Antes que venha me xingando, esse título foi feito para ser polêmico, chocante, incômodo; algo que provavelmente mexeu com você. Bem, vamos começar pela ideia de “Só mentirosos conseguem falar de amor”. Não se trata de falsidade, muito menos de mau-caratismo, mas de algo mais complexo e que merece uma explicação melhor do que a frase, por si só, parece oferecer.
O amor é uma experiência infinita em questão de intensidade e poder, caótica, contraditória, avassaladora. Mas, como sempre, coisas assim precisam de alguma definição. É aí que entra o problema: palavras não são “infinitas” como sentimentos. Quando tentamos pegar um sentimento que sentimos ser do tamanho, e talvez até além, do universo e transcrevê-lo em texto, somos obrigados a cortar pedaços dele. De certa forma, diminuímos seu impacto e não conseguimos criar a mesma expectativa, tanto para quem já sentiu quanto para quem nunca sentiu.
É uma simplificação vulgar, tosca, desalmada. Qualquer tentativa de definir o amor com exatidão é, tecnicamente, uma redução repulsiva da realidade, ou seja, uma mentira. Um sentimento tão grandioso não pode caber em apenas quatro letras.
O poeta português Fernando Pessoa uma vez escreveu:
“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.”
Para conseguir explicar o que é o amor, temos que usar... metáforas, comparações irreais, desfigurações da realidade, hipérboles: “Eu morreria por você”, “Você é a luz que iluminou minha vida”, “Você é minha vida”. Nenhuma delas é literalmente verdadeira.
Transmitir a verdade emocional do amor é difícil. Somos obrigados a usar a mentira literal da poesia para tentar demonstrá-la. Afinal, como iríamos definir o amor para alguém que nunca o sentiu ou sequer sabe o que ele é?
O amor que vivemos em nosso cotidiano é rotineiro: pequenos desentendimentos, tédio, defeitos humanos, imperfeições e dias que simplesmente não parecem ter nada de extraordinário. Mas o amor de que falamos nas músicas, nos filmes, nas histórias etc. é quase sempre uma versão editada e idealizada, revestida pela ilusão de perfeição.
Quem fala de amor geralmente está falando de fantasia, de um ideal romântico que não existe no mundo real de forma pura. Quem escreve sobre o amor perfeito só sabe contar uma mentira bonita para suportar aquilo que, outrora, sempre foi uma realidade imperfeita.
Dizer que “Só mentirosos conseguem falar de amor” é reconhecer que a única forma de falar sobre algo indescritível é inventando. A mentira, nesse contexto, não é sequer uma traição, mas uma ferramenta, como a arte, a poesia e a metáfora que a humanidade criou para conseguir compartilhar algo grande demais para caber em nossa própria boca.