A avo pediu de novo pra eu ler pra ela, igual dos outros textos teus, e mandou repetir a placa de NAO ENTRE kkk. essa do sobrado aconteceu contigo de verdade?
Banco Sentimentos S/A
Todos valorizam seus sentimentos. E, muitas vezes, esse valor cresce justamente quando sofremos traumas daquilo que escolhemos pela imagem que nos parecia atraente, como um investimento, uma…
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A avo pediu de novo pra eu ler pra ela, igual dos outros textos teus, e mandou repetir a placa de NAO ENTRE kkk. essa do sobrado aconteceu contigo de verdade?
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Todos valorizam seus sentimentos. E, muitas vezes, esse valor cresce justamente quando sofremos traumas daquilo que escolhemos pela imagem que nos parecia atraente, como um investimento, uma referência que nunca verificamos de verdade.
Guardamos sentimentos como quem guarda dinheiro em um banco, esperando que o tempo pague juros.
Só que sentimento também pode perder valor.
É um papel-moeda que atravessa Plano Cruzado, Cruzeiro, URV, Real, dólar, Bitcoin. Muda o nome, muda a cotação, muda o mundo. Aquilo que ontem parecia ter um valor absoluto pode amanhã não comprar sequer o que comprava antes.
Amor pode ser parecido com investimento quando sabemos, pelo menos, separar o que é óbvio daquilo que é sonho.
O óbvio também pode carregar devaneios. Sonhos podem não ser realizáveis — e nem precisam ser. O problema começa quando confundimos o sonho de uma pessoa com a obrigação da outra de realizá-lo.
Para um relacionamento funcionar, existe uma participação dos dois. Os dois precisam estar, de alguma maneira, na mesma sintonia. Não precisam pensar igual, desejar as mesmas coisas ou concordar o tempo inteiro. Mas precisam se tratar como adultos.
Sem a participação de um, o outro não sustenta sozinho aquilo que deveria ser construído pelos dois.
Guardamos aquilo que consideramos valioso dentro do que somos: na carne e nos sentimentos. Ambos apodrecem.
O sentimento perde valor com o tempo. E existe uma ironia nisso: os sentimentos continuam sendo valores sentimentais para nós mesmos, mas podem perder completamente o valor para o outro.
Nós também perdemos valor aos poucos.
Perdemos beleza. Perdemos músculos. O colágeno desaparece lentamente. A pele muda. O corpo muda. O tempo vence todo mundo.
E chega uma hora em que aquele sentimento já não recebe os juros que imaginávamos.
Fica a amargura.
Mas a vida não deve nada a ninguém. Muito menos os outros.
Uma lição não dura para sempre.
Lucidez dura.
Vejo muros de cidades escritos com “MAIS AMOR, POR FAVOR!”, como um protesto de quem quer amor, quer receber amor, quer negociar amor.
É quase como aqueles cartazes flutuantes:
VENDE-SE E COMPRA-SE OURO!
Só que amor não se pede.
Amor se dá.
Podemos até comprar companhia, atenção, sexo, conforto, segurança ou qualquer outra coisa que confundamos com amor. Mas, quando a prestação vence, aquilo que foi comprado também pode acabar.
Amor é um subproduto da paixão.
Talvez seja como os resíduos das cinzas nucleares de uma usina: a paixão produz uma quantidade enorme de energia, mas depois precisamos lidar com aquilo que ficou. Podemos guardar, podemos cuidar, podemos contaminar outras pessoas com aquilo que não conseguimos resolver.
Ninguém é obrigado a ter empatia.
Muito menos alguém é obrigado a respirar o amor que outra pessoa decidiu produzir.
Não existe idade para amar como existe idade para tirar uma carteira de motorista.
Mas existe idade para começar a entender o que é amar.
Paixão nos faz perguntar a quem amar.
Amor nos mostra o que fica depois que a paixão passa.
E o juro vem com o tempo.
Muitos colocam seus sentimentos em um banco esperando que eles rendam. Esperando que a outra pessoa nos ame como achamos que merecemos. Como acreditamos que deveríamos ser amados.
É como guardar dinheiro no colchão e descobrir, anos depois, que aquelas notas já não valem nada.
