A Eleanor vai levar com a palavra covarde e eu não vou nessa. Ela trocou um risco por outro: ficou com a coroa e pagou com uma vida inteira de dúvida. Quem escolhe o lado sem risco também paga juros, só que a conta chega tarde.
Capítulo 04 - A Confissão dos Dois Lados (EXTRA)
Pensamento
A Eleanor vai levar com a palavra covarde e eu não vou nessa. Ela trocou um risco por outro: ficou com a coroa e pagou com uma vida inteira de dúvida. Quem escolhe o lado sem risco também paga juros, só que a conta chega tarde.
Conteúdo da publicação
A notícia se espalhou pelo palácio antes mesmo que o sol terminasse de nascer.
A duquesa havia desaparecido.
No início, foram apenas sussurros entre os criados.
Depois, cochichos pelos corredores.
Em questão de minutos, a notícia já havia chegado aos ministros, aos guardas e aos membros da corte que ainda permaneciam no palácio.
Isabel havia fugido.
E não havia fugido sozinha.
A revelação de que Henrique Devereux, um simples plebeu, havia desaparecido junto com ela tornou a situação ainda mais escandalosa.
O rumor cresceu como fogo em palha seca.
Castiel permanecia imóvel no centro do salão enquanto os homens ao seu redor tentavam falar ao mesmo tempo.
— Meu senhor, é crucial que essa informação não chegue aos outros nobres.
Castiel soltou uma risada curta.
Não havia humor algum nela.
Em uma das mãos, segurava uma taça de bebida destilada. Levou-a aos lábios e ingeriu o líquido de uma só vez, sentindo a garganta arder.
Então, sem aviso, atirou a taça contra o chão.
O estrondo ecoou pelo salão.
— Já chegou — respondeu um dos ministros, cauteloso.
Castiel virou lentamente o rosto.
— O quê?
— Alguns membros da corte já estão a par. E... há rumores de que a notícia também pode ter chegado aos servos dos palácios vizinhos.
A mandíbula de Castiel se contraiu.
Maldita.
Como ousa?
Olhou ao redor.
Os mesmos homens que, poucas horas antes, o tratavam com reverência agora evitavam encará-lo.
Não era apenas a fuga de Isabel.
Era a humilhação.
A duquesa de Valtoria havia escolhido deixar o próprio marido.
E, pior, havia escolhido um homem sem título, sem fortuna, sem nome importante.
Um plebeu.
Castiel sentiu o peito apertar.
Durante anos, acreditara que Isabel permaneceria ao seu lado porque era sua esposa. Porque era a duquesa de Valtoria. Porque aquele era o lugar que lhe cabia.
Mas ela havia partido.
Por outro homem.
Por Henrique.
Um homem que havia chegado à vida dela sem riqueza, sem poder e sem qualquer promessa que pudesse competir com tudo aquilo que Castiel possuía.
Então, pela primeira vez, uma pergunta que ele jamais havia permitido a si mesmo fazer surgiu em sua mente.
O que ela viu nele que nunca conseguiu enxergar em mim?
Amor?
Compaixão?
Liberdade?
Uma risada amarga escapou de seus lábios.
Maldita.
Tola.
Mas, por trás da raiva, havia algo muito mais doloroso.
Castiel fechou os olhos por um instante.
Eu a amo.
A confissão surgiu dentro dele com uma força que quase o fez perder o fôlego.
Eu a amo. Se ao menos ela soubesse...
Mas como poderia saber?
Ele nunca havia dito.
Nunca soubera dizer.
Não sabia demonstrar carinho sem parecer fraco. Não sabia pedir sem ordenar. Não sabia tocar sem transformar o gesto em posse. Não sabia amar sem exigir algo em troca.
Talvez porque nunca tivesse aprendido.
Talvez porque ninguém jamais tivesse lhe ensinado.
Como alguém pode aprender a amar se nunca soube como era ser amado?
Castiel respirou fundo.
Durante toda a vida, haviam lhe ensinado que homens como ele não deveriam demonstrar fraqueza. Que sentimentos eram coisas a serem escondidas. Que poder significava controle.
E ele havia acreditado.
Acreditara tanto que, quando percebeu que estava perdendo Isabel, tentou segurá-la com as únicas armas que conhecia.
Autoridade.
Medo.
