CAPÍTULO 4 — O PESO DE UM RANK F
O sol ainda nem havia ultrapassado as muralhas da Academia Aetherion quando Hayato abriu os olhos.
Por alguns segundos, ficou olhando para o teto do dormitório, tentando convencer a si mesmo de que podia dormir mais cinco minutos.
Então se lembrou de quem era sua parceira.
— Droga!
Ele saltou da cama.
Erika havia deixado muito claro que o treino das cinco da manhã não era um convite. Era uma obrigação.
Hayato vestiu o uniforme de treinamento, prendeu a espada Vesper à cintura e saiu do dormitório correndo. No corredor, quase trombou com um estudante carregando uma pilha de livros.
— Olha por onde anda!
— Foi mal!
— Você sempre corre assim?!
— Só quando estou tentando evitar uma morte prematura!
O estudante ficou olhando enquanto Hayato desaparecia pela escadaria.
Quando chegou ao campo secundário, o relógio da torre marcava 04h58.
Erika estava lá.
Naturalmente.
Ela permanecia de braços cruzados, com a espada Astralis presa à cintura e os cabelos balançando levemente com o vento frio da manhã.
— Dois minutos antes — comentou ela.
Hayato apoiou as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego.
— Bom dia para você também.
— Não se acostume. Hoje não teremos treino normal.
Ele ergueu a cabeça.
— Isso significa que você finalmente vai me ensinar alguma coisa útil?
Erika estreitou os olhos.
— Significa que hoje você será avaliado oficialmente. E, se lutar comigo como lutou ontem, vai passar vergonha na frente de metade da academia.
Hayato endireitou a postura.
— Você sabe motivar uma pessoa.
— Não estou aqui para motivar você.
— Já percebi.
Ela apontou para o centro do campo.
— Aquecimento. Cinco voltas. Depois, vinte minutos de postura com a espada.
Hayato soltou um suspiro dramático.
— Eu devia ter escolhido uma parceira que gostasse de dormir.
— Eu devia ter escolhido um parceiro que soubesse lutar.
Ele começou a correr.
— Ainda dá tempo de pedir transferência!
— HAYATO!
— JÁ ESTOU CORRENDO!
Apesar das provocações, ele não diminuiu o ritmo.
Porque, por trás das reclamações, havia algo que Erika ainda não sabia sobre ele: Hayato podia reclamar de tudo, mas desistir era outra história.
E aquela manhã seria importante.
Não porque ele esperasse vencer alguém.
Mas porque, pela primeira vez desde a Cerimônia de Ressonância, teria a chance de mostrar que seu Rank F não contava a história inteira.
1. A avaliação oficial
Às oito horas, o salão de treinamento principal estava lotado.
O espaço era amplo, cercado por arquibancadas de pedra e protegido por barreiras mágicas destinadas a conter impactos acidentais. No centro, seis plataformas circulares estavam organizadas em duas fileiras. Cada uma possuía marcas no chão, alvos móveis e pequenos mecanismos de avaliação.
Os alunos conversavam nervosamente.
Alguns revisavam movimentos de combate. Outros aqueciam suas armas ou praticavam pequenos exercícios com suas habilidades.
Hayato observava tudo enquanto girava uma moeda entre os dedos.
— Está nervoso? — perguntou Daiki, aproximando-se.
Ele carregava a espada Eclipse Boreal nas costas. Uma fina camada de gelo se formava e desaparecia na ponta de seus dedos enquanto ele aquecia a própria habilidade.
— Não — respondeu Hayato.
Daiki olhou para a moeda.
— Você está tentando fazer essa coisa flutuar há quanto tempo?
Hayato fechou a mão.
— Não muda de assunto.
— Ah, então está nervoso.
— Daiki…
— Certo, certo. Não está nervoso. Está apenas transformando uma moeda inocente em vítima de tortura psicológica.
Hayato guardou a moeda no bolso.
— E você? Está tranquilo?
Daiki deu de ombros.
— Rank A, domínio de Criocinese, espada nova, parceiro de treino interessante…
Ele olhou para Hikari, que estava alguns metros adiante, verificando o equilíbrio da lança Tempestade.
— …e uma colega que ameaça me acertar com uma lança sempre que faço uma piada. Minha vida está ótima.
Hikari ouviu.
— Posso começar agora, se quiser.
— Está vendo? — Daiki murmurou para Hayato. — Uma relação de confiança.
