O quase sorriso da Erika vale mais que as broncas, e a lição do Rank F vira o capítulo. No «Capítulo 6.5», de Monarca, a Sonne também jura não gostar de quem protege.
AS CRÔNICAS DE AETHERION - CAPÍTULO 3
Pensamento
O quase sorriso da Erika vale mais que as broncas, e a lição do Rank F vira o capítulo. No «Capítulo 6.5», de Monarca, a Sonne também jura não gostar de quem protege.
Conteúdo da publicação
Capítulo 3 — Às cinco da manhã
05h03 — Campo de treinamento secundário da Academia Aetherion.
— Você está atrasado.
Hayato parou diante da entrada do campo.
Erika estava no centro da arena, com os braços cruzados e Astralis presa à cintura. O céu ainda estava escuro, e as luzes mágicas instaladas nas paredes eram as únicas responsáveis por iluminar o local.
Hayato olhou para o relógio.
— São cinco e três.
— Exatamente.
— Você marcou às cinco. Eu cheguei às cinco e três.
— Três minutos.
— Três minutos!
— Quer que eu desenhe?
Hayato passou a mão pelo rosto.
Eu devia ter ficado dormindo.
— Bom dia para você também, Erika.
— Aquecimento. Dez voltas ao redor do campo.
Ele olhou para a pista que contornava a arena.
— Dez?
— Vinte, se continuar reclamando.
Hayato começou a correr.
— Você é completamente maluca!
— Ouvi isso!
— Era para ouvir!
Erika observou o garoto desaparecer na primeira curva.
Por um instante, o canto de sua boca quase se levantou.
Quase.
Ela rapidamente recuperou a expressão séria.
Que idiota.
Ainda assim, havia algo curioso naquele garoto. Hayato reclamava, fazia piadas e respondia a praticamente tudo que ela dizia. Mas, mesmo reclamando, estava cumprindo o exercício.
Ele não havia inventado uma desculpa.
Não tentara usar o próprio rank como justificativa.
Simplesmente corria.
Erika afastou o pensamento.
Aquilo não significava nada.
1. O que o cristal não mede
Quando Hayato terminou a décima volta, apoiou as mãos nos joelhos e tentou recuperar o fôlego.
— Pronto… terminei…
— Demorou onze minutos.
— Você cronometrou?
— Obviamente.
— Você precisa arrumar um hobby.
Erika pegou duas espadas de treinamento de um suporte próximo e lançou uma para ele.
Hayato a agarrou pelo cabo.
— O que vamos fazer agora?
— Combate.
— Eu imaginei que fosse tomar café.
— Podemos encerrar e você pode voltar para a cama.
Hayato endireitou a postura.
— Estou pronto.
Erika examinou o posicionamento de seus pés.
— Não está.
— Como é?
— Sua perna esquerda está muito à frente. Seu centro de gravidade está alto e você está segurando a espada com força excessiva.
Hayato olhou para os próprios pés.
— Você conseguiu ver tudo isso em cinco segundos?
— Três.
Ela se aproximou e apontou para o chão.
— Afaste um pouco os pés. Flexione os joelhos. Relaxe os ombros.
Hayato obedeceu.
— Melhor?
— Um pouco.
— Nossa, que generosidade.
Erika ignorou o comentário.
— Você tem uma boa técnica básica. Seus movimentos não são ruins e sua força física é razoável para alguém do seu tamanho. Mas você luta como se estivesse tentando vencer uma disputa de força.
Hayato franziu a testa.
— Eu não tenho muita escolha.
— Sempre existe escolha. Você só precisa aprender a encontrá-la.
Ela tomou posição.
— Ataque.
Hayato avançou com um golpe diagonal.
Erika desviou com facilidade.
Ele tentou um segundo golpe, seguido de uma estocada.
Ela bloqueou os dois e tocou a espada de treinamento contra o peito dele.
— Morto.
Hayato recuou.
— Certo.
— De novo.
Ele atacou pela lateral.
Erika se abaixou, girou o corpo e tocou a espada nas costas dele.
— Morto.
— Você poderia pelo menos fingir que estou dando trabalho.
— Você prefere que eu minta?
— Em algum momento da sua vida, você já tentou ser simpática?
— Próximo ataque.
