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Capítulo 03 - O Começo do Fim

mmiivs
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A lua alta no céu dizia com sussurros daquela noite que estava prestes a se tornar algo não-vivido. O palácio de Valtoria estava envolto em um silêncio estranho. Os longos corredores, que geralmente…

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Ovid

A Isabel dobrando a carta e deixando debaixo do travesseiro da Cecília me fez pensar em quanta coisa uma criança só entende anos depois, quando já tem idade pra ler aquilo com calma. Aposto que essa carta vai atravessar a história inteira e reaparecer num

A Isabel dobrando a carta e deixando debaixo do travesseiro da Cecília me fez pensar em quanta coisa uma criança só entende anos depois, quando já tem idade pra ler aquilo com calma. Aposto que essa carta vai atravessar a história inteira e reaparecer num capítulo bem mais pra frente. Sigo acompanhando!

Conteúdo da publicação

A lua alta no céu dizia com sussurros daquela noite que estava prestes a se tornar algo não-vivido. O palácio de Valtoria estava envolto em um silêncio estranho. Os longos corredores, que geralmente vibravam com o vai e vem dos criados e o eco distante das festividades, pareciam desabitados. As chamas das tochas dançavam nas paredes de pedra, lançando sombras que se estendiam pelo chão como dedos ansiosos. 

Era como se o próprio palácio soubesse. 

Era como se aquelas paredes, que por tantos anos haviam sido testemunhas silenciosas de sua prisão, soubessem que, naquela noite, Isabel finalmente faria uma tentativa de escapar delas.  

Nos últimos dias, ela e Henrique haviam planejado a fuga em segredo.  A fuga tinha que ser perfeita. Um pequeno deslize poderia arruinar suas vidas antes mesmo de conseguirem passar pelos portões de Valtoria. 

Isabel estava em seus aposentos, o coração acelerado, os olhos procurando cada detalhe. Seu vestido leve não transpirava bordados tão opulentos que anteriormente usava para eventos da realeza. Não havia joias. Não havia o símbolo de seu título preso ao pescoço. Não havia nada que denunciasse a duquesa de Valtoria.  Porque, pela primeira vez, a viu não como uma duquesa, mas como uma mulher livre. 

Naquela noite, ela não sonhava em ser uma duquesa.

Ela só queria ser Isabel.

Uma mulher.

Uma mulher que havia decidido tomar as rédeas da própria vida. 

Quanto mais tempo passava, mais urgente parecia a sensação. Castiel ainda estava reunido com os ministros do reino. Já haviam se passado horas desde que ele deixara seus aposentos. 

Horas valiosas, pensou.

Henrique havia pensado em tudo: os cavalos aguardavam nos estábulos, um caminho seguro os levaria além das montanhas e depois para um porto onde um navio partia no nascer do dia. Isabel sentia que aquele seria o único momento que teriam.  

Se conseguissem chegar até lá, deixariam Valtoria para trás. 

Não poderiam errar. 

Talvez nunca mais voltassem.

Talvez, pela primeira vez, pudessem descobrir como seria viver sem correntes.

Respirou fundo. 

Antes de sair do seu aposento, Isabel andou até ao berço onde Cecília dormia, profundamente em paz. A pequena estava aconchegada em mantas suaves, com o rosto tranquilo e os cabelos finos espalhados pelo travesseiro. 

Tão pequena. 

Tão pura. 

— Minha estrelinha. — murmurou, segurando os fracos dedinhos da pequena. 

O peito de Isabel apertou. 

A despedida era um fardo que ardia em sua alma, mas Isabel sabia que levar Cecília com ela era impossível. Era uma viagem que a criança não aguentaria, sobretudo, uma vez que fugindo, não iria sobreviver como foragida.

— Eu voltarei para você. Tenho esperança.

Era ali que sua coragem chegava ao fim.

Ela se aproximou com cuidado e se ajoelhou ao lado do berço.

Por alguns momentos, ficou apenas admirando a filha enquanto ela dormia.

Seus olhos ferviam com as lágrimas. Mesmo que ela desejava acreditar que um dia iria buscar sua filha, em seu coração profundo ela sabia que talvez nunca mais a tivesse de volta. 

Ela havia imaginado aquele momento tantas vezes. Imaginara partir com a filha, levá-la para longe, encontrar um lugar onde Cecília pudesse crescer sem conhecer o medo que sua mãe havia aprendido a esconder tão bem. 

Mas ela sabia que não poderia.

Castiel nunca permitiria.

Se ela tentasse fugir com a criança, ele mandaria homens atrás delas. E, se fossem encontradas, Isabel tinha plena consciência de que poderia perder Cecília para sempre.

Uma viagem longa e clandestina seria arriscada demais para uma criança tão pequena.

Por isso, Isabel tomaria a decisão que mais a machucava.

Partiria sozinha. 

— Um dia, minha estrelinha.

Cecília se mexeu um pouquinho, mas continuou dormindo.

Isabel sorriu, mesmo com as lágrimas escorrendo entre as bochechas.

Ela se inclinou e deu um beijo suave na testa da filha.

— Mamãe ama você mais do que tudo neste mundo.