Hayato riu.
A risada, porém, diminuiu quando ele olhou para a plataforma central.
A professora Helena Voss estava ao lado do instrutor Darius Kael. Ambos seguravam pranchetas com os nomes dos alunos.
Helena ergueu a voz.
— Atenção, estudantes. A avaliação de hoje não determinará seus ranks. Repito: ninguém terá seu Rank alterado por causa de uma única avaliação.
As conversas cessaram gradualmente.
— O Cristal de Aether identifica a ressonância mágica de cada indivíduo. Isso é diferente de medir o domínio técnico, a inteligência tática ou a capacidade de trabalhar em equipe. Hoje, vamos avaliar três aspectos: controle, técnica e cooperação.
Darius assumiu a palavra.
— Não esperamos perfeição de alunos recém-ingressos. Esperamos que vocês reconheçam seus limites, respeitem as regras e aprendam com os erros. Um estudante que tenta executar uma técnica além da própria capacidade pode colocar seu parceiro em risco.
Ele percorreu a fileira com os olhos.
— E não confundam uma demonstração impressionante com uma boa decisão.
Hayato sentiu o olhar do instrutor parar nele por um instante.
Talvez fosse impressão.
Talvez não.
— Cada estudante realizará um exercício individual e, depois, um exercício em seu Link — continuou Helena. — Os resultados serão registrados individualmente. A cooperação será avaliada em conjunto, mas isso não significa que vocês devam compensar todas as fraquezas do parceiro. Significa que precisam aprender a trabalhar com elas.
Erika, parada ao lado de Hayato, cruzou os braços.
— Espero que tenha prestado atenção.
— Prestei.
— Ótimo. Então não faça nada estúpido.
— Vou tentar reduzir minhas opções.
Ela lançou um olhar ameaçador.
Hayato sorriu.
O sorriso durou até Darius começar a chamar os primeiros nomes.
2. A diferença entre poder e controle
A primeira demonstração foi de um aluno com Rank C e Fumocinese.
Ele produziu uma rajada de fumaça que atravessou o campo e derrubou três alvos de madeira. O resultado foi razoável, mas o último alvo permaneceu de pé.
A professora Helena anotou algo.
— Boa intensidade. Direção inconsistente. A fumaça se dispersou antes de atingir o último alvo.
O estudante assentiu, visivelmente decepcionado.
Em seguida, uma aluna com Vitreocinese criou três pequenos vidros e os conduziu até alvos diferentes. Um deles escapou da trajetória e atingiu a barreira lateral.
— Controle parcial — comentou Helena. — Mas a precisão foi boa nos dois primeiros alvos.
Hayato acompanhava cada exercício com atenção.
Não observava apenas os poderes.
Observava os pés, os ombros, o momento em que os estudantes respiravam e a maneira como se preparavam antes de liberar suas habilidades.
Era um hábito que começara a desenvolver durante os treinos com Erika.
Todo mundo dá algum sinal antes de atacar.
Ele repetiu mentalmente essa frase enquanto olhava para o próximo aluno.
Daiki foi chamado pouco depois.
— Daiki sunriro. Rank A. Criocinese.
Daiki caminhou até a plataforma com uma expressão confiante.
— Torçam por mim.
Hikari não ergueu os olhos da própria lança.
— Vou torcer para que você não congele o chão onde eu tiver que pisar.
— É praticamente a mesma coisa.
He se posicionou diante de cinco alvos distribuídos em distâncias diferentes.
Ao sinal de Darius, Daiki estendeu a mão.
Uma camada de gelo surgiu sobre a plataforma, avançando em linhas estreitas. Em seguida, ele ergueu pequenas estruturas cristalinas do chão e lançou fragmentos de gelo contra os alvos.
O primeiro foi atingido no centro.
O segundo também.
O terceiro recebeu um impacto na lateral.
O quarto foi atingido com precisão suficiente para derrubá-lo.
O quinto permaneceu de pé.
Daiki tentou corrigir a trajetória, mas o fragmento final se desfez antes de alcançar o alvo.
ele baixou a mão.
— Quase.
— Quatro alvos atingidos — disse Helena. — Boa variedade de aplicações. Você perdeu precisão ao tentar corrigir a última trajetória depois de lançar o fragmento.
— Entendido, professora.
— E descongele a plataforma antes de sair.