Hayato soltou um suspiro e avançou novamente.
Dessa vez, tentou variar o ritmo. Um golpe curto, uma pausa, um movimento de aproximação e uma mudança de direção.
Erika bloqueou o primeiro ataque, mas precisou reposicionar os pés para evitar a estocada seguinte.
Hayato percebeu.
Continuou avançando, forçando-a a recuar.
Por dois segundos, conseguiu mantê-la na defensiva.
Então Erika girou a espada, desviou a dele e tocou a lâmina de treinamento contra seu ombro.
— Morto.
Hayato se afastou, ofegante.
— Você sabe que isso está começar a ficar irritante?
— Ótimo. Talvez a irritação ajude você a se concentrar.
Ela caminhou até o suporte e guardou a espada.
— Você possui uma vantagem.
Hayato ergueu as sobrancelhas.
— Finalmente!
— Não fique animado. Sua vantagem é que você sabe que é mais fraco do que a maioria dos seus adversários.
Ele perdeu o sorriso.
Erika continuou:
— Um aluno de Rank A pode confiar demais na própria força. Um Rank S pode se acostumar a vencer sem precisar pensar em cada movimento. Você não tem esse luxo. Se quiser sobreviver, terá que aprender a observar tudo.
Hayato ficou quieto.
Pela primeira vez naquela manhã, ela não parecia estar tentando insultá-lo.
Estava explicando alguma coisa.
— Então, o que eu faço? — perguntou ele.
Erika o encarou por alguns segundos.
— Pare de tentar lutar como alguém de Rank A.
Ela apontou para a espada dele.
— Descubra como um Rank F deve lutar.
Hayato olhou para Vesper, apoiada perto do suporte.
A frase ficou em sua cabeça.
Talvez ele estivesse tentando provar que merecia um rank melhor.
Talvez estivesse tão preocupado em demonstrar que não era fraco que acabava lutando da maneira errada.
Ele precisava parar de tentar ser outra pessoa.
— Certo — respondeu.
Erika pareceu ligeiramente surpresa com a ausência de uma piada.
— Vamos continuar.
2. A telecinese
Às seis horas, Erika conduziu Hayato até uma área menor, reservada para exercícios de controle mágico.
Havia dezenas de objetos sobre mesas de pedra: moedas, pequenas esferas metálicas, blocos de madeira e pedras de diferentes tamanhos.
Hayato observou o material.
— Isso é para eu aprender a mover coisas?
— Não. É para você aprender a fazer isso sem parecer que está tentando arrancar os próprios dentes.
Ele olhou para ela.
— Você ensaiou essa frase?
— Sente-se.
Hayato se sentou diante de uma mesa.
Erika colocou uma moeda sobre a superfície.
— Sua telecinese permite exercer força sobre objetos sem contato físico. Mas, no seu caso, a quantidade de força que consegue aplicar é pequena, e sua concentração se desfaz facilmente.
— Eu percebi essa parte.
— Então não tente levantar um objeto pesado. Primeiro, mantenha a moeda suspensa durante dez segundos.
Hayato respirou fundo.
Estendeu a mão.
Concentrou-se na moeda.
Ela tremeu.
Subiu alguns milímetros.
Caiu.
— De novo — disse Erika.
Ele tentou novamente.
A moeda deslizou sobre a mesa, mas não saiu do lugar por muito tempo.
— De novo.
Tentativa após tentativa, Hayato começou a sentir uma pressão incômoda atrás dos olhos.
A moeda finalmente se ergueu.
Um centímetro.
Dois.
Três.
Ele manteve a respiração controlada e concentrou-se em sustentar a força.
Um segundo.
Dois.
Três.
A moeda começou a oscilar.
— Estabilize — orientou Erika.
Hayato apertou os dentes.
A moeda subiu um pouco mais.
Quatro segundos.
Cinco.
Então sua concentração falhou.
A moeda caiu e rolou pela mesa.
Hayato apoiou a cabeça nas mãos.
— Eu odeio esse poder.
Erika não respondeu imediatamente.
Pegou a moeda, colocou-a de volta sobre a mesa e se sentou diante dele.
— Por quê?
Hayato soltou uma risada sem humor.
