez uma promessa. Talvez uma mentira para lhe dar um pouco de conforto que o medo ameaçava a roubar.
Mas a verdade era que estavam sem saída. Haviam sido alcançados.
Mas Henrique não prometeu que tudo ficaria bem.
Apenas estendeu a mão.
Isabel segurou-a.
E aquele gesto simples pareceu dizer tudo o que as palavras já não conseguiam expressar.
— Henrique, não… — murmurou quando ele puxou as rédeas, tentando desviar de um trecho estreito entre as árvores.
Ele voltou o rosto para ela.
E ela sabia o que estava por vir.
Os olhos de Isabel estavam marejados, mas não havia apenas medo neles. Haviam também a dor de quem compreendia que talvez estivesse prestes a perder tudo aquilo pelo qual lutara por tão pouco tempo.
Henrique apertou sua mão uma última vez antes de soltá-la para conduzir o cavalo.
Se não conseguirmos escapar, ao menos não estarei sozinho, pensou.
O estalo de um galho interrompeu seus pensamentos.
Logo depois, um grito atravessou a floresta.
— Ali! Estão ali!
Henrique sentiu o sangue gelar.
Isabel olhou por cima do ombro.
As tochas já não estavam distantes.
Os homens de Castiel haviam encontrado o caminho.
— Mais rápido! — gritou Henrique.
Os cavalos dispararam novamente, mas a floresta parecia fechar-se ao redor deles. Os galhos golpeavam seus braços, as raízes tornavam o terreno traiçoeiro e a escuridão escondia os obstáculos que surgiam à frente.
Então Henrique puxou as rédeas bruscamente.
O cavalo empinou, obrigando-o a se inclinar para a frente para não cair.
Isabel conseguiu parar logo atrás dele.
Quando se virou, viu outros homens bloqueando o caminho por onde haviam vindo.
Estavam cercados.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.
Henrique observou os homens que se aproximavam, procurando uma brecha, uma distração, qualquer oportunidade de escapar. Mas eram muitos, e estavam posicionados de maneira que tornava quase impossível atravessar o cerco sem serem alcançados.
Ele compreendeu que não havia mais caminho a seguir.
Pelo menos, não a cavalo.
Desembainhou a espada.
— Fique atrás de mim — ordenou.
Isabel desceu da sela, embora as pernas ameaçassem falhar quando seus pés tocaram o chão.
— Henrique...
— Isabel, olhe para mim.
Ela ergueu os olhos.
— Não importa o que aconteça, não deixe que eles a convençam de que você errou ao partir.
As lágrimas escorreram pelo rosto dela.
— Eu não me arrependo.
Henrique sustentou seu olhar.
— Então não se arrependa agora.
Um som de cascos interrompeu a conversa.
Diferente dos demais, aquele cavalo avançava sem pressa.
Os soldados abriram passagem.
E Castiel surgiu entre as árvores.
Montado em seu cavalo, vestindo um casaco escuro e com o rosto endurecido pela raiva, o duque parecia pertencer àquela cena tanto quanto a própria escuridão.
Seus olhos encontraram Isabel.
Por um instante, tudo ao redor pareceu desaparecer.
Ele a observou como se precisasse confirmar que ela estava realmente ali, diante dele, depois de tantos dias de busca e noites mal dormidas.
Então seu olhar desceu até a mão de Henrique, que ainda segurava a espada.
A expressão de Castiel mudou.
— Que cena comovente — comentou, desmontando. — A duquesa e seu salvador.
Henrique ergueu a espada.
— Não se aproxime dela.
Castiel soltou uma risada breve.
— E o que pretende fazer, Devereux? Enfrentar todos os meus homens?
— Se for necessário.
— Que demonstração admirável de coragem. Pena que a coragem não lhe conceda um título, uma fortuna ou qualquer coisa que o torne digno de estar ao lado dela.
Henrique não desviou o olhar.
— Ao menos não preciso obrigá-la a ficar comigo.
O silêncio que se seguiu foi imediato.
Castiel parou.
Por um instante, a máscara de indiferença pareceu vacilar. A mão que repousava ao lado do corpo se fechou lentamente.