Daiki olhou para o chão.
— Ah. Claro.
Ele desfez o gelo com um gesto, embora tenha deixado uma placa congelada bem em frente à saída.
Hikari passou por ele.
— Impressionante.
— Obrigado.
— Não estava elogiando.
— Vou aceitar mesmo assim.
Quando Hikari foi chamada, sua demonstração foi bem diferente.
Ela segurou a lança Tempestade com as duas mãos e assumiu uma postura firme. Pequenas descargas elétricas percorreram a haste da arma.
No primeiro movimento, lançou a ponta da lança contra um alvo próximo, atingindo a marca central.
No segundo, recuou um passo e liberou uma descarga controlada que percorreu uma peça metálica colocada entre dois alvos. A eletricidade alcançou o mecanismo e ativou o segundo alvo sem danificar o primeiro.
No terceiro exercício, precisou atingir um alvo móvel.
Esperou.
Esperou mais um instante.
Então avançou.
A ponta da lança acertou o centro do alvo no momento exato em que ele atravessava sua linha de ataque.
Hayato acompanhou o movimento.
Hikari não tinha sido a mais rápida.
Tinha escolhido o momento certo.
— Excelente controle — disse Helena. — Você evitou desperdiçar energia e demonstrou boa leitura do movimento do alvo.
Hikari agradeceu e retornou ao grupo.
Ao passar por Hayato, percebeu que ele ainda olhava para a plataforma.
— Alguma coisa interessante? — perguntou.
Ele pareceu despertar.
— Você esperou o alvo se aproximar em vez de tentar persegui-lo.
Hikari inclinou levemente a cabeça.
— Sim.
— Se tivesse atacado antes, teria que corrigir a direção no meio do movimento.
Ela o observou por alguns segundos.
— Exatamente.
— Estou tentando entender como vocês fazem isso.
— Observando já é um bom começo.
Hikari seguiu para o lugar dela.
Hayato voltou a olhar para a plataforma.
Não tinha aprendido a controlar melhor sua telecinese naquela manhã.
Mas estava aprendendo a entender os outros.
E isso também poderia ser útil.
3. O teste do Rank F
— Hayato Kurosagi
O chamado atravessou o salão.
As conversas diminuíram.
Hayato sentiu vários olhares se voltarem para ele.
Não era difícil entender o motivo.
O Rank F da cerimônia ainda era assunto entre os estudantes. Alguns tinham curiosidade. Outros acreditavam que ele seria uma decepção. E havia quem simplesmente quisesse assistir a uma falha.
Daiki bateu duas vezes no ombro dele.
— Faça o seu melhor.
Hayato assentiu.
— É o plano.
Ele caminhou até a plataforma.
No centro havia cinco pequenos discos metálicos suspensos por suportes, três alvos de madeira e uma linha marcada no chão. O exercício parecia simples: deslocar os discos usando telecinese, mantê-los suspensos e conduzi-los até os suportes do outro lado.
Hayato respirou fundo.
Você consegue levantar uma moeda por dez segundos.
Uma moeda.
Agora são cinco discos.
Ele olhou para Darius.
— Posso começar?
— Quando estiver pronto.
Hayato abriu a mão.
O primeiro disco tremeu.
Ergueu-se alguns centímetros.
Ele o conduziu lentamente para a frente, sentindo a tensão familiar atrás dos olhos. O metal avançou até o primeiro suporte e desceu com um pequeno ruído.
Um.
O segundo disco levantou com mais dificuldade.
Hayato tentou conduzi-lo rápido demais. O objeto oscilou, escapou de seu controle e caiu no chão.
Um murmúrio percorreu a arquibancada.
Hayato fechou os olhos por um instante.
Não tente fazer tudo ao mesmo tempo.
A voz de Erika surgiu em sua memória.
Descubra como um Rank F deve lutar.
Ele abriu os olhos e recolheu o disco com a mão.
— Posso tentar novamente?
Darius fez um gesto afirmativo.
— Pode. Mas lembre-se: esta avaliação mede controle. Não velocidade.
Hayato posicionou o disco no ponto inicial.
Dessa vez, não tentou levantá-lo imediatamente.
Primeiro, concentrou-se em manter a mão imóvel. Depois, imaginou o disco subindo devagar, como se estivesse segurando algo delicado demais para ser apertado.
O metal se ergueu.
Dois centímetros.
Cinco.