— Você precisa mesmo perguntar? Olha o seu poder. Você pode incendiar uma espada, lançar fogo e destruir um monstro com um ataque. O Daiki controla gelo. A Hikari consegue invocar raios. Eu consigo fazer uma moeda levitar por cinco segundos.
Erika permaneceu em silêncio.
Hayato continuou, agora falando mais baixo:
— No teste, todo mundo riu. Eu tentei fingir que não me importava, mas me importei. Eu passei anos treinando para chegar aqui. E, quando finalmente tive a chance de mostrar do que sou capaz, recebi um F.
Ele desviou os olhos.
— Às vezes, parece que todo esse esforço não vai servir para nada.
Erika observou o garoto.
Era a primeira vez que ele falava sem brincar ou tentar esconder o que sentia.
Ela conhecia aquela sensação.
Não a de ser considerada fraca, mas a de ter as próprias capacidades reduzidas a um único número.
Desde criança, todos esperavam que Erika fosse extraordinária. Quando seu poder despertou, os adultos começaram a falar sobre seu futuro, sobre a responsabilidade de representar os melhores Despertos e sobre tudo o que ela deveria alcançar.
Ela nunca tivera permissão para simplesmente falhar.
Mas não contou nada disso a Hayato.
Ainda não.
— Posso lhe dizer uma coisa? — perguntou ela.
Ele ergueu o olhar.
— Você vai me insultar?
— Provavelmente. Mas desta vez, não.
Erika colocou a moeda entre os dois.
— Seu poder não é inútil. É limitado. Existe uma diferença.
Hayato ficou quieto.
— Você está tentando aplicar força demais, como se pudesse compensar sua falta de controle. Em vez disso, comece com uma força pequena e constante. Não pense em levantar a moeda. Pense em mantê-la onde está, impedindo que caia.
Hayato olhou para o objeto.
— Isso parece a mesma coisa.
— Não é. Você está tentando produzir um movimento. Quero que aprenda a sustentar uma ação.
Ele respirou fundo.
Estendeu a mão.
Dessa vez, não tentou arrancar a moeda da mesa.
Concentrou-se em sua posição.
A moeda tremeu.
Então se ergueu lentamente.
Hayato sentiu a pressão familiar atrás dos olhos, mas tentou não lutar contra ela. Manteve a concentração, ajustando a força pouco a pouco.
Um segundo.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
A moeda continuava suspensa.
Hayato arregalou os olhos.
— Erika…
— Não fale.
Sete segundos.
Oito.
Nove.
A moeda oscilou perigosamente.
Hayato tentou estabilizá-la.
Dez segundos.
A moeda caiu.
Por alguns instantes, ele ficou imóvel.
Depois abriu um sorriso enorme.
— DEZ SEGUNDOS!
— Eu estava aqui — respondeu Erika, embora não conseguisse esconder completamente a satisfação ao ver o resultado.
Hayato se levantou da cadeira.
— Você viu? Eu consegui!
— Conseguiu manter uma moeda no ar por dez segundos.
— E vou comemorar!
Ele ergueu os braços, como se tivesse acabado de vencer um torneio.
Erika balançou a cabeça.
— Você é ridículo.
Mas, dessa vez, a frase veio acompanhada de um pequeno sorriso.
Hayato percebeu.
— Espera. Você sorriu?
O sorriso desapareceu imediatamente.
— Não.
— Você sorriu!
— Hayato.
— A Erika sorriu!
— Quer voltar para a cama com um braço quebrado?
Ele começou a rir.
Erika pegou a moeda e guardou-a no bolso.
— O exercício acabou. Você precisa descansar antes da próxima aula.
Hayato ainda sorria quando pegou Vesper.
Talvez seu poder fosse limitado.
Talvez o caminho fosse muito mais difícil do que imaginara.
Mas, pela primeira vez, ele tinha uma maneira concreta de melhorar.
E isso bastava.
3. Café da manhã e más notícias
Às sete e quinze, Hayato entrou no refeitório da Aetherion com a sensação de que seus braços haviam sido substituídos por pedras.
O lugar estava lotado.
Centenas de estudantes ocupavam as mesas compridas, conversando sobre os treinamentos, os resultados do teste e os rumores que circulavam desde a cerimônia.
Daiki acenou para ele.
— Aqui!
Hayato caminhou até a mesa e deixou a bandeja diante do amigo.