Ele não suportava aquele homem.
Não apenas porque Henrique levara Isabel para longe do palácio, mas porque, diante dele, o plebeu parecia possuir uma coisa que Castiel jamais conseguira conquistar.
A escolha de Isabel.
Henrique não precisava de um título para que ela segurasse sua mão.
Não precisava ordenar que ela o acompanhasse.
Ela estava ali porque desejava estar.
E essa verdade era mais humilhante do que qualquer insulto.
— Cale a boca — ordenou Castiel.
Henrique permaneceu em silêncio, mas não abaixou a espada.
O duque voltou-se para Isabel.
— Você tem ideia do que fez?
Ela respirou fundo.
— Tenho.
— Fez de mim motivo de escárnio diante de toda a corte. Fugiu do próprio lar como uma criminosa e ainda teve a audácia de partir com um homem que não possui nada além de suas próprias mãos.
— Então talvez você devesse se perguntar por que eu preferi partir sem nada a continuar vivendo ao seu lado.
A resposta atingiu Castiel em cheio.
Por um instante, ele pareceu incapaz de reagir.
Isabel sentiu o medo percorrer-lhe o corpo, mas não recuou.
Durante anos, aprendera a reconhecer os sinais da ira do marido. O modo como sua mandíbula se contraía, a maneira como ele apertava os dedos e o silêncio que precedia suas palavras mais cruéis.
Sabia que deveria ter cuidado.
Mas já não queria viver escolhendo cada palavra apenas para evitar a próxima explosão.
— Você não sabe o que está dizendo — respondeu ele, aproximando-se.
— Sei, sim.
— Não. Você está confusa. Esse homem a iludiu, prometeu-lhe uma vida que não pode oferecer e a convenceu a abandonar tudo o que possui.
Isabel soltou uma risada triste.
— É isso que você precisa acreditar para continuar se enxergando como a vítima?
Os olhos de Castiel se estreitaram.
— Cuidado, Isabel.
— Eu passei anos tentando ser a esposa que você desejava. Tentei agradá-lo, obedecê-lo e suportar suas palavras. Fiz tudo o que esperavam de mim. E, ainda assim, nunca foi suficiente.
Ela respirou fundo, sentindo as lágrimas ameaçarem interrompê-la.
— Você nunca quis uma esposa, Castiel. Quis alguém que jamais o contrariasse. Alguém que sorrisse quando você ordenasse, que se calasse quando você gritasse e que agradecesse por uma vida na qual nunca teve o direito de escolher.
O rosto dele endureceu.
— Eu lhe dei tudo!
— Tudo o que você julgava necessário.
Isabel deu um passo à frente.
— Menos a liberdade.
Castiel ficou imóvel.
Aquelas palavras pareciam ecoar entre as árvores, expondo uma verdade que ele passara a vida inteira tentando ignorar.
Ele poderia negar.
Poderia ordenar que ela se calasse.
Poderia lembrar-lhe o título que carregava, o casamento que os unia e as obrigações que, segundo ele, jamais deveriam ter sido questionadas.
Mas não poderia apagar o fato de que Isabel estava ali porque preferira arriscar a própria vida a continuar vivendo com ele.
E isso o enfurecia.
— Foi por ele que fez tudo isso? — perguntou, apontando para Henrique.
Isabel olhou para o homem que amava.
Depois voltou os olhos para o marido.
— Fiz por mim.
Castiel não respondeu.
— Henrique me deu coragem para partir — continuou ela. — Mas a decisão foi minha. Não coloque sobre ele a culpa por algo que você se recusa a compreender.
— E o que há para compreender? — A voz do duque subiu. — Que minha esposa decidiu me abandonar por um plebeu?
— Que sua esposa decidiu deixar de viver como prisioneira!
Castiel avançou um passo.
Henrique se colocou imediatamente entre os dois.
— Não toque nela.
— Afaste-se!
— Não.
O duque fez um sinal aos soldados.
Tudo aconteceu depressa.
Dois homens avançaram sobre Henrique. Ele tentou reagir, desviando do primeiro golpe e empurrando um dos soldados para longe. Sua espada atingiu a arma de outro homem, e o choque do metal ecoou pela floresta.
