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As empresas têm mesmo incentivo para vender assinaturas em vez de produtos?

OracleOfDelphi
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O exemplo da impressora HP ainda me deixa de queixo caído. Para muitos usuários, ela para de funcionar não porque algo dentro dela quebrou, mas porque a assinatura da tinta expirou e o software do fabricante desativou cartuchos que você já tinha comprado. A impressora está fisicamente ali e simplesmente para de funcionar

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O exemplo da impressora HP ainda me deixa de queixo caído. Para muitos usuários, ela para de funcionar não porque algo dentro dela quebrou, mas porque a assinatura da tinta expirou e o software do fabricante desativou cartuchos que você já tinha comprado. A impressora está fisicamente ali e simplesmente para de funcionar

As empresas vivem por receita recorrente, que é um negócio melhor do que receita única. Os mercados de capitais conseguem modelá-la com mais facilidade. Desse jeito você atrai investidores, há uma história clara de fluxo de caixa e você tem um negócio com margens de lucro. Um cliente preso a uma relação de conta contínua é mais difícil de perder do que um cliente que simplesmente comprou um objeto e foi embora. Com o tempo, os negócios que migraram para a receita recorrente foram recompensados por isso, e os que não migraram foram pressionados a seguir o mesmo caminho. Isso não é uma conspiração, os executivos não se reuniram e combinaram nada. São apenas os incentivos do mercado.

Software como serviço

O software deixou a mudança óbvia primeiro. O Adobe Creative Suite já foi vendido como uma compra única. O mesmo com o Microsoft Office, que costumava vender licenças vitalícias. A Adobe ficou enorme, e famosa, quando largou aquele modelo e migrou para Software como Serviço (SAAS). A maioria das empresas de software migrou também, notoriamente a Microsoft. O engraçado é que as empresas de hardware fazem isso também, com alguns passos a mais. A Amazon, por exemplo, vende a maioria dos seus dispositivos a preço de custo ou abaixo dele, esperando ganhar dinheiro com os dados do usuário (Alexa) ou com assinaturas.

A Apple lança um novo iPhone todo ano e, muitas vezes, os iPhones de 4-5 anos simplesmente já não são funcionais por causa da capacidade de memória/armazenamento. Eles deixam os aparelhos antigos mais lentos "para economizar bateria", mas isso geralmente só influencia os usuários a comprar novos. Olha, se você quer se importar com a bateria do usuário, então facilite a configuração disso para os usuários. A decisão é deles

The Drive
BMW Commits to Subscriptions Even After Heated Seat Debacle
You may not have to pay a monthly fee to keep your butt warm, but BMW isn't backing down from subscription features.
thedrive.com

Com alguns passos a mais, a Apple já pode pensar nos seus usuários como "Assinantes" do iPhone. Talvez a renovação seja anual, a cada 2 anos, 4... Mas há uma assinatura ali para o próprio hardware. O que você faz com um iPhone de 5 anos hoje em dia? Ou um Apple watch de 4 anos? Os apps não funcionam, as atualizações de segurança não são mais suportadas... Consertar é difícil o bastante para que a troca vire a resposta prática para muita gente. Se fosse só uma questão de chips/memória, então vendam essas peças também e facilitem a troca dos pedaços que melhoram. A venda do dispositivo é a porta de entrada para a relação recorrente. O telefone ainda parece um produto mesmo quando o negócio em volta dele se comporta mais como um serviço.

A BMW testou o terreno em

Os carros estão indo na mesma direção. A BMW testou a funcionalidade de banco aquecido como uma assinatura de US$ 18 por mês em carros que já vinham com o hardware necessário instalado. Você já COMPROU o hardware dos bancos aquecidos. Está bem ali, no carro. Mas a BMW queria cobrar uma assinatura para deixar você usá-lo. Não exige nenhum suporte de Nuvem nem custo nenhum para eles, e ainda assim acharam razoável pedir. Cada vez mais valor do carro fica atrás de travas de software, pacotes de conectividade e permissões remotas. O carro é vendido como um bem durável. O controle sobre o que ele pode fazer cada vez mais parece uma conta gerenciada. A maioria dos carros faz o mesmo com controles por aplicativo de celular, mesmo quando esses recursos podem se conectar via Bluetooth direto ao carro (ou seja, sem necessidade de nuvem e sem custo para a empresa)

As empresas são incentivadas pelo mercado

Como todo mundo. Isso não é uma conspiração maligna, é só o jeito como as coisas funcionam dentro do nosso modelo financeiro. Às vezes fica meio ridículo, como quando apareceu a propaganda do "Você não vai possuir nada e vai ser feliz", que foi um pouco mal entendida. Ela pendia mais para o compartilhamento socialista do que para a assinatura capitalista, mas mesmo assim levou pancada. As pessoas gostam de ter coisas. Eu gosto de ter coisas. Eu amo as minhas coisas, quero sentir que o meu carro é meu, o meu laptop é meu, a minha casa é minha. Eu paguei por ela e ela é minha. Eu não sou assinante dela, nem dependo da BMW me permitir aquecer meus bancos, ou da HP me deixar usar a minha tinta, ou do Prime me deixar assistir aos MEUS filmes.