— Eu preciso dormir por três dias.
Daiki olhou para ele.
— A Erika fez isso?
— Não. Foi o treinamento.
— Ah, então foi a Erika.
Hayato pegou um pedaço de pão.
— Ela não é tão ruim quando está ensinando.
Daiki parou de mastigar.
— Desculpa. Acho que ouvi errado.
— Eu disse que ela não é tão ruim quando está ensinando.
Daiki levou a mão ao peito.
— Meu amigo está desenvolvendo sentimentos positivos pela própria parceira.
— Vou jogar você pela janela.
— Isso é um sim!
Antes que Hayato pudesse responder, Hikari se sentou na cadeira ao lado de Daiki.
— Vocês estão falando alto o suficiente para o outro lado do refeitório ouvir.
Daiki sorriu.
— Estamos discutindo a evolução emocional do Hayato.
Hikari olhou para o protagonista.
— Ele evoluiu?
— Aprendi a manter uma moeda suspensa por dez segundos — respondeu Hayato.
Hikari pareceu genuinamente interessada.
— Quanto tempo você conseguia antes?
— Cinco, no máximo.
Ela assentiu.
— Então dobrou sua duração.
Daiki apontou para ela.
— Obrigado! Alguém aqui entende matemática!
Hayato riu.
Hikari apoiou a lança Tempestade contra a mesa, tomando cuidado para não encostar a ponta metálica nos outros estudantes.
— O controle é importante. Se você conseguir aplicar sua telecinese em movimentos curtos durante o combate, pode encontrar oportunidades que outros guerreiros não perceberiam.
— É o que a Erika disse.
Hikari ergueu as sobrancelhas.
— Ela está ensinando você?
— Estamos treinando juntos.
— Interessante.
Daiki olhou de um para o outro.
— Por que todo mundo acha tão interessante que a Erika esteja fazendo o trabalho dela?
Hikari ignorou a pergunta.
— E quanto à sua espada? Você já pensou em combinar os movimentos com a telecinese?
Hayato ficou pensativo.
— Não consigo controlar a espada à distância ainda. Mas talvez possa usar o poder para alterar um pouco o equilíbrio dela durante um golpe.
Hikari sorriu discretamente.
— Vale a pena testar.
— Está vendo? — disse Daiki. — Minha dupla e meu melhor amigo estão planejando técnicas, enquanto eu só quero terminar o café da manhã.
— Você também poderia treinar — respondeu Hikari.
— Eu treino.
— Além de fazer piadas.
— Isso exige talento.
Hikari suspirou.
Hayato riu tanto que quase derrubou a bebida.
Naquele instante, os alto-falantes do refeitório foram ativados.
— Atenção, estudantes do primeiro ano. — A voz do instrutor Darius ecoou pelo ambiente. — Às nove horas, todos deverão comparecer ao auditório principal para a apresentação do programa de formação e a distribuição das primeiras avaliações oficiais.
Os estudantes começaram a conversar entre si.
Daiki se recostou na cadeira.
— Primeira avaliação oficial. Aposto que vai ser alguma prova teórica absurda.
Hayato olhou para ele.
— Você está preocupado com uma prova teórica?
— Sou um homem de ação.
Hikari tomou um gole de água.
— Você tirou notas baixas em história militar no exame de admissão.
Daiki ficou imóvel.
Hayato virou lentamente a cabeça para ele.
— Você tirou notas baixas em história militar?
— Aquela prova tinha datas demais!
Hikari levantou-se.
— Nos vemos às nove. E, Daiki?
Ele olhou para ela.
— Estude.
Ela saiu antes que ele pudesse responder.
Daiki acompanhou a partida dela com uma expressão ofendida.
— Nossa dupla não vai durar uma semana.
Hayato deu um tapinha no ombro do amigo.
— Força, guerreiro.
4. A primeira avaliação
Às nove horas, o auditório estava novamente lotado.
No palco, o diretor Magnus aguardava ao lado do instrutor Darius e de uma mulher que Hayato ainda não conhecia. Ela tinha cabelos negros curtos, olhos cinzentos e um uniforme azul-escuro com o emblema da academia bordado no peito.
Magnus começou a apresentação.
— A partir de hoje, vocês deixam de ser apenas candidatos. São estudantes da Aetherion e, como tal, serão avaliados continuamente.