Poder.
Possessão.
Agora, sozinho no meio daquele salão, compreendia uma coisa que jamais admitiria diante de ninguém.
Tudo aquilo que usara para mantê-la ao seu lado talvez tivesse sido exatamente o que a fizera partir.
— Ninguém vai falar sobre isso.
Sua voz saiu baixa.
Perigosa.
— Meu senhor...
— Eu disse que ninguém vai falar sobre isso!
O salão mergulhou em silêncio.
Os ministros abaixaram os olhos.
Castiel respirou profundamente, tentando recuperar o controle.
Mas a vergonha já havia se transformado em fúria.
Ele não suportava ser contrariado.
Muito menos daquela maneira.
Sua mão se fechou em punho.
— Encontrem-na.
Ninguém respondeu imediatamente.
Castiel ergueu os olhos.
— Vamos! Seus bestas de carga! — bradou, impaciente. — Encontrem a duquesa e tragam-na de volta.
— Sim, meu senhor.
Os guardas começaram a deixar o salão às pressas.
Castiel permaneceu imóvel.
Quando todos partiram, o silêncio voltou a envolvê-lo.
Por alguns segundos, ninguém mais estava ali para testemunhar o que restava do homem por trás do título.
Ele fechou os olhos.
E, pela primeira vez, sua voz saiu baixa.
Quase como uma confissão.
— Eu só queria que você tivesse me escolhido.
Mas Isabel já havia escolhido.
E talvez fosse exatamente isso que Castiel não conseguisse perdoar.
Não a fuga.
Não Henrique.
Mas o fato de que, pela primeira vez, Isabel havia escolhido a si mesma.
🍂
Na madrugada do mesmo dia, no palácio de Valtoria, uma janela ainda permanecia acesa.
Eleanor estava diante dela.
A rainha havia notado uma movimentação discreta nos jardins naquela madrugada. Não conseguira ver tudo com clareza, mas vira o suficiente.
A imagem de Isabel deixando os aposentos.
O vestido simples.
A maneira cuidadosa como atravessara o jardim.
E, pouco depois, a presença de Henrique junto aos cavalos.
Eleanor não chamou os guardas.
Não gritou.
Não impediu.
Apenas permaneceu diante da janela, observando enquanto os dois desapareciam pela passagem lateral dos jardins.
Quando as últimas sombras se perderam entre as árvores, a rainha continuou imóvel.
Ela sabia.
Isabel havia fugido.
E, pela primeira vez em muitos anos, Eleanor experimentou uma sensação que normalmente não se permitia sentir.
Admiração.
— Então você teve coragem... — murmurou.
A frase saiu quase como um suspiro.
Eleanor conhecia aquela sensação.
Conhecia muito bem.
Porque, muitos anos atrás, quando ainda era jovem demais para compreender completamente o peso de uma coroa, ela também havia amado.
Havia existido um homem.
Um homem que não deveria ter amado.
Um amor que, assim como o de Isabel, parecia não ter lugar no mundo em que viviam.
Eleanor ainda guardava na memória a sensação de olhar para alguém e, por alguns instantes, esquecer quem deveria ser.
Lembrava-se de como era ser apenas uma mulher.
Não uma futura rainha.
Não uma soberana.
Não um símbolo.
Apenas Eleanor.
Mas, naquela época, ela fizera uma escolha diferente.
Escolhera o poder.
A segurança.
A coroa.
O dever.
Escolhera tudo aquilo que lhe haviam ensinado que uma mulher destinada a governar deveria colocar acima dos próprios sentimentos.
E ele ficou para trás.
Não porque o amor tivesse desaparecido.
Essa era, talvez, a parte que mais a machucava.
Ela o amava.
Ainda amava.
Mas havia sentido medo.
Medo de perder tudo.
Medo de colocar um reino em risco por causa de um sentimento.
Medo de descobrir que o amor talvez não fosse forte o suficiente para sustentá-la quando o mundo inteiro estivesse contra ela.
Então, Eleanor tomou a decisão que acreditava ser necessária.
E nunca voltou atrás.
Ou, pelo menos, foi isso que tentou acreditar durante todos aqueles anos.
Agora, diante daquela janela, observando a estrada por onde Isabel havia desaparecido, uma pergunta antiga voltou a assombrá-la.