Dez.
Hayato moveu a mão para a direita.
O disco acompanhou o movimento, embora com um pequeno atraso.
Ele o conduziu até o suporte e o abaixou com cuidado.
Dois.
O terceiro exigiu mais esforço. No quarto, sua concentração vacilou e o disco girou de lado, mas Hayato conseguiu estabilizá-lo antes que caísse.
Quatro.
Restava um.
O suor escorria por sua testa.
Os ruídos do salão pareciam distantes. Ele sentia a pressão de cada segundo, a vontade de terminar logo e o medo de perder o controle diante de todos.
O último disco subiu.
Hayato o conduziu lentamente.
Um centímetro de cada vez.
Quase alcançou o suporte quando um tremor percorreu o objeto.
Por reflexo, Hayato tentou segurá-lo com mais força.
O disco disparou para cima.
— Droga!
Ele perdeu o controle.
O metal subiu acima de sua cabeça e começou a cair.
Hayato reagiu instintivamente.
Em vez de tentar puxá-lo para qualquer direção, concentrou-se apenas em interromper a queda.
O disco desacelerou.
Por um instante, ficou suspenso no ar.
Então desceu devagar até o chão.
Não chegou ao suporte.
Mas também não caiu com força.
O salão permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Darius aproximou-se da plataforma.
— Quatro discos posicionados corretamente. Um controle de queda bem executado, mas o último objetivo não foi concluído.
Hayato respirou fundo, frustrado.
— Entendido.
Helena fez algumas anotações.
— Seu controle ainda é instável. Você perde precisão quando tenta corrigir um movimento usando força excessiva. Por outro lado, conseguiu reduzir a velocidade do disco depois de perder a trajetória. Isso demonstra alguma capacidade de adaptação.
Ela ergueu os olhos.
— Seu principal objetivo não deve ser aumentar a distância que consegue mover os objetos. Deve ser manter a estabilidade durante todo o movimento.
Hayato assentiu.
— Vou trabalhar nisso.
— Espero que trabalhe.
Ele deixou a plataforma com a sensação de ter fracassado e aprendido alguma coisa ao mesmo tempo.
Uma combinação estranha.
Mas familiar.
Ao retornar, ouviu um estudante cochichar:
— Quatro discos. Achei que ele nem conseguiria levantar um.
Outro respondeu:
— Ainda é Rank F.
Hayato fingiu não ouvir.
Daiki, porém, ouviu.
Ele deu um passo na direção dos estudantes, mas Hayato segurou seu braço.
— Deixa.
— Ee só ia conversar.
— Você ia congelar o chão.
— Não necessariamente.
— Daiki.
— Tudo bem.
Daiki voltou a se posicionar ao lado dele.
— Quatro discos — disse, agora mais baixo. — E você conseguiu segurar o último.
Hayato olhou para ele.
— Não terminei o exercício.
— Mas terminou melhor do que começou.
Hayato ficou em silêncio.
Então soltou uma pequena risada.
— Você é irritantemente bom em encontrar o lado positivo das coisas.
— É um talento raro. Deveriam me dar outro Rank A por isso.
4. A avaliação de Erika
Quando Erika foi chamada, o ambiente mudou.
Não porque os professores tivessem anunciado algo especial.
Mas porque todos sabiam quem ela era.
A nona estudante Rank S da Academia Aetherion.
Uma prodígio da Pirocinese.
Uma das alunas de quem os instrutores esperavam resultados excepcionais.
Erika caminhou até a plataforma sem demonstrar nervosismo.
Seu exercício consistia em aquecer cinco pequenas placas metálicas até temperaturas específicas, indicadas por marcas coloridas. Ela deveria aquecê-las em sequência, sem danificar os suportes nem deixar que o calor se espalhasse para as áreas ao redor.
Era um teste de precisão, não de força.
Hayato observou com atenção.
Erika estendeu a mão.
Uma chama pequena surgiu na ponta de seus dedos.
A primeira placa aqueceu gradualmente. O metal adquiriu um tom avermelhado, e Erika encerrou o fluxo de calor no instante exato em que atingiu a marca.
A segunda exigiu um pouco mais de tempo.
A terceira foi aquecida por uma chama tão fina que parecia uma linha luminosa envolvendo o metal.
Na quarta, Erika não produziu chama visível. Aproximou a mão e controlou o calor com tamanha precisão que a placa mudou de cor lentamente, sem que o fogo aparecesse.