Um painel surgiu atrás dele, exibindo três palavras:
CONTROLE. TÉCNICA. COOPERAÇÃO.
— Seu rank inicial não será alterado apenas porque vocês venceram um exercício. Da mesma forma, uma derrota não significa que seu potencial seja inferior. Os ranks medem a ressonância mágica, mas o desempenho em combate depende de diversos fatores.
Hayato prestou atenção.
Era bom ouvir aquilo de alguém que dirigia a instituição.
— Durante os próximos meses, vocês passarão por avaliações individuais, exercícios em dupla e atividades em equipe. A primeira etapa será uma avaliação de fundamentos, realizada em estações de treinamento.
A mulher ao lado do diretor avançou.
— Meu nome é professora Helena Voss. Sou responsável pela avaliação de técnicas de combate e controle de habilidades dos alunos do primeiro ano.
Ela apontou para o painel.
— Cada estudante será avaliado em três áreas. Primeiro, controle do próprio poder. Segundo, domínio da arma escolhida. Terceiro, capacidade de tomar decisões sob pressão.
Um estudante levantou a mão.
— Professora, os resultados podem alterar nossos ranks?
— Não diretamente. A classificação mágica exige procedimentos próprios. Mas o desempenho de vocês determinará quais exercícios serão recomendados e quais limitações precisarão ser trabalhadas.
Hayato relaxou um pouco.
Pelo menos não seria submetido a outro teste de cristal.
Helena continuou:
— A primeira avaliação ocorrerá amanhã. Hoje, vocês conhecerão suas estações e receberão as instruções necessárias.
Ela fez um gesto.
O painel mudou, exibindo uma planta dos campos de treinamento.
Havia áreas para combate com armas, controle de poderes, resistência física e simulações de tomada de decisão.
Hayato reconheceu a estação de controle mágico.
Era onde passara a manhã com Erika.
— Os resultados individuais serão registrados em seus perfis de treinamento — explicou Helena. — Não haverá divulgação pública de notas detalhadas. O objetivo é identificar as necessidades de cada estudante, não criar um espetáculo.
Hayato gostou daquela parte.
Não precisava de mais pessoas rindo de sua telecinese.
Quando a apresentação terminou, os estudantes começaram a deixar o auditório.
Hayato estava guardando o material quando Erika apareceu ao seu lado.
— Amanhã, às cinco.
Ele fechou os olhos.
— Você vai continuar com isso?
— Claro.
— Nem nos finais de semana?
— Principalmente nos finais de semana.
Hayato olhou para o teto.
— Eu devia ter escolhido uma academia de culinária.
Erika cruzou os braços.
— Se conseguir preparar uma refeição melhor do que consegue lutar, talvez seja uma alternativa.
Ele olhou para ela, indignado.
— Você acabou de fazer uma piada?
— Não.
— Fez, sim.
— Está imaginando coisas.
Ela começou a se afastar, mas parou depois de alguns passos.
— Hayato.
Ele se virou.
— O quê?
Erika hesitou por um instante, como se não estivesse acostumada a dizer o que estava pensando.
— Sobre o exercício de hoje… você melhorou.
Hayato ficou surpreso.
— Obrigado.
— Não se acostume a receber elogios.
— Tarde demais. Vou registrar no meu diário.
— Às cinco.
— Eu vou estar lá!
Erika seguiu pelo corredor.
Hayato ficou olhando para ela por alguns segundos, com um sorriso discreto.
Ainda não eram amigos.
Erika continuava impaciente, exigente e extremamente difícil de lidar.
E Hayato continuava sendo um Rank F com uma telecinese que mal conseguia sustentar uma moeda.
Mas algo havia mudado.
Pela primeira vez, os dois tinham conseguido trabalhar juntos sem transformar cada minuto em uma discussão.
Era pouco.
Mas era um começo.
5. O que ninguém percebeu
Naquela tarde, Hikari permaneceu no campo de treinamento depois que os outros estudantes foram embora.
Ela havia terminado seus exercícios com a lança Tempestade, mas ainda pensava na conversa do café da manhã.
Alterar o equilíbrio da espada durante um golpe…
A ideia de Hayato não era ruim.
