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C 040 Do Espelho à Chave

BELADIA
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Série Crônicas

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Rutemaria

Fez a janta e passou-lhe a roupa antes de pedir a chave, a mala arrumada até ao fim. A filha chegou a saber o que a mãe ouviu à porta?

Fez a janta e passou-lhe a roupa antes de pedir a chave, a mala arrumada até ao fim. A filha chegou a saber o que a mãe ouviu à porta?

Conteúdo da publicação

Série Crônicas

Ela jogava a água no rosto, tentando disfarçar as lágrimas que caíam sem cessar. Olhando no espelho, viu uma mulher de pouco mais de quarenta anos, já com alguns cabelos brancos. Em volta de seus olhos, havia linhas de expressão demonstrando a sua idade. Os olhos estavam vermelhos e as lágrimas caíam sem controle. Um soluço tentou escapar, e ela levou as mãos à boca para abafar o choro que lutava para sair. Suas pernas estavam pesadas e, por mais que tentasse segurar, o pranto transbordava pelos olhos e o seu peito doía.

Aquelas palavras do pai consolando a sua única filha — que estava prestes a se formar na faculdade e, recentemente, havia passado por uma desilusão amorosa — ecoavam em sua mente:

— Você é a garota mais linda do mundo, esse rapaz não é para você. Você não nasceu para mendigar amor e afeto de nenhum homem. Você deve ser sempre a primeira na vida do homem que escolher para dividir a vida, porque você merece ser feliz. Um homem que trai uma vez sempre vai trair. Ele não tem caráter, ele não te ama e nunca vai amar. Quem ama não trai; quem ama cuida, protege, quem ama sempre terá o outro em primeiro lugar. Mas, primeiro de tudo, esse amor tem que ser de você para você mesma. Uma mulher que se ama nunca vai aceitar migalhas, ser a outra ou aceitar ser traída. Você é a minha princesa, você sabe disso, né? — falou o pai para a moça, que agora enxugava as lágrimas e o abraçava, enquanto ele gentilmente arrumava seus cabelos com carinho.

Minutos antes, a mãe havia visto tudo pela fresta da porta. Ao ouvir aquelas palavras, saiu andando rápido, conforme seu coração acelerava, rumo aos fundos da casa. Lá, onde havia uma edícula com cozinha e um banheiro, ela entrou, trancou a porta e desabou. Agora, ali, escorregando lentamente pela porta fechada com as mãos abafando o choro descontrolado, sua memória a levou para pouco mais de vinte anos atrás.

No interior do Norte do país, na cidadezinha onde crescera, vivia com sua família; os pais frequentavam uma igreja pentecostal. De cabelos longos, ela era a moça mais bonita da igreja, a mais bonita do lugar, a melhor aluna. O homem que agora consolava a filha no quarto era, na época, apenas um jovem, o seu primeiro namorado. Os pais dela não aceitavam o relacionamento, pois ele não era da mesma igreja. Mas, mesmo assim, ela namorou às escondidas e engravidou. Ele não quis casar nem assumir a criança. Após muita insistência da família dela, e com o pai mobiliando e dando uma casa para os dois, ele acabou assumindo a moça e a gravidez.

Um ano se passou e ela descobriu que ele a traía com outra moça que morava perto de sua rua. Ela terminou o relacionamento, pegou a bebê que tinha menos de um ano e voltou para a casa dos pais. A família, por sua vez, mudou-se do interior do Norte para o Sudeste do país. Lá, ela começou uma nova vida: voltou a estudar enfermagem, ainda morando com os pais que a ajudavam a criar a filha.

O rapaz, que havia se casado com a amante no civil e no religioso, agora trabalhava como caminhoneiro. Sua atual esposa tinha dois filhos, e eles haviam se mudado para o Centro-Oeste do país. Querendo se aproximar da filha, ele passou a visitá-las várias vezes ao mês. De tantas vindas, um novo relacionamento entre os dois começou, e a família dela, mais uma vez, não aprovou. Nos primeiros meses, ela sentiu certa satisfação por ser, agora, a amante; afinal, a outra que a fizera chorar estava exatamente na mesma posição em que ela um dia esteve.