Ficou ali por mais alguns segundos, tentando guardar cada detalhe daquele rostinho em sua memória.

Então, levantou-se. 

Engolindo o choro, Isabel se aproximou da penteadeira. Sobre a madeira polida, repousava um pequeno pergaminho. Com as mãos trêmulas, ela mergulhou a pena na tinta, respirou fundo e começou a escrever. 

Por um momento, as palavras simplesmente não vieram.

Como se expressar em uma despedida que uma mãe nunca deveria ter que enfrentar?

Ela respirou fundo.

E então, começou. 

Minha querida Cecília,

Quando esta carta alcançar o teu coração, é porque o destino quis que soubesse a verdade.

Eu te amo mais do que tudo neste mundo. Desde o dia em que segurei seu corpo pela primeira vez meus braços, nunca mais eu poderia ser quem eu era. Você é minha luz, meu ininterrupto fio de fé, minha vida. Perdoe-me, estrelinha, por não conseguir vir quando precisar, por não vê-la crescer, não segurar suas mãos nas noites de tempestades, ou contar histórias antes de dormir. Eu não fui embora porque não a amava mais. Eu fugi porque recuso-me a viver onde o amor é uma prisão. 

Talvez um dia você entenda. Talvez um dia me perdoe.

Quero que cresça forte, minha menina. Que aprenda a escolher a própria felicidade e nunca permita que alguém faça você acreditar que nasceu para viver em uma gaiola. 

Se algum dia sentir o vento frio do outono tocar seu rosto, lembre-se de mim. Talvez meu amor ainda esteja em algum lugar entre as folhas que caem. 

E, onde quer que eu esteja, ele sempre encontrará o caminho de volta até você. 

Para sempre sua,

Mamãe.

Isabel repousou a pena e permitiu que algumas das lágrimas rolassem sobre o papel, desbotando levemente a tinta. 

Ela dobrou a carta com cuidado e deixou tudo debaixo do travesseiro de Cecília. Era tudo que poderia dar à sua filha: palavras, promessas e lembrar que nunca perdeu a possibilidade de amá-la. 

E a certeza de que, não importa o que aconteça, o amor por sua filha jamais haverá desaparecido.

Isabel ficou ali por mais alguns momentos.

Depois, pela última vez, deu um beijo suave na testa da menina. 

— Adeus, minha estrelinha. 

A palavra mal conseguiu sair.

Ela se afastou antes que a coragem se esvaísse.

Secou as lágrimas.

Abriu a porta.

E foi embora. 

🍂


O ENCONTRO

O corredor estava envolto em sombras.

Isabel avançava lentamente, colando-se às paredes, enquanto cada som ecoava como um estrondo. Seu coração pulsava intensamente no peito.

Um passo.

Depois mais um.

A cada metro que percorria, sentia que se distanciava de tudo que conhecia.

E, ao mesmo tempo, se aproximava de algo que nunca havia experimentado.

Liberdade. 

Isabel correu pelo caminho que dava até o jardim que ficava ao lado do salão real. As tochas penduradas nas paredes de mármore projetavam sombras sardas pelo corredor, isso criou um jogo de luz e trevas que parecia o cinismo do caminho com que seu destino vagava, o frio da noite penetrava nas suas vestes finas; Isabel não recuou. Seu futuro a esperava na escuridão. 

Por um breve momento, Isabel sentiu como se estivesse prestes a entrar em um mundo totalmente novo.

E quem sabe, talvez estivesse mesmo.

Ao chegar ao jardim, ela fez uma pausa.

Olhou ao redor.

Silêncio absoluto.

Foi então que ouviu um barulho vindo das árvores.

Seu coração começou a acelerar. 

— Isabel. 

Ela reconheceu aquela voz na hora.

Henrique emergiu das sombras.

Dessa vez, não estava com as roupas sofisticadas do baile. Ele usava algo mais simples, ideal para uma viagem e discreto o suficiente para passar despercebido. Mesmo na escuridão, seu andar era de um porte poderoso, a determinação e a ansiedade marcadas em cada linha de sua face. 

— Você veio. — Ele sussurrou, segurando sua mão e pressionando-a contra o peito dele. O seu e o coração dele batiam tão rapidamente quanto o dela, uma sinfonia feita de medo e esperança. 

— Eu nunca duvidei que viria. — Isabel respondeu, tremendo levemente nos lábios, mas não por causa do frio.Todo um sorriso amedrontado se fez presentes em seu semblante, um indicador da coragem que tentava surgir. 

Henrique levou a mão dela aos lábios e depositou um beijo suave em seus dedos. 

— Eu fiquei com medo de que você mudasse de ideia.

Isabel desviou o olhar.

— Eu também.

Ele a observou atentamente.

— A gente ainda pode voltar atrás.

Ela levantou o olhar.

Por alguns instantes, os dois permaneceram em silêncio. 

Isabel se lembrou de Cecília.

Lembrou-se de Castiel.

Recordou os anos em que aprendeu a engolir palavras, a esconder lágrimas e a sorrir quando, na verdade, queria gritar.

Então, apertou a mão de Henrique. 