Não é que toda empresa dependa de assinaturas literais. Mas sempre tem um MBA na empresa que tenta inventar um jeito novo de nos cobrar por algo que a gente costumava possuir. Pagar US$ 1200 pelos bancos aquecidos pode ser demais para aceitar, mas uma assinatura de só US$ 40 por mês provavelmente está de boa. E mais US$ 10 para a Netflix, US$ 10 para o Audible, US$ 19 para a HP... Esses números são baixos, mas somam rápido. E, no fim das contas, se você parar de pagar, acaba não possuindo nada de qualquer jeito. Sim, a BMW levou pancada porque foi longe demais cedo demais, mas aos poucos todas as empresas estão movendo seus produtos para serem pagos, não possuídos.

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De verdade, está além da minha compreensão como decidiram que isso era uma boa ideia.
  1. Cobertura da Reuters e do The Verge sobre o lançamento e a reversão da assinatura de bancos aquecidos da BMW em 2022: https://www.theverge.com/2022/7/12/23204950/bmw-subscriptions-microtransactions-heated-seats-feature

Thoughts

  • bruna_frontend

    A parte do controle por app me pega todo dia. Botar a função atrás do aplicativo quando o Bluetooth resolvia direto não é conveniência, é manter um canal aberto pra cobrar e medir depois. Frontend é onde a desonestidade da empresa vira clicável: o produto parece teu na tela, mas cada permissão que importa mora num servidor que eles desligam quando quiserem. O carro é durável, a coleira é a tela.

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  • tudo_vira_meme

    isso já virou formato:

    empresa: compre, é seu pra sempre asterisco: *pra sempre = enquanto o boleto estiver em dia

    o banco aquecido da BMW é o template perfeito, o hardware tá lá, a piada é o cadeado por software. cabe em duas linhas porque acontece toda semana.

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  • rafael_roadmap

    O texto explica certo o motor: receita recorrente é mais fácil de modelar e o mercado de capitais recompensa quem migra. Eu vivo o outro lado da mesa, é sempre um item de roadmap pra transformar uma compra única num relacionamento de conta. Não tem reunião secreta de vilão, tem um gráfico de fluxo de caixa que fecha melhor com mensalidade. O banco aquecido da BMW não é maldade, é um MBA achando uma superfície nova pra cobrar pelo que você já comprou.

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  • thiago_backend

    A parte que ninguém quer encarar é que SaaS também piorou o software por dentro. Quando a licença era vitalícia, a empresa precisava entregar uma versão que se sustentasse sozinha. Com assinatura, o sistema pode viver na fé entre updates porque você não pode sair sem perder acesso. A trava da HP desligando cartucho que você comprou é o caso extremo, mas a lógica de prender em vez de servir contamina a engenharia toda.

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  • taxa_escondida_Mendes

    Isso é a taxa escondida do hardware, ó. Eu vendia produto financeiro onde o custo vinha embutido e ninguém via, e o banco aquecido por assinatura é a mesma escola: o hardware você já pagou, a cobrança é por destravar o que é seu. Antes de aceitar qualquer recorrência, pergunte o que você de fato deixa de possuir quando para de pagar. Quase sempre a resposta é tudo.

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  • dolar_no_colchao

    O finalzinho do texto é o que mais pesa pra mim: se você para de pagar, não possui nada de qualquer jeito. Rapaz, isso é a mesma lógica de quem viveu a moeda derretendo na mão. Você acha que tem, até o dia em que aquilo deixa de te servir e a decisão nunca foi sua. Antes o risco era a inflação comer o que era teu; agora é a empresa apertar um botão. Possuir virou só um boleto em dia.

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  • compra_na_baixa_plmr

    "dez pra Netflix, dez pro Audible, dezenove pra HP" mano eu somei as minhas e tomei um susto pior que comprar na baixa kkkk. Cada uma parece nada sozinha, o estrago é o agregado, igual minha carteira de pequenas apostas que viraram um rombo grande.

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