Por alguns instantes, conseguiu resistir.
Mas eram muitos.
Um dos soldados atingiu seu braço, fazendo-o perder o equilíbrio. Outro aproveitou a distração para golpear sua espada, que escapou de sua mão e caiu sobre as folhas úmidas.
Henrique tentou recuperá-la, mas foi agarrado por trás.
— Soltem-me! — gritou, lutando contra os braços que o imobilizavam.
Isabel correu em sua direção.
— Henrique!
Um dos guardas segurou-a pelo braço.
Ela tentou se soltar.
— Não toque em mim!
— Isabel! — Henrique gritou, tentando alcançá-la.
Mas os soldados o mantiveram preso.
Castiel observava tudo com o rosto impassível.
Por dentro, porém, a visão daqueles dois lutando para permanecer juntos despertava nele algo que preferia não nomear.
Inveja.
Uma inveja amarga, quase insuportável.
Mesmo cercados, mesmo prestes a serem separados, Isabel e Henrique continuavam procurando um ao outro com os olhos.
Castiel estava diante da mulher com quem se casara, a quem desejava manter ao seu lado, por quem afirmava sentir amor.
E, ainda assim, ela nunca o olhara daquela maneira.
— Chega! — ordenou.
Os soldados interromperam a luta.
Henrique foi imobilizado, com os braços presos atrás das costas. Isabel, igualmente dominada, foi forçada a afastar-se dele.
— Não! — ela protestou. — Não o machuquem!
Castiel aproximou-se lentamente.
— Agora se preocupa com ele?
Isabel virou o rosto para o duque.
— Sempre me preocupei.
A resposta pareceu feri-lo mais do que ele estava disposto a demonstrar.
Castiel inclinou a cabeça, observando-a.
— E comigo? Alguma vez se preocupou comigo?
Por um instante, Isabel não soube o que responder.
A pergunta a surpreendeu. Não pela possibilidade de haver dor por trás dela, mas porque, pela primeira vez, Castiel parecia menos interessado em acusá-la do que em ouvir uma resposta.
Ela se lembrou dos primeiros tempos do casamento, das tentativas de aproximação, dos momentos em que acreditara que talvez conseguisse alcançar algo bom no homem que tinha diante de si.
Não fora sempre indiferente.
Não fora sempre incapaz de ter esperança.
Mas as esperanças haviam sido sufocadas, uma a uma, até que o medo ocupasse todo o espaço.
— Eu tentei — respondeu, por fim. — Mais do que você imagina.
Castiel desviou o olhar.
Por um instante, pareceu prestes a dizer alguma coisa.
Talvez pedir que ela voltasse.
Talvez perguntar por que o amor que sentia não fora suficiente.
Mas o orgulho falou primeiro.
— Levem-nos.
Os soldados obedeceram.
Henrique tentou resistir quando o puxaram para a frente, mas um golpe no ombro o obrigou a ceder. Isabel acompanhou os homens, tropeçando nas próprias saias enquanto tentava manter os olhos fixos em Henrique.
Castiel caminhou ao lado dela.
— Eu sabia que vocês não conseguiriam escapar — disse ele, com uma calma que beirava o inquietante.
Isabel não respondeu.
Ele inclinou-se ligeiramente em sua direção.
— No fim, toda essa fuga foi em vão.
Fez uma pausa.
— Tenho de admitir, porém... foi uma perseguição bastante divertida.
A crueldade daquelas palavras fez Isabel estremecer.
Não porque acreditasse que Castiel estivesse se divertindo de verdade, mas porque reconhecia naquela voz a necessidade desesperada de transformar a dor em vitória.
Ele precisava acreditar que havia vencido.
Precisava acreditar que ainda possuía algum controle sobre ela.
Isabel ergueu o rosto.
— Você pode me levar de volta, Castiel. Pode me obrigar a entrar naquele palácio e vestir novamente os vestidos que escolheu para mim. Pode até me impedir de sair dos meus aposentos.
Ela sustentou o olhar dele.
— Mas não pode desfazer o que aconteceu aqui.
