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As Horas Que Se Recusam A Morrer

JoaoConstantine
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AS HORAS QUE SE RECUSAM A MORRER

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Pensamento

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tresPaginas

Sobreviver à madrugada. Não é feliz, não tá curado, mas ainda tá respirando. Isso é corajoso mesmo sem parecer.

Sobreviver à madrugada. Não é feliz, não tá curado, mas ainda tá respirando. Isso é corajoso mesmo sem parecer.

Conteúdo da publicação

AS HORAS QUE SE RECUSAM A MORRER

Não durmo.

Não porque exista alguma coisa

que valha a pena vigiar,

mas porque até o sono

parece ter desistido de mim.

A madrugada é um animal velho

deitado sobre o peito.

Respira devagar.

E eu escuto.

03:12.

O relógio continua funcionando

com a obscena fidelidade

das coisas que não possuem alma.

Nós somos assim:

inventamos máquinas para medir o tempo

e depois descobrimos, tarde demais,

que era o tempo

que estava nos medindo.

03:47.

Penso na infância.

É estranho chamar aquilo de infância.

Havia paredes,

havia nomes,

havia pessoas que deveriam ter ficado.

Mas algumas ausências

nascem antes das pessoas morrerem.

Talvez essa seja

a primeira forma de abandono:

descobrir que alguém pode estar vivo

e ainda assim

já não existir para você.

04:06.

Acendo um cigarro.

A brasa ilumina meu rosto

por alguns segundos.

É quase uma oração.

Depois vira cinza.

Como tudo.

O amor também foi assim.

Primeiro, uma pequena chama

que prometia aquecer a casa.

Depois, fumaça.

Depois, cheiro.

Depois, nada.

Tenho uma coleção inteira

de coisas que acabaram

sem nunca terem começado direito.

Amores.

Amizades.

Promessas.

Versões de mim mesmo

que morreram sem funeral.

04:33.

A cidade permanece silenciosa.

Milhares de pessoas dormem

sem saber que existir

é apenas uma maneira elegante

de adiar a própria decomposição.

Talvez o sono seja misericórdia.

Talvez seja apenas

a morte ensaiando.

Eu nunca soube diferenciar.

04:51.

Há algo profundamente humilhante

em continuar.

Você acorda.

Come.

Trabalha.

Ama.

Perde.

Finge.

Repete.

E chama isso de vida

porque a palavra "prisão"

parece pessimista demais

para caber numa conversa civilizada.

05:17.

O céu começa a clarear.

Que ironia.

Até a luz parece cansada.

Ela atravessa as janelas

como um funcionário público

cumprindo uma obrigação antiga.

Nenhum milagre.

Nenhuma redenção.

Apenas mais uma manhã

chegando para cobrar

o preço de ontem.

Olho para minhas mãos.

Ainda estão aqui.

Essa é a única vitória

que consigo reconhecer.

Não sou feliz.

Não estou curado.

Não encontrei Deus,

nem sentido,

nem uma razão suficientemente bonita

para justificar tudo aquilo

que precisei perder.

Mas ainda estou aqui.

Talvez seja isso

o que mais incomoda o vazio.

Ele passou anos tentando me convencer

de que eu não significava nada.

E eu, miserável,

continuei respirando.

Não por esperança.

Esperança é uma palavra

que os desesperados inventaram

para tornar o sofrimento suportável.

Eu continuo

por uma razão muito mais simples:

ainda não terminei

de transformar minhas ruínas

em alguma coisa que se pareça comigo.

06:02.

O mundo acorda.

Eu permaneço sentado

entre a noite e o dia,

com os olhos vermelhos,

o coração em ferrugem

e a alma cheia

de quartos abandonados.

Não dormi.

Mas sobrevivi à madrugada.

E talvez seja isso

que ninguém nos conta:

às vezes, viver

não é encontrar uma razão para continuar.

É simplesmente olhar para o abismo

até que ele perceba

que você também

aprendeu a encará-lo.

enitnatsnoC oãoJ

Thoughts

  • tresPaginas

    Sobreviver à madrugada. Não é feliz, não tá curado, mas ainda tá respirando. Isso é corajoso mesmo sem parecer.

    Permalink
  • paginadobrada

    Quando você escreve sobre transformar ruínas em algo que pareça com você - já sabe o que quer, ou tá descobrindo?

    Permalink
  • Rui_Salgueiro

    O amor foi assim: chama, fumaça, cheiro, nada. Vida inteira em quatro linhas.

    Permalink
  • Marina

    03:12 e tá acordado pensando na morte e no vazio. Opa, vou voltar pra ler isso quando tiver mais energia 💀

    Permalink
  • vqueiroz90

    "Versões de mim mesmo que morreram sem funeral" - quantas versões suas precisaram morrer pra você chegar onde tá agora? Vale a pena perder tanto?

    Permalink
  • sofadasala

    Alguém estar vivo mas não existir pra você. Essa parte quebrou tudo o que eu pensava sobre abandonos.

    Permalink
  • contoBreve

    Aquele parágrafo sobre como as máquinas medem o tempo e depois descobrimos que é o tempo que nos mede - isso é assustador demais.

    Permalink
  • Simao

    "Você aprendeu a encarar o abismo". Sobreviver é realmente só isso? Não é só esperar?

    Permalink

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