Aquilo havia sido coragem?
Ou apenas medo vestido de dever?
Os olhos da rainha se fecharam por um instante.
Ela se lembrou da jovem que havia sido.
A mulher que um dia também desejara abandonar tudo.
A mulher que também sonhara com uma vida longe das regras, dos títulos e das obrigações.
A mulher que, no fim, escolhera a coroa.
Eleanor abriu os olhos.
Isabel poderia ter ficado.
Poderia ter aceitado a vida que lhe fora dada.
Poderia continuar usando vestidos deslumbrantes, sorrindo nos bailes e fingindo diante da corte que seu casamento era exatamente como deveria ser.
Mas não.
Isabel havia escolhido fugir.
Com um plebeu.
Sem riquezas.
Sem garantias.
Sem saber o que encontraria além das montanhas.
Sem sequer ter certeza de que chegaria ao porto.
Sem saber se haveria um futuro esperando por ela.
Ainda assim, partira.
Eleanor sentiu algo apertar dentro do peito.
— Você teve mais coragem do que eu... — sussurrou.
O vento atravessou a fresta da janela.
A rainha não se moveu.
Ela não sabia se Isabel conseguiria escapar.
Talvez não.
Talvez Castiel a encontrasse antes que chegasse ao amanhecer.
Eleanor conhecia o duque.
Conhecia seu orgulho.
Sua necessidade de controle.
A maneira como transformava qualquer oposição em afronta.
Para Castiel, a fuga de Isabel não seria apenas uma fuga.
Seria uma humilhação.
Uma afronta.
Uma ferida aberta diante de toda a corte.
Ele não suportaria saber que sua esposa havia escolhido outro homem.
Mas Eleanor também sabia de outra coisa.
Castiel a amava.
De uma maneira torta.
Doentia.
Possessiva.
Mas amava.
E talvez essa fosse justamente a parte mais trágica de tudo.
Porque amor, quando misturado ao orgulho, ao poder e à necessidade de possuir, podia se transformar em algo que feria justamente aquilo que desejava proteger.
Eleanor sentiu um aperto no peito.
Não por Castiel.
Por Isabel.
Porque sabia o que aconteceria se ele a encontrasse.
A corte exigiria respostas.
Haveria acusações de adultério.
Haveria julgamentos.
E, como rainha, Eleanor talvez fosse obrigada a tomar decisões que não desejava tomar.
A coroa exigiria dela aquilo que sempre exigira.
Dever.
Lei.
Ordem.
Mesmo que, dentro dela, tudo gritasse o contrário.
— Por favor... — sussurrou.
Ela queria que Isabel conseguisse fugir.
Queria que chegasse longe o bastante para que a perseguição não pudesse alcançá-la.
E, por um instante, Eleanor pensou em agir.
Poderia enviar alguém para ajudá-los.
Poderia usar sua influência para atrasar os homens de Castiel.
Poderia fazer alguma coisa.
Qualquer coisa.
Mas não fez.
Permaneceu em silêncio.
Porque, no fundo, sabia que aquela escolha precisava pertencer a Isabel.
Somente a Isabel.
Eleanor já havia feito sua própria escolha muitos anos atrás.
Não cabia a ela escolher pela vida de outra mulher.
Ainda assim, havia algo mais profundo naquela decisão.
Ela sabia que, se interferisse, talvez estivesse tentando corrigir o passado através da vida de Isabel.
E não tinha esse direito.
Então, pela primeira vez, Eleanor compreendeu que seu silêncio também era uma escolha.
Talvez alguns a chamassem de covarde.
Talvez outros dissessem que a rainha simplesmente havia escolhido a si mesma novamente.
Dinheiro.
Poder.
Ambição.
Talvez, aos olhos de muitos, ela fosse apenas outro Castiel.
A diferença era que Castiel gritava.
Eleanor silenciava.
Ele prendia com as mãos.
Ela prendia com as regras.
Ambos haviam aprendido a sobreviver através do poder.
Mas Eleanor sabia que havia uma diferença entre não impedir uma escolha e abandoná-la.
Ela não poderia salvar Isabel.
Não poderia garantir que o amor dela sobreviveria.
Não poderia prometer que o mundo seria gentil com ela.
Tudo o que podia fazer era não ser mais uma corrente.
A rainha voltou os olhos para a estrada distante.