Hayato franziu a testa.
Ela consegue controlar o calor sem precisar criar uma chama grande.
A quinta placa estava posicionada mais longe das demais.
Erika respirou, ajustou a postura e iniciou o processo.
Tudo correu perfeitamente até o último instante.
A placa atingiu a marca desejada, mas uma pequena língua de fogo escapou de seus dedos e tocou a borda do suporte.
Erika extinguiu a chama imediatamente.
O exercício terminou.
— Quatro placas dentro da faixa ideal — avaliou Helena. — A quinta atingiu a temperatura correta, mas houve uma pequena dispersão de calor no encerramento.
Erika assentiu.
— Vou corrigir.
A resposta foi breve, sem desculpas.
Quando deixou a plataforma, Hayato se inclinou ligeiramente na direção dela.
— Então a grande Erika também erra.
Ela continuou andando.
— E você também. Com mais frequência.
— Eu estava tentando oferecer apoio emocional.
— Tente oferecer silêncio.
Ele sorriu.
Mas, ao contrário do que esperava, Erika não parecia furiosa com o resultado. Parecia concentrada, repassando mentalmente o exercício.
Hayato reconheceu aquela expressão.
Era a mesma que ele fazia quando o disco metálico escapava de seu controle.
Pela primeira vez, percebeu que, apesar da enorme diferença entre os dois, havia algo em comum.
Nenhum deles gostava de errar.
A diferença era que Erika estava acostumada a acertar.
E ele estava aprendendo a continuar depois de falhar.
5. O exercício dos Links
Ao meio-dia, os estudantes receberam uma pausa para o almoço.
Hayato aproveitou para comer, beber água e descansar os braços. Sua cabeça ainda parecia pesada depois do exercício telecinético.
Quando terminou, Erika já estava esperando perto da entrada do campo.
— Você vai me deixar comer em paz algum dia? — perguntou ele.
— A próxima etapa começa em quinze minutos.
— Isso não respondeu à pergunta.
— Não era para responder.
Hayato guardou o recipiente do almoço.
— O que vamos fazer?
— O exercício dos Links. Darius explicou isso há três dias.
— Eu estava prestando atenção.
— Então diga.
Hayato endireitou a postura, fingindo ser um aluno exemplar.
— Um Link precisa aprender a coordenar as próprias ações com as do parceiro, reconhecer oportunidades e evitar colocar o outro em risco.
Erika arqueou uma sobrancelha.
— Você realmente prestou atenção.
— Estou tão surpreso quanto você.
Ela apontou para o campo.
— O exercício será simples. Dois alvos móveis, obstáculos e uma área que deve ser protegida. Você precisa usar sua habilidade para abrir uma oportunidade, e eu vou neutralizar os alvos. Depois, trocamos as funções de acordo com nossas capacidades.
Hayato olhou para ela.
— Você quer que eu ajude você a atacar?
— Quero que você faça algo útil sem atrapalhar.
— É quase uma declaração de confiança.
— Posso pedir para o instrutor trocar você de exercício.
— Estou indo.
No campo, Darius já havia preparado o cenário.
Dois bonecos mecânicos se moviam por trilhos em velocidades diferentes. Atrás deles, uma estrutura representava um ponto de proteção. Pequenos discos metálicos estavam espalhados pelo terreno, e obstáculos de madeira dividiam a área em corredores estreitos.
Darius explicou as regras aos participantes.
— Os alvos representam ameaças que tentam alcançar uma área protegida. A função de vocês é impedir que isso aconteça. Não basta destruir os alvos. Vocês precisam agir como Link.
Ele olhou para Hayato e Erika.
— A primeira tentativa será feita sem planejamento prévio. Quero observar como vocês reagem espontaneamente.
Erika não pareceu gostar.
— Sem planejamento?
— Em combate, nem sempre haverá tempo para uma discussão estratégica.
Hayato olhou para os bonecos.
— Então vamos improvisar.
— Você não vai improvisar — disse Erika. — Vai seguir minhas instruções.
— Isso parece planejamento com uma pessoa falando sozinha.
— Hayato.
— Certo. Instruções. Entendido.
O sinal soou.
Os dois bonecos começaram a avançar.
Erika disparou imediatamente uma sequência de chamas contra o primeiro. O ataque atingiu o alvo, que parou por um instante, mas o segundo boneco mudou de direção e começou a contornar o obstáculo à esquerda.