— Não posso voltar.

O semblante dele se tornou mais suave.

— Então vamos.

Henrique olhou ao redor. 

A adrenalina corria por suas veias e ambos sabiam que não havia tempo para ser perdido. A fuga tinha que acontecer antes de Castiel ou seus guardas suspeitarem da sua ausência.

— Os cavalos estão prontos. —  Henrique murmurou enquanto lançava um olhar ao redor para garantir que ninguém estivesse olhando. 

Precisamos ir agora. 

Eles caminharam pelo jardim até encontrarem um pequeno portão escondido nos fundos do palácio. Poucos dos criados conheciam aquele atalho. Ele era usado principalmente para a entrada e saída de mercadorias, longe dos corredores principais. 

Ali, escondido atrás das árvores marcadas pelo vento outonal, um dos confidentes de Henrique aguardava com a paciência de quem conhece bem a escuridão. Seus olhos, atentos, refletiam a ansiedade de flagrar os amantes entrando.

— Rápido. Antes que se deem conta. — O homem sussurrou enquanto deslizava a chave na fechadura e destrancou o portão com um clique quase silencioso. Antes de desaparecer na escuridão, lançou um último olhar para Henrique. — Boa sorte, meu amigo.

Do outro lado, dois cavalos aguardavam. 

Henrique ajudava Isabel a montar no cavalo, quando seus dedos tocaram a cintura dela, Isabel sentiu um arrepio percorrer o corpo. Depois, subiu em cheio no próprio cavalo e olhou para baixo com olhar promissor. 

— Fique ao meu lado. Se algo acontecer, continue a cavalgar. Não olhe para trás. —  Ele disse, sua voz cheia de emoção.

Mas Isabel olhou para trás, pela última vez. 

Entre as árvores, ela conseguia enxergar apenas uma fração do palácio.

Aquele lugar tinha sido seu lar.

Sua prisão.

O espaço onde se casou.

Onde se tornou mãe.

E onde aprendeu a se perder dentro de si mesma.

Ela respirou fundo.

Não olharia para trás outra vez. 

O vento cortante da noite batia em seus rostos enquanto os cavalos galopavam pela trilha de pedras. Cada corrida era um passo a mais longe da prisão que Isabel conhecera por toda a sua vida e mais perto do desconhecido que, finalmente, poderia significar liberdade.

Os cavalos partiram.

Primeiro, em um ritmo tranquilo.

Depois, em um galope acelerado.

O vento soprava em seus rostos enquanto deixavam o palácio para trás.

Isabel sentia seu coração pulsar com força.

As árvores passavam como sombras fugazes.

O caminho de pedras se estendia à sua frente.

A cada passo dos cavalos, Valtoria se tornava mais distante.

Ela deveria estar apenas assustada.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, algo diferente brotou dentro dela.

Esperança. 

Henrique cavalgava ao lado dela.

Isabel lançou um olhar para ele.

Ele retribuiu com um sorriso.

E ela, por sua vez, sorriu de volta.

Quem sabe o amor fosse exatamente isso.

Não uma corrente.

Não uma obrigação.

Não uma prisão dourada.

Talvez fosse apenas a liberdade de decidir ficar.

E Isabel havia tomado essa decisão. 

Naquela noite, no entanto, nenhum dos dois tinha ideia de que algumas decisões podem custar muito caro.

Enquanto eles cavalgavam em direção ao horizonte, o destino já começava a apertar suas garras ao redor deles.

Lá atrás, no palácio de Valtoria, uma janela ainda brilhava.

E alguém havia notado que a duquesa não estava mais em seus aposentos. 

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🧡 Fim de mais um capítulo...

Debate rápido aqui: Se você estivesse no lugar de Isabel, sabendo que escolher o amor poderia significar perder tudo o que conhece... você teria coragem de fugir também?

🌒 Em breve, o próximo capítulo. Até lá... escute os sussurros do outono.

Thoughts

  • Oliviamar

    Fui primeiro ao fim, como sempre, e achei que a menina ia com eles. Afinal ficou no berço com a carta.

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  • NunoParreira

    O homem da chave abre o portão, deseja boa sorte e desaparece. Fiquei a pensar nele depois: aposto que foi quem mais arriscou naquela noite, e ninguém lhe vai agradecer.

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  • estagioSemGraca

    Castiel há horas reunido com os ministros enquanto a mulher foge pelos fundos. Reunião que nunca acaba tem essa utilidade.

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  • Ovid

    A Isabel dobrando a carta e deixando debaixo do travesseiro da Cecília me fez pensar em quanta coisa uma criança só entende anos depois, quando já tem idade pra ler aquilo com calma. Aposto que essa carta vai atravessar a história inteira e reaparecer num capítulo bem mais pra frente. Sigo acompanhando!

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  • Zuleica

    Vixe, minha filha, fugir eu até fugia. Agora deixar a menina no berço com uma carta debaixo do travesseiro, isso eu não conseguia não. Mas entendo a Isabel: com o Castiel mandando homem atrás delas, levar a pequena era arriscar perder ela de vez, e mãe faz conta que ninguém vê.

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