Ou pior:
a casa pega fogo.
O amor precisa circular.
Não significa gastar tudo.
Tenha bom senso.
Não seja radical a ponto de transformar o oposto da sua crença em uma nova crença. É preciso ouvir propostas, observar o mercado futuro e, principalmente, conseguir se enxergar dentro dele.
Porque no futuro não existe verdade.
Existe realidade.
Imagine assim.
Você está com aquela pessoa.
Vocês moram em um sobrado bacana, mobiliado, com três quartos, em um bairro também bacana. Os vizinhos não são exatamente legais, mas cada um vive na sua.
Você está no trânsito, voltando para casa depois de um dia estressante de trabalho — ou de qualquer coisa que você faça para manter tudo aquilo que vocês têm.
Você chega.
Sua pessoa amada está no quarto, trabalhando.
A porta está fechada.
Você não sabe se ela está online, em uma reunião ou simplesmente concentrada.
Então você vê um letreiro vermelho aceso:
NÃO ENTRE!
Você lembra que vocês brigaram várias vezes por causa disso.
Ela pediu durante meses para você instalar aquela placa.
Finalmente você instalou.
Com raiva.
Mas instalou.
E instalou direito.
Agora você olha para a placa e lembra das brigas. Só que, em vez de sentir apenas raiva, existe uma pequena satisfação:
a discussão acabou.
A placa está ali.
Você resolveu uma coisa que estava incomodando a pessoa que ama.
Vai até a cozinha.
Não tem nada para comer.
Você fica com raiva.
Depois pensa:
“Ela também está ocupada.”
Ela trabalha.
Você trabalha.
Vocês trabalham para manter aquilo que construíram.
Ela não está fazendo nada contra você.
Ela está vivendo a própria vida ao seu lado.
Então você prepara uma carbonara.
Ou está cansado demais e pede um prato bom pelo iFood.
A comida chega.
Você recebe o pedido.
E, alguns minutos depois, o celular acende.
É uma mensagem dela:
“Que cheiro gostoso. Desculpa não fazer nada, estou ocupadíssima... Te amo.”
Não é a frase “eu te amo” que faz aquilo valer.
Não é a casa.
Não são os três quartos.
Não é o carro.
Não é o dinheiro.
Não são as coisas que vocês conquistaram juntos.
É a capacidade de reparar nas coisas boas e nas coisas ruins.
É fazer a conta no Banco dos Sentimentos e perceber que, apesar das brigas, das irritações, dos dias ruins, das portas fechadas, da comida que não foi feita e de tudo aquilo que deu errado, ainda existe saldo.
Não um saldo perfeito.
Um saldo suficiente.
Suficiente para continuar.
Talvez seja isso que chamamos de amor.
Encontrar um lugar.
Encontrar um propósito.
Encontrar pertencimento em alguém a quem decidimos dedicar uma parte da nossa existência.
No fundo, talvez amar seja fechar os olhos dentro da escuridão e, mesmo sem enxergar o que existe pela frente, saber que estamos de mãos dadas com alguém em quem confiamos.
O cenário pode ser horrível.
Pode ser imaginário.
Pode ser desconhecido.
Pode ser exatamente aquilo que mais tememos.
Ainda assim, existe uma certeza:
a pessoa está lá.
É isso que imaginamos antes mesmo de chegar em casa.
É isso que esperamos encontrar quando abrimos a porta.
Não a promessa de que tudo ficará bem.
Mas a possibilidade de que, mesmo quando não estiver, não estaremos sozinhos.
Esse é o juro.
Esse é o juro do Banco Sentimentos S/A.
Thoughts
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PermalinkA cena da carbonara, ou do iFood quando o cansaço ganha, e a mensagem chegando do quarto ao lado com a porta ainda fechada: isso me pareceu mais verdadeiro sobre casal do que toda a parte do banco. Aposto que muita gente vai chegar até o final pela parte do banco e o que vai ficar na cabeça é a mensagem da porta fechada. Gostei muito de ler!
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PermalinkA avo pediu de novo pra eu ler pra ela, igual dos outros textos teus, e mandou repetir a placa de NAO ENTRE kkk. essa do sobrado aconteceu contigo de verdade?
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