— O outro! — gritou Hayato.
— Eu vi!
Erika tentou reposicionar-se, mas o primeiro boneco voltou a se mover antes que ela pudesse concluir o segundo ataque.
Hayato estendeu a mão em direção a um dos discos metálicos.
O objeto tremeu.
Ele o ergueu alguns centímetros e tentou lançá-lo contra a articulação do segundo boneco.
O disco desviou para a direita e bateu no chão.
— Droga!
O alvo continuou avançando.
Erika disparou uma chama curta que atingiu o mecanismo de movimento do boneco. Ele parou a poucos passos da área protegida.
O exercício terminou.
Um sinal sonoro indicou a falha parcial.
Hayato baixou a mão.
— Bom… poderia ter sido pior.
Erika virou-se para ele.
— Você tentou lançar um disco sem saber se conseguiria controlar a trajetória.
— Eu estava tentando ajudar.
— E quase acertou o meu pé.
Hayato olhou para o disco no chão.
— Eu não sabia que o seu pé estaria ali.
— Esse é exatamente o problema!
Darius aproximou-se antes que a discussão aumentasse.
— Erika, seu ataque inicial foi eficiente, mas você se concentrou tanto no primeiro alvo que perdeu a oportunidade de observar o segundo. Hayato, você identificou a mudança de trajetória antes de sua parceira, o que foi correto. Porém, tentou agir sem avaliar o tempo necessário para controlar o disco.
Hayato cruzou os braços.
— Então nós dois erramos.
— Sim — respondeu Darius. — E é por isso que o exercício existe.
Ele apontou para os dois bonecos.
— Vocês terão outra tentativa. Desta vez, conversem antes de começar. Definam uma função para cada um.
Erika expirou lentamente.
Hayato olhou para ela.
— Quer que eu faça uma sugestão?
— Se for uma sugestão útil.
He observou o terreno por alguns segundos.
O primeiro boneco se movia mais rápido, mas seguia uma trajetória relativamente previsível. O segundo era mais lento e mudava de direção quando encontrava obstáculos.
Os discos metálicos estavam próximos de duas passagens estreitas.
— Você é mais rápida e consegue neutralizar os alvos com ataques diretos — começou Hayato. — Eu não consigo mover os discos com força suficiente para causar muito dano. Mas posso tentar deslocar um deles para a passagem do segundo boneco.
Erika permaneceu em silêncio.
He continuou:
— Não preciso acertá-lo. Se conseguir colocar o disco no caminho, talvez ele precise mudar de direção. Isso pode dar a você tempo para atacar o primeiro e depois voltar para o segundo.
— E se você perder o controle do disco?
— Eu paro. Não tento corrigir à força.
Erika analisou a posição dos obstáculos.
— Você vai tentar bloquear a passagem, não atingir o alvo.
— Exatamente.
— E só vai mover o disco quando eu confirmar que estou pronta.
Hayato assentiu.
— Combinado.
Ela ajeitou a empunhadura da espada, embora o exercício permitisse usar a habilidade sem desembainhá-la.
— Certo. Vamos tentar.
Darius deu o sinal.
Erika avançou pelo lado direito e liberou uma chama concentrada contra o primeiro boneco. O alvo parou imediatamente.
O segundo iniciou seu desvio.
— Agora! — chamou Erika.
Hayato concentrou-se no disco próximo à passagem estreita.
Dessa vez, não tentou levantá-lo muito.
Apenas o deslizou pelo chão.
O metal raspou na pedra, avançando lentamente até ficar atravessado no corredor.
O segundo boneco encontrou o obstáculo e alterou a trajetória.
Não foi uma mudança grande.
Mas foi suficiente.
— Funcionou! — Hayato exclamou.
— Não comemore ainda!
Erika girou sobre o próprio pé e lançou uma chama curta na articulação exposta do segundo alvo.
O boneco parou.
O sinal de conclusão soou.
Por um instante, Hayato ficou olhando para o disco no chão.
He não havia destruído nada.
Não tinha levantado um objeto pesado nem executado um movimento impressionante.
Apenas deslocara um pequeno disco alguns centímetros.
E, pela primeira vez naquele dia, a ação dele tinha feito diferença para outra pessoa.
Darius aproximou-se.
