Li duas vezes e só na volta notei que as três meninas arrumadas ficam olhando as suas. Quem observa ali são elas. E a sua mais velha, a calada, dança no corredor justo no lugar onde se sente em casa. Pra mim a crônica responde o título sem querer: as suas sabem a hora da fila, só não acham que o balé seja essa hora.
C 048 CRIANÇAS, ERRADO OU CERTO, EDUCAÇÃO
Pensamento
Li duas vezes e só na volta notei que as três meninas arrumadas ficam olhando as suas. Quem observa ali são elas. E a sua mais velha, a calada, dança no corredor justo no lugar onde se sente em casa. Pra mim a crônica responde o título sem querer: as…
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Série, (Crônicas)
As crianças silenciosas, já ouviu falar sobre elas? Eu não as tenho.
Às vezes me questiono se a educação e os limites que estou impondo são suficientes ou se estou fazendo errado. São sete e quinze da manhã, estão acordadas desde as cinco, e agora estão fazendo "experimentos" na escada: jogam bolas de pingue-pongue pelos degraus e analisam o melhor ângulo para que caiam em um pote que fica no térreo. E a cada acerto, são gritos e comemorações.
Nas aulas de balé há uma família — um pai que leva as quatro filhas, uma escadinha de idades: sete, seis, quatro e um ano. Quando ele aperta o interfone, elas entram em fila indiana, silenciosas. Sentam-se e não falam uma palavra até entrarem para a aula. A única que tenta falar e andar é a bebê de um ano, que explora o lugar com o pai a seguindo, enquanto as outras ficam ali sentadas, quase como estátuas.
As minhas duas são um caos. Pego-as na escola e elas vão cantando e repetindo em coro até chegar à escola de balé: "balé, balé...". No estacionamento, ao abrir a porta do carro, pulam para fora e correm para a entrada. E, mesmo eu dizendo para não apertarem a campainha, elas apertam umas trinta vezes, enquanto eu pego as bolsas com as roupas e o lanche. Lá dentro, elas cumprimentam, riem, conversam; até a minha filha mais velha, que é mais calada, fica extremamente falante: dança no corredor tentando fazer os passos que aprendeu na última aula, canta, pula...
Eu troco o uniforme da escola pelas roupas de balé e faço o penteado com coque no banheiro. Enquanto arrumo uma, a outra come o lanche, e depois invertem. Mas, mesmo após comerem o que eu levo, elas ainda pegam os biscoitos de cortesia da escola. Conversam com todos os funcionários, sobem e descem dos bancos... enquanto as três meninas arrumadas e silenciosas observam as minhas tagarelas e bagunceiras.
Na escola das meninas há outra família. São pais jovens, devem ter no máximo trinta anos, e têm cinco filhos: quatro meninas e um bebê que nasceu recentemente. É outra escadinha. Não tenho muito contato com eles, mas a mãe das crianças me segue no Instagram e eu a sigo de volta. As filhas, as quatro meninas, saem da escola silenciosas, uma segurando a mão da outra ou caminhando devagar. As minhas filhas vêm correndo pelo corredor, gritando "MÃÃÃE!" ou "PAAAI!". Há uns dois anos, eles viajaram para a Europa. Na mesma época, eu fui para outro estado, no mesmo país, para a casa de praia da minha mãe. Quando voltamos, fiquei uns quatro meses esgotada fisicamente, emocionalmente e financeiramente — e eu só tenho duas.
A educação positiva e participativa tem uma linha tão tênue entre ser assertiva e permissiva, que às vezes tenho medo de cruzar essa linha e só perceber quando estiver longe demais. As minhas filhas têm uma educação até rígida: só podem assistir à TV nos finais de semana; tablet e jogos também só aos finais de semana. Dormem às vinte horas, não podem falar gírias ou palavras torpes, tratam todos com respeito. Nunca tivemos reclamação da escola por desvio de conduta, agressividade ou desobediência. Elas sabem seguir regras. Ficam de castigo em casa quando é necessário.
Recentemente, encontrei uma conhecida que tem um filho de oito anos, mais velho que as minhas, que também está na educação infantil. Ela também educa nos moldes da educação positiva. O filho dela está estudando em casa há três meses. Ela me contou que, no ano passado, o menino foi convidado a se retirar da escola particular, foi para uma escola pública e teve vários problemas de conduta. Agora, ele está em casa estudando. Eu não sou ninguém para julgar o que é certo ou errado na educação dos filhos alheios, só me questiono se estou fazendo o certo.
A educação respeitosa não quer dizer que não haja limites, regras ou punição por desvio de conduta. A educação respeitosa é aquela em que você educa, corrige e impõe limites, mas permite que a criança seja criança: que faça seus acertos e seus erros, que se desenvolva, crie senso de justiça e respeito, aprenda a fazer o certo mesmo quando o errado pareça mais fácil. Tudo isso sem ser castigada física e emocionalmente. Parece que, quanto mais filhos você tem, mais fácil fica...
Se estou fazendo o certo ou errado, não sei. Daqui a alguns anos volto a escrever sobre isso.
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