O Palácio de Valtoria brilhava como um farol de luz na escuridão desta noite de outono. O vento gelado evacuava pelas frestas das altas portas, levando consigo o cheiro astuto do perfume das folhas mortas e da doce terra úmida, anunciando o ar fresco. Mas no que diz respeito ao interior, o salão era doce-molde; os candelabros de cristal emitem raios de luz dourada em tudo em volta, e as cortinas de vinho veludo caíam pesadas, acontecendo suspiros falhados, afirmando-se cancelados.
A orquestra ainda executava uma valsa triste e devagar, os acordes penitentes, saindo pelo teto bem abafado, pareciam os segredos sussurrados das crianças proibidas pelos adultos. O salão estava repleto de nobres em suas melhores roupas: damas de joias e senhores de capas pesadas, todos trocando olhares para lá e apressando-se intencionalmente, escondidos em suas conversas.
No extremo do salão, a elite de seu cotidiano dançava, submetida sob o olhar vigilante da rainha Eleanor, sentada no trono de ouro e veludo escarlate. Nada fugia ao olhar da soberana; seu rosto era um jogo de expressões, nada escapava de seu foco.
No topo da escadaria, observando a cena com um olhar calculista e frio, estava Castiel de Valtoria, duque e oficial conselheiro da rainha Eleanor, por cima de tudo. Ao lado dele, um pouco mais atrás, caminhava Isabel de Lannon, a duquesa de Valtoria, esposa do poderoso Duque Castiel. Com um lenço em mãos e uma postura que lembrava uma marionete amarrada a fios invisíveis, ela se movia pelo salão com a perfeição perpétua que uma dama treinada a modelar faria questão de assumir.
Seu vestido, ligeiramente dourado e cravejado de pérolas minúsculas, a cobria suavemente como uma armadura. O cabelo escuro moldado em um rabo de cavalo harmonioso; a pele, quase translúcida, brilhava sob a luz das velas.
Ela parecia... uma esposa perfeita.
Por dentro, porém, estava partida em mil pedaços.
Nada mais do que uma mulher aprisionada, um pássaro preso em gaiola, num casamento sem amor.
Não, não gostava de estar lá naquela noite.
— Não me obrigue a ir, Castiel. — suplicara horas antes, com a voz em um fio de desespero.
O duque de Valtoria, seu marido, apertou os dentes. Segurou seu pulso com força maior que o necessário.
— Você não irá estragar tudo esta noite, Isabel!
E foi então que Isabel foi. Como sempre. Como deveria.
Chegando ao centro do salão, Castiel soltou-lhe a mão e afastou-se para falar com ministros e conselheiros do reino. Naquele instante, Isabel sentiu um leve alívio. Estava ali, no meio do salão banhado em luz, cumprindo seu papel com um sorriso ensaiado, ao som de valsas rodopiantes e de uma música orquestral desconsolada.
Foi então que o destino sussurrou seu nome pelos lábios de um estranho.
Henrique Devereux, o nobre rebelde, avistou Isabel no fundo do salão. Era um lugar onde ele não deveria voltar os olhos, ela era esposa de um homem poderoso. No entanto, algo naquele olhar carregado de emoção o fez abandonar todas as convenções. A poucos metros de distância, apoiado em uma das colunas de granito branco, ele a fitou como se a prendesse com magia. Era um homem de porte imponente, traços majestosos, vestido com um terno elegante, preto com detalhes prateados, cujo veludo parecia absorver a luz dourada do salão. Os cabelos negros, levemente desarrumados; o olhar, uma mistura de fascínio e perigo.
Isabel sentiu aquele olhar queimar-lhe a pele. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, e ela desviou o rosto de repente.
Os olhos dele foram a primeira coisa que viu: intensos, brilhantes, carregados de algo que ela não conseguia decifrar.
Ele levou uma taça de vinho aos lábios, mas não tirou os olhos dela.
A música mudou. A orquestra iniciou uma valsa lenta e profunda, cujas notas ecoavam pelo salão como um convite proibido.
Henrique afastou-se da coluna e deu alguns passos em sua direção.
Cada passo parecia reorganizar o mundo, como se o universo inteiro estivesse à espera daquele instante para girar em outro sentido.
Quando parou diante dela, Isabel sentiu o próprio coração bater descompassado.
Henrique baixou a cabeça.
— Milady.
Sua voz era grave, carregada de paixão, e algo dentro dela estremeceu.
Isabel pestanejou, buscando palavras. Mas antes que pudesse respirar fundo, ele estendeu a mão.
— Conceda-me esta dança.
Ela paralisou. Sabia que não deveria aceitar. Sabia que Castiel a observava. Sabia que todos os olhares se voltariam contra ela.
Por um décimo de segundo, tudo poderia ser esquecido.
Apenas por um instante, ela poderia imaginar o que seria a liberdade.
E aceitou.
Henrique segurou-lhe a mão com firmeza, uma segurança à qual ela não estava acostumada. O toque quente e decidido guiou-a até o centro do salão, onde os pares já se moviam ao ritmo da valsa.
Quando ele a envolveu suavemente pela cintura, Isabel sentiu o fôlego fugir e os olhos arregalarem. Jamais havia estado tão perto de outro homem que não fosse o marido.
— Não me olhe assim, milorde. — sussurrou, cativada por aquele olhar.
Henrique sorriu — um sorriso ousado e demorado.
— E como estou olhando para a senhora?
— Como se me conhecesse há muito tempo.
Henrique conduziu-a pela sala com passos perfeitos, guiando-a como se dançar com Isabel fosse a coisa mais natural do mundo.
— Talvez em outras vidas.
Ela sorriu.
Giravam pelo salão como se fossem um par feito para dançar. Isabel percebeu que já não sentia o peso dos olhares alheios, nem as murmurações ao redor. Naqueles momentos, sentia menos o peso das correntes invisíveis que a prendiam.
Ele era o motivo.
A dança não era apenas um ato social. Era um risco. Era um segredo.
Os olhos se encontraram, e, por um breve instante, Isabel permitiu-se acreditar que existia um mundo onde ela seria livre, um lugar real.
Um mundo onde não precisava ouvir o próprio nome ser golpeado como um martelo.
Onde poderia amar sem medo de punição.
Mas o mundo não era assim.
A música parecia tornar-se ainda mais lenta. O mundo parecia pequeno.
Quando a melodia terminou e a realidade voltou ao salão, Henrique soltou-a com suavidade. Ainda a fitando, inclinou a cabeça, e seus lábios roçaram-lhe a pele do rosto, e naquele instante, com os olhos fechados, tudo pareceu mudar.
— Espero voltar a vê-la, milady.
Isabel engoliu as palavras que ansiava por dizer. O coração não lhe permitiu.
Ao afastar-se, porém, compreendeu: uma parte de si já não lhe pertencia mais.
E naquela noite, o outono testemunhou em segredo um amor que acabara de nascer, tão belo e tão cruel quanto a estação que transforma tudo antes de deixar o inverno chegar, solitário.
Algo que jamais deveria ter começado.
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🧡 Fim do capítulo...
Mas o silêncio entre uma página e outra guarda mais do que se imagina.
O que virá depois?
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🌒 Em breve, o próximo capítulo. Até lá... escute os sussurros do outono.