— Melhor. Erika, você aproveitou a abertura sem abandonar completamente a observação do primeiro alvo. Hayato, você escolheu uma tarefa compatível com seu nível atual de controle e não insistiu em uma ação que poderia colocar seu Link em risco.
Hayato olhou para Erika.
— Isso significa que fomos bem?
— Significa que fomos menos ruins — respondeu ela.
— Vou aceitar.
Erika começou a caminhar para fora do campo.
Depois de alguns passos, parou.
— Hayato.
He virou-se.
— O quê?
Ela demorou um instante antes de responder.
— A ideia do disco foi boa.
Hayato piscou.
— Desculpa. Pode repetir?
— Não.
— Acho que ouvi você me elogiando.
— Então está com problemas de audição.
— Vou registrar esse momento no meu diário.
— Se fizer isso, amanhã teremos dez voltas extras.
Hayato abriu um sorriso.
— Você realmente sabe estragar um momento bonito.
Erika voltou a andar.
Mais, dessa vez, ele teve a impressão de que ela estava escondendo um sorriso.
Talvez estivesse.
Talvez não.
Hayato decidiu não insistir.
Pelo menos por enquanto.
6. Uma observadora silenciosa
No fim da tarde, os estudantes começaram a deixar o campo de treinamento.
Hikari permanecia perto das arquibancadas, guardando a lança Tempestade em seu suporte. Ela já havia terminado sua avaliação em Link com Daiki e obtido bons resultados, embora os dois tivessem discutido durante boa parte do exercício.
Daiki, naturalmente, afirmava que a discussão fazia parte da estratégia.
Hikari chamava isso de falta de disciplina.
Ela viu Hayato atravessar o campo carregando a espada Vesper.
He caminhava devagar, cansado, com os ombros tensos.
Ainda assim, parou perto de um dos obstáculos e se abaixou para recolher um disco metálico que havia ficado para trás.
Hikari observou quando ele o colocou no chão.
Hayato estendeu a mão.
O disco tremeu.
Subiu alguns centímetros.
Desceu.
He tentou novamente.
Dessa vez, conseguiu mantê-lo suspenso por dois segundos antes que caísse.
Hayato soltou o ar, frustrado, e pegou o disco com a mão.
— Dois segundos — murmurou. — Pelo menos não foi zero.
He tentou uma terceira vez.
Hikari não percebeu que estava sorrindo até Daiki aparecer ao lado dela.
— Você está olhando para o Kurosagi de novo.
Ela virou a cabeça imediatamente.
— Estou observando o campo.
Daiki olhou para o campo quase vazio.
Depois olhou para ela.
— Claro. Um campo muito interessante. Especialmente aquele rapaz de Rank F que está tentando levantar uma moeda.
— É um disco.
— Ah, perdão. Isso muda tudo.
Hikari lançou um olhar frio para ele.
— Você não tem treino para fazer?
— Tenho. Mas descobri que incomodar você melhora minha concentração.
— Continue e vou melhorar a sua pontaria usando sua cabeça como alvo.
Daiki ergueu as mãos.
— Estou indo.
He se afastou, rindo.
Hikari voltou a olhar para Hayato.
Não entendia completamente o que a intrigava nele.
Havia estudantes com poderes mais raros, mais fortes e muito mais impressionantes. Alguns já dominavam técnicas que exigiam anos de treinamento.
Hayato não tinha nada disso.
Mas, quando falhava, ele tentava compreender o motivo.
Quando não conseguia executar uma técnica, procurava outra maneira de contribuir.
E, durante o exercício, havia percebido algo que muitos estudantes ignorariam: não precisava ser o mais forte para criar uma oportunidade.
Hikari apoiou a lança no ombro.
Talvez ele seja mais interessante do que parece.
O pensamento surgiu naturalmente.
Ela não lhe deu um significado maior.
Ainda não.
7. O registro de um dia difícil
Naquela noite, Hayato voltou ao dormitório com os braços doloridos e a cabeça cheia de informações.
Daiki estava sentado em sua cama, lendo o relatório da avaliação.
— Como foi? — perguntou Hayato.
— Muito bem, obrigado por perguntar.
— Perguntei sobre o relatório.
— E eu respondi sobre mim.
Hayato jogou uma toalha nele.
Daiki riu e deixou o relatório sobre a mesa.
— Hikari disse que eu preciso melhorar minha coordenação com ela.
— E você concordou?
