O Bruno mandando pão com ovo e pão com carne cedinho e berrando que vão se atrasar pra uma escola a dez passos de casa kkk
As cartas que eu nunca te enviei