Mas os anos foram passando. Eles construíram uma casa juntos, e a filha cresceu. Com o tempo, a satisfação de ser a amante e as cobranças para que ele terminasse o casamento cessaram. Ele nunca quis se separar; se ela quisesse ter algo com ele, teria que ser daquele jeito. E ela concordou, mesmo chorando pelas madrugadas quando ele partia de volta para a casa da esposa, sorrindo, mas querendo chorar nas datas comemorativas em que ele escolhia ficar com a esposa e os filhos, como no Natal. No aniversário dela, ele nunca esteve presente para comemorar.

A filha estava se formando e, daqui a alguns anos, ele iria se aposentar. Como as viagens pelas estradas iriam acabar, uma pergunta ecoava constantemente em sua mente e em seu coração: quando ele se aposentasse, onde iria morar? Com a esposa e os dois filhos em outro estado, ou com ela e a filha? Quem ele escolheria no final, depois de uma vida mantendo duas famílias? Será que, finalmente, ela seria a escolhida? Será que ele a teria como prioridade pelo menos uma vez na vida?

Ela sentia que seria a escolhida, recompensada por ter aguentado passar tantos anos sendo a amante. A outra não sabia do relacionamento deles, e ela tinha fé de que ele só continuava casado por causa dos filhos, que iria se divorciar e acabar ficando com ela.

Ali, sentada no chão, chorando descontroladamente e com as mãos tentando abafar os soluços, após ouvir o homem que tanto amou — e ao qual tanto se sujeitou — aconselhar a filha a não fazer exatamente o que ela havia feito a vida inteira por ele, veio uma certeza que doeu fundo em seu coração: ele nunca a amou. Ele estava ali por comodidade. Ela sempre se contentou com pouco, e ele nunca a escolheria no final. Ela seria para sempre a mulher que mendigou afeto, e ele, o homem sem caráter que não mudaria.

Três horas se passaram. As lágrimas já não teimavam em cair. Ela se levantou, lavou o rosto mais uma vez e foi para dentro de casa. Fez a janta. Foi ao quarto e preparou a mala dele: acomodou as roupas lavadas e passadas dentro da bolsa e a deixou perto da porta. Ele gostava de viajar à noite para chegar pela manhã na casa da esposa.

Ele jantou. Despediu-se da filha com um beijo e disse: "o pai te ama". A filha entrou em casa e os deixou a sós. Ele olhou para a mulher com um sorriso de despedida; nem sequer notou seus olhos inchados de tanto chorar durante a tarde.

— Dê-me a chave de casa.

Ele olhou sem entender. Tirou a chave do chaveiro e a entregou.

Ela olhou fundo nos olhos dele:

— Eu ouvi o conselho que você deu à nossa filha. Você é um bom pai, e eu vou pegar o seu conselho para mim. Boa viagem e, quando voltar, fique em um hotel. Você não mora mais aqui. Acabou.

Thoughts

  • Rutemaria

    Fez a janta e passou-lhe a roupa antes de pedir a chave, a mala arrumada até ao fim. A filha chegou a saber o que a mãe ouviu à porta?

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  • Ovid

    Ela ainda preparou a mala dele com a roupa lavada e passada antes de pedir a chave, e isso me fez pensar em quanto tempo alguém continua cuidando por hábito depois que já decidiu ir embora. Aposto que a filha vai entender essa cena muito antes do pai. Que bom ver a série Crônicas chegando na número 40!

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  • desigrejada_aos_poucos

    Fiquei no começo, com ela sendo a menina mais bonita e a melhor aluna daquela igreja pentecostal. Pra mim isso explica bastante dos vinte anos seguintes: lá dentro a menina aprende cedo que o valor dela é ser escolhida, e esperar alguém escolher vira quase virtude. Pedir a chave na porta foi a primeira vez que ela escolheu sozinha.

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