Nas Montanhas da Loucurry
Nunca esquecerei o sabor daquele lugar.
Não foi apenas uma expedição científica — embora tenha começado assim. Fomos enviados para investigar uma cadeia montanhosa recém-descoberta, erguida no meio de uma região onde, segundo registros geológicos, nada deveria existir além de planícies áridas. Mas lá estavam elas: as Montanhas da Loucurry.
O nome surgiu como piada, dado por um dos cozinheiros da equipe, ao notar um aroma persistente no ar. Um cheiro… temperado. Exótico. Quase convidativo.
Deveríamos ter ido embora naquele momento.
Mas não fomos.
À medida que nos aproximávamos, o odor se intensificava. Não era apenas curry. Era algo mais profundo — uma mistura impossível de especiarias, como se todas as cozinhas do mundo tivessem sido reduzidas a uma essência única e enlouquecedora. Alguns começaram a salivar sem controle. Outros relataram memórias vívidas de refeições que nunca tiveram.
Na terceira noite, ouvimos os primeiros sons.
Panelas.
Sim, panelas.
E algo mexendo dentro delas.
Subimos.
As montanhas não eram formadas de rocha comum. As paredes apresentavam texturas estranhas, quase orgânicas — como se tivessem sido cozidas lentamente ao longo de milênios. Em certos pontos, escorria uma substância dourada e espessa, com cheiro de açafrão e algo... indescritivelmente antigo.
Foi quando encontramos as ruínas.
Ou melhor — a cozinha.
Gigantesca. Colossal. Utensílios do tamanho de prédios. Fogões ciclópicos, ainda mornos. Colheres que poderiam mexer oceanos. E marcas… marcas de algo que não ouso descrever completamente, mas que claramente não era humano.
Havia inscrições nas paredes.
Nosso linguista tentou traduzi-las. Ele ficou em silêncio por horas, depois começou a rir.
E nunca mais parou.
Segundo seus últimos registros, as inscrições falavam de entidades ancestrais — não deuses, mas chefs. Seres antigos que vieram de além das estrelas trazendo receitas proibidas. Eles moldaram a matéria, não com ciência… mas com culinária.
Eles não criavam vida.
Eles a temperavam.
Descobrimos então o verdadeiro horror.
As montanhas não eram montanhas.
Eram pratos.
Camadas sobre camadas de algo que um dia foi… outra coisa.
A equipe começou a mudar. Alguns passaram a provar as paredes. Um deles mergulhou as mãos na substância dourada e começou a comer, chorando de êxtase. Outro afirmou que podia “ouvir as receitas sussurrando”.
Eu tentei manter a sanidade.
Tentei.
Mas então vi.
No coração da maior câmara, havia um caldeirão.
E dentro dele…
Algo se movia.
Não como um animal.
Mas como uma ideia sendo cozida.
Era vasto. Pulsante. Aromático. Um ser que não precisava de forma fixa — apenas de sabor. Ele nos percebeu. Eu sei que percebeu. O ar mudou. O cheiro ficou mais forte. Mais doce.
Mais… convidativo.
Uma voz surgiu em minha mente.
“Prove.”
Não era uma ordem.
Era uma promessa.
Fugi.
Fugi sem olhar para trás, ignorando os gritos — ou seriam gargalhadas? — dos meus companheiros. Desci as montanhas cambaleando, com o gosto daquele lugar impregnado na língua, na alma, nos pensamentos.
Hoje, escrevo este relato com mãos trêmulas.
Nada mais tem sabor.
Nada.
A comida do mundo inteiro tornou-se cinza, sem vida, sem sentido.
Porque eu sei.
Eu sei que existe algo lá fora, nas Montanhas da Loucurry…
Algo que cozinha a realidade.
E que, um dia…
Vai servir.
E quando esse dia chegar—
Deus nos ajude.
Porque nós já fomos temperados.