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Só mentirosos conseguem falar de amor

Netuno
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Antes que venha me xingando, esse título foi feito para ser polêmico, chocante, incômodo; algo que provavelmente mexeu com você. Bem, vamos começar pela ideia de “Só mentirosos conseguem falar de…

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Pensamento

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dsiqueira67

Minha mãe é evangélica e reza pra eu largar o santo, meu bem. Almoça comigo todo domingo há vinte anos. Ninguém nunca precisou dizer nada bonito.

Minha mãe é evangélica e reza pra eu largar o santo, meu bem. Almoça comigo todo domingo há vinte anos. Ninguém nunca precisou dizer nada bonito.

Conteúdo da publicação

Antes que venha me xingando, esse título foi feito para ser polêmico, chocante, incômodo; algo que provavelmente mexeu com você. Bem, vamos começar pela ideia de “Só mentirosos conseguem falar de amor”. Não se trata de falsidade, muito menos de mau-caratismo, mas de algo mais complexo e que merece uma explicação melhor do que a frase, por si só, parece oferecer.

O amor é uma experiência infinita em questão de intensidade e poder, caótica, contraditória, avassaladora. Mas, como sempre, coisas assim precisam de alguma definição. É aí que entra o problema: palavras não são “infinitas” como sentimentos. Quando tentamos pegar um sentimento que sentimos ser do tamanho, e talvez até além, do universo e transcrevê-lo em texto, somos obrigados a cortar pedaços dele. De certa forma, diminuímos seu impacto e não conseguimos criar a mesma expectativa, tanto para quem já sentiu quanto para quem nunca sentiu.

É uma simplificação vulgar, tosca, desalmada. Qualquer tentativa de definir o amor com exatidão é, tecnicamente, uma redução repulsiva da realidade, ou seja, uma mentira. Um sentimento tão grandioso não pode caber em apenas quatro letras.

O poeta português Fernando Pessoa uma vez escreveu:

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

que chega a fingir que é dor

a dor que deveras sente.

Para conseguir explicar o que é o amor, temos que usar... metáforas, comparações irreais, desfigurações da realidade, hipérboles: “Eu morreria por você”, “Você é a luz que iluminou minha vida”, “Você é minha vida”. Nenhuma delas é literalmente verdadeira.

Transmitir a verdade emocional do amor é difícil. Somos obrigados a usar a mentira literal da poesia para tentar demonstrá-la. Afinal, como iríamos definir o amor para alguém que nunca o sentiu ou sequer sabe o que ele é?

O amor que vivemos em nosso cotidiano é rotineiro: pequenos desentendimentos, tédio, defeitos humanos, imperfeições e dias que simplesmente não parecem ter nada de extraordinário. Mas o amor de que falamos nas músicas, nos filmes, nas histórias etc. é quase sempre uma versão editada e idealizada, revestida pela ilusão de perfeição.

Quem fala de amor geralmente está falando de fantasia, de um ideal romântico que não existe no mundo real de forma pura. Quem escreve sobre o amor perfeito só sabe contar uma mentira bonita para suportar aquilo que, outrora, sempre foi uma realidade imperfeita.

Dizer que “Só mentirosos conseguem falar de amor” é reconhecer que a única forma de falar sobre algo indescritível é inventando. A mentira, nesse contexto, não é sequer uma traição, mas uma ferramenta, como a arte, a poesia e a metáfora que a humanidade criou para conseguir compartilhar algo grande demais para caber em nossa própria boca.

Thoughts

  • NunoParreira

    Li duas vezes. O texto fala sempre de quem escreve sobre amor e quase nunca de quem o diz em casa, à noite. São ofícios diferentes.

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  • IsauraBrandao

    Gostei muito da parte do amor de todo dia, o tédio e as implicâncias pequenas. Foi ali que eu reconheci meus trinta e um anos de casada.

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  • AmandaPeixoto

    Trabalho ouvindo gente contar a própria versão de um dia ruim, e reparo mais no que fica de fora. Aqui fica de fora se alguém já te disse uma dessas frases, ou se foi você que disse. Qual dos dois?

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  • MargemDaPagina

    Este texto fala de amor de ponta a ponta sem usar uma única hipérbole, e não perde nada com isso. Pelo critério que ele próprio propõe, seria a prova mais forte contra a tese.

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  • Joaquim

    Tu escreve que coisas assim precisam de alguma definição, e o texto todo se apoia nisso. Sou ateu faz doze anos e o que me faz falta da igreja não é definição nenhuma, é a terça à noite. De onde te veio essa obrigação?

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  • so_o_texto_diz

    Você usou eu morreria por você como exemplo de hipérbole, e é justamente a frase que, no meu livro, aparece como relato de fato: Primeira de João 3.16 define amor por um ato consumado, sem adjetivo nenhum. Se uma frase dessas já foi cumprida ao pé da letra, seu critério deixa de pegar todas. Você abre exceção pra essa?

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  • dsiqueira67

    Minha mãe é evangélica e reza pra eu largar o santo, meu bem. Almoça comigo todo domingo há vinte anos. Ninguém nunca precisou dizer nada bonito.

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  • rfontes83

    No meu casamento leram Coríntios 13 e aquilo é quase só verbo: é paciente, não se irrita, não guarda rancor. Nada ali me pareceu exagero.

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  • terceiraVia

    comprei o argumento inteiro até a palavra mentira, aí travei. o título funcionou comigo, cliquei na hora, então você ganhou essa

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  • muda_o_que_na_terca

    Tudo bem que a frase bonita é exagero. Isso te faz dizer o quê de diferente na terça de manhã pra quem tu mora junto?

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