Por onde Isabel e Henrique haviam desaparecido.
— Vá — murmurou. — Vá enquanto ainda pode.
Um sorriso triste surgiu em seus lábios.
Havia algo de estranho naquela frase.
Quase uma despedida.
Quase uma bênção.
Talvez até um pedido de desculpas.
Eleanor sabia que não poderia blindar Isabel de todas as consequências.
Mas, naquela madrugada, tomou uma decisão.
Não seria ela a barrar aquela busca por liberdade.
Não dessa vez.
Porque, muitos anos atrás, quando teve a oportunidade de escolher entre o amor e a coroa, Eleanor escolheu a coroa.
E talvez passasse o resto da vida se perguntando como teria sido se tivesse escolhido diferente.
Agora, olhando para a estrada vazia, ela não queria que Isabel carregasse a mesma dúvida.
A rainha permaneceu diante da janela enquanto o primeiro sinal de luz surgia no horizonte.
E, em algum lugar distante, Isabel cavalgava em direção a uma liberdade que talvez não durasse.
Enquanto Castiel reunia seus homens para trazê-la de volta.
Eleanor fechou os olhos.
Por um instante, voltou a ser aquela jovem que um dia amou.
A jovem que não teve coragem de partir.
— Talvez você consiga... — sussurrou.
E então se afastou da janela.
Lá fora, o outono assistia à perseguição começar.
E, em silêncio, guardava o segredo de que, naquela madrugada, uma rainha havia visto uma duquesa partir...
e escolhido não impedi-la.
🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂🍁🍂
🧡 Fim do capítulo...
Claro! Mantive a sua voz de autora, esse tom de conversa com os leitores, mas deixei o texto mais fluido, organizado e com um pouquinho mais de personalidade:
Pasmem! Esse capítulo é um extra. Definitivamente, não estava nos meus planos.
Como sempre, a gente precisa reler aquilo que escreve, corrigir algumas partes desconexas e, às vezes, acaba encontrando novas possibilidades no meio do caminho. Foi exatamente o que aconteceu enquanto eu lia os comentários de vocês sobre a rainha Eleanor e Castiel.
E então pensei: por que não escrever um extra com os pensamentos de ambos?
Foi assim que decidi colocar este capítulo aqui. Além de mostrar um pouco mais do que se passa na cabeça deles, acredito que esses pensamentos vão ajudar em alguns acontecimentos que ainda surgirão no decorrer da história e, quem sabe, deixar vocês ainda mais pensativos sobre tudo o que está acontecendo.
Confesso que meu coração amoleceu um pouquinho enquanto escrevia. Senti pena. Só um pouquinho de pena do Castiel.
Mas, ao mesmo tempo, eles são humanos. Têm suas escolhas, seus medos, suas formas de enxergar o mundo. E Castiel escolheu agir da maneira que age. Quem sou eu para mudá-lo? Talvez eu apenas precise deixá-lo seguir até onde suas próprias escolhas forem capazes de levá-lo.
E Eleanor...
Bom, ela já disse tudo sobre si mesma...
Talvez este capítulo não responda às perguntas que vocês têm. Talvez faça o contrário e crie algumas novas.
Mas quero saber: depois de conhecer um pouco mais os pensamentos dos dois, vocês conseguem enxergar Castiel e Eleanor da mesma maneira?
⠀
🌒 Em breve, o próximo capítulo. Até lá... escute os sussurros do outono.
Thoughts
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PermalinkPena do Castiel eu não consigo ter não, Diana. Ele diz que ama sozinho no salão e logo depois manda os guardas trazerem a mulher de volta como quem vai buscar bicho fugido. E a Cecília lá no berço sem mãe por causa dele. Vejo ele do mesmo jeito de antes, só que agora sei que ele sabe.
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PermalinkA Eleanor vai levar com a palavra covarde e eu não vou nessa. Ela trocou um risco por outro: ficou com a coroa e pagou com uma vida inteira de dúvida. Quem escolhe o lado sem risco também paga juros, só que a conta chega tarde.
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PermalinkOs ministros todos falando ao mesmo tempo e depois, quando ele manda encontrar a duquesa, ninguém responde. Cara, é reunião de diretoria quando o chefe perde a linha, todo mundo de repente olhando pro próprio sapato.
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