O sorriso de Castiel desapareceu.
— O que quer dizer?
— Eu fui embora. Escolhi partir. E, mesmo que me leve de volta, não poderá transformar essa escolha em algo que nunca aconteceu.
Por um instante, ele pareceu esquecer os soldados, a floresta e o caminho que os aguardava.
Só conseguia olhar para Isabel.
A mulher que desejava recuperar acabara de lhe dizer que a captura não mudaria nada.
Castiel aproximou-se, falando baixo o suficiente para que apenas ela o ouvisse.
— Você voltará a ser minha esposa.
Isabel sentiu o coração apertar.
— Sou sua esposa perante a corte — respondeu. — Mas nunca fui sua propriedade.
Ele recuou.
Não disse mais nada.
Os soldados começaram a conduzi-los em direção ao acampamento, onde Castiel decidiria o que fazer com os fugitivos.
Henrique caminhava alguns passos à frente, com as mãos amarradas e o rosto marcado pela dor. De tempos em tempos, voltava os olhos para Isabel, certificando-se de que ela ainda estava ali.
Ela fazia o mesmo.
Não podiam tocar um no outro.
Não podiam conversar.
Mas, enquanto conseguissem se encontrar com o olhar, ainda haveria algo que Castiel não poderia tomar deles.
Ao alcançarem uma clareira, Isabel voltou o rosto uma última vez para a floresta.
Por alguns dias, ela acreditara que poderia existir uma vida diferente.
Uma vida simples.
Uma vida sem ordens ou ameaças.
Uma vida em que pudesse acordar sem medo de desagradar alguém.
Tivera pouco tempo para experimentá-la.
Mas aquele tempo existira.
E ninguém poderia convencê-la do contrário.
O som dos passos e dos cascos tornou a preencher a noite.
A frente, as primeiras luzes do acampamento surgiam entre as árvores.
Castiel havia encontrado sua esposa.
Havia capturado o homem que o desafiara.
Aos olhos de seus soldados, a perseguição terminara com uma vitória incontestável.
Mas, enquanto Isabel caminhava sob vigilância, com o coração partido pela distância entre ela e Henrique, uma certeza permanecia dentro de si.
Ela podia ter perdido a fuga.
Podia ter perdido o caminho para a liberdade.
Mas não se arrependia de ter tentado.
E, naquela noite, enquanto o outono testemunhava o retorno dos prisioneiros, Castiel descobriu que capturar Isabel era muito mais fácil do que fazê-la voltar a amá-lo.
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Olá, leitores e escritores! Tudo bem com vocês? Por aqui, está tudo bem, graças a Deus!
Andei sumida nesses últimos dias porque voltei das férias do trabalho e já estou na semana de provas. Com isso, acabei ficando sem tempo para responder vocês e até mesmo para publicar o capítulo que vinha saindo toda segunda-feira.
Apesar de os capítulos já estarem prontos, gosto de reler tudo com calma, corrigir algumas partes e, às vezes, até refazer certos trechos. Não consigo simplesmente jogar um capítulo aqui de qualquer jeito, sabe? Quero entregar a vocês uma história que faça sentido e que eu mesma me sinta satisfeita em compartilhar.
Mas, enfim, vamos ao que interessa! Espero que gostem deste capítulo. E nossa, confesso que o Henrique às vezes me tira do sério, viu?!
Ah, e estava aqui pensando em uma coisa... Que tal escrever um capítulo extra mostrando Isabel no início do casamento com Castiel?
Sinto que, naquela época, Isabel até tentou gostar do marido, talvez tenha procurado enxergar algo bom nele, mas Castiel, com suas próprias atitudes, acabou afastando a coitada cada vez mais. E acho que conhecer esse lado da história pode nos ajudar a compreender algumas coisas que vemos acontecer no presente.
Então, me contem: vocês gostariam de ler esse capítulo extra?
Um abraço e obrigada por continuarem aqui, acompanhando essa história e compartilhando suas impressões comigo. Cada comentário de vocês me faz pensar em novos caminhos para os personagens. 🤎
Até a próxima e escutem os sussurros do outono... 🍂