Uma aplicação pequena de telecinese poderia modificar a trajetória de uma arma, corrigir um movimento ou criar uma abertura inesperada. Não seria suficiente para substituir a técnica, mas poderia complementá-la.
Hikari observou um grupo de veteranos treinando do outro lado da arena.
Depois olhou para a plataforma onde Hayato havia lutado contra Erika.
Ele não era o mais rápido.
Não tinha o maior poder.
E certamente não era o aluno mais experiente.
Mas observava.
Aprendia.
E, mesmo depois de falhar, tentava novamente.
Hikari pegou a lança e deixou o campo.
Não sabia por que aquela persistência chamava tanto sua atenção.
Talvez porque estivesse acostumada a ver pessoas desistirem quando percebiam a distância entre o que eram e o que desejavam ser.
Hayato não parecia disposto a desistir.
E ela queria descobrir até onde aquilo poderia levá-lo.
Por enquanto, manteria distância.
Havia muito a aprender, e ela não pretendia se distrair com um garoto que mal conhecia.
Mesmo assim, antes de atravessar a porta, olhou mais uma vez para a plataforma vazia.
Então sorriu de leve e foi embora.
6. O treino da noite
Às vinte e uma horas, Hayato voltou ao campo secundário.
Dessa vez, estava sozinho.
Colocou três pequenas pedras sobre uma mesa e se sentou diante delas.
Não tentaria mover as três ao mesmo tempo.
Erika havia deixado isso muito claro.
Primeiro, controle.
Depois, complexidade.
Hayato concentrou-se na primeira pedra.
Ela se ergueu.
Um segundo.
Dois.
Três.
Ele a manteve suspensa por alguns instantes e a colocou cuidadosamente de volta na mesa.
Em seguida, tentou deslocá-la alguns centímetros para a direita.
A pedra se moveu, mas caiu antes de alcançar o destino.
Hayato franziu a testa.
Tentou novamente.
Dessa vez, a pedra deslizou pela mesa sem cair.
Ele sorriu.
— Certo. Isso é novo.
Repetiu o exercício.
Mover.
Parar.
Levantar.
Abaixar.
Depois de várias tentativas, percebeu algo importante: manter um objeto parado no ar exigia um tipo de concentração diferente de deslocá-lo. Quando tentava mover a pedra rapidamente, perdia o controle. Quando aplicava força demais, ela saía da trajetória.
Sua telecinese ainda era limitada, mas começava a entender como funcionava.
Não precisava realizar feitos extraordinários.
Precisava dominar o básico.
Hayato continuou treinando até sentir a pressão atrás dos olhos aumentar.
Então parou.
Guardou as pedras, pegou Vesper e voltou ao dormitório.
Antes de dormir, abriu o caderno onde anotava seus exercícios.
Escreveu:
Telecinese — Dia 2.
Manter objeto suspenso: dez segundos.
Deslocamento curto: possível, com dificuldade.
Próximo objetivo: controlar a direção sem perder estabilidade.
Ele fechou o caderno.
Não havia grandes vitórias para registrar.
Nenhum monstro derrotado.
Nenhum rank novo.
Nenhum poder extraordinário despertado.
Só trabalho.
E, pela primeira vez, Hayato começava a compreender que talvez fosse exatamente assim que deveria ser.
Amanhã haveria uma avaliação.
Erika provavelmente o faria correr até as pernas doerem.
Daiki certamente encontraria uma maneira de transformar tudo em piada.
E Hikari continuaria observando mais do que dizia.
A vida na Aetherion estava apenas começando.
E Hayato tinha muito a aprender.
Fim do Capítulo 3.
Thoughts
-
PermalinkO quase sorriso da Erika vale mais que as broncas, e a lição do Rank F vira o capítulo. No «Capítulo 6.5», de Monarca, a Sonne também jura não gostar de quem protege.
-
PermalinkRapaz, a Erika nunca teve permissão de falhar desde criança e agora treina justo o menino que mais falha na turma! Tá ensinando pra ele o que ninguém deixou ela aprender.
-
PermalinkA ideia do Hayato de mexer no equilíbrio da espada no meio do golpe ficou na cabeça da Hikari até de tarde. Aposto que é assim que ele tira o primeiro ponto da Erika, um empurrãozinho de nada na hora certa.
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