— Disse que ela precisa aprender a apreciar meu talento.
Hayato balançou a cabeça.
— Você vai morrer congelado um dia.
— Desde que não seja durante o verão, tudo bem.
Os dois riram.
Depois de alguns minutos, Daiki ficou mais sério.
— E você? Como se sente?
Hayato sentou-se na própria cama.
— Cansado.
— Só isso?
Ele olhou para as mãos.
— Não. Eu queria ter conseguido fazer mais. Na avaliação individual, errei o último disco. No exercício em Link, quase acertei Erika com um pedaço de metal. Se Darius não estivesse lá, provavelmente teria sido pior.
Daiki não respondeu imediatamente.
— Mas você também conseguiu controlar a queda do disco — disse por fim. — E encontrou uma maneira de ajudar Erika sem precisar acertar o alvo.
— Você parece estar repetindo o discurso da professora.
— Talvez eu esteja aprendendo com pessoas inteligentes.
Hayato lançou um travesseiro nele.
Daiki desviou, rindo.
— Só estou dizendo que você está olhando para tudo o que não conseguiu fazer. E ignorando o que fez.
Hayato ficou em silêncio.
Não era a primeira vez que Daiki dizia algo assim.
E provavelmente não seria a última.
— Você acha que eu consigo melhorar de verdade? — perguntou Hayato.
Daiki parou de rir.
— Acho.
— Mesmo com Rank F?
— Hayato, eu vi você treinar durante anos antes de entrarmos aqui. Você nunca foi o melhor em magia. Mas sempre foi um dos melhores em continuar tentando.
He apontou para a espada Vesper.
— Você sabe lutar com isso. Sabe observar as pessoas. E está aprendendo a usar a telecinese de maneiras que ainda não domina completamente. Isso não significa que vai se tornar um dos mais fortes da academia.
Hayato baixou os olhos.
Daiki continuou:
— Significa que ainda não sabemos até onde você pode chegar.
A frase permaneceu no quarto por alguns segundos.
Hayato respirou fundo.
— Obrigado.
— Não se emocione. Se começar a chorar, vou contar para Erika que você é sensível.
— Eu posso jogar você pela janela.
— Com telecinese? Quero ver.
Hayato pegou a moeda que carregava no bolso e a ergueu na direção dele.
A moeda tremeu.
Subiu um centímetro.
Depois caiu na palma de sua mão.
Daiki olhou para o objeto.
— Impressionante.
— Eu sei.
— Um centímetro inteiro.
— Saia do meu quarto.
Daiki caiu na gargalhada.
Pela primeira vez naquele dia, Hayato riu sem sentir que precisava provar alguma coisa.
Mais tarde, quando o dormitório ficou silencioso, Hayato abriu seu caderno de treinamento.
Escreveu cuidadosamente:
Avaliação oficial — Dia 3
Controle de telecinese
Quatro discos deslocados corretamente.
Falha ao concluir o último movimento.
Consegui reduzir a velocidade de um objeto após perder o controle.
Cooperação
Primeira tentativa: falha por falta de comunicação.
Segunda tentativa: consegui bloquear parcialmente a trajetória de um alvo.
Melhor resultado quando escolhi uma tarefa compatível com meu controle atual.
ele parou por alguns segundos, pensando no que escrever em seguida.
Então acrescentou:
Próximo objetivo: controlar o movimento sem tentar compensar os erros usando força excessiva.
Hayato fechou o caderno.
O Rank F continuava ao lado de seu nome nos registros da academia.
Ele ainda não conseguia levantar objetos pesados. Sua telecinese era instável, e a maioria dos estudantes poderia vencê-lo em um confronto direto.
Nada disso havia mudado em um único dia.
Mais alguma coisa havia mudado dentro dele.
Pela primeira vez, Hayato começava a compreender que sua habilidade não precisava ser impressionante para ser útil.
Precisava ser confiável.
E confiabilidade não surgia em uma cerimônia, nem era concedida por um cristal.
Era construída.
Tentativa após tentativa.
Erro após erro.
Dia após dia.
Do lado de fora, os sinos da Academia Aetherion anunciaram o encerramento das atividades.
Hayato apagou a luz.
Na manhã seguinte, às cinco horas, Erika estaria esperando por ele.
E, embora jamais admitisse em voz alta, ele já estava começando a se acostumar com isso.
Fim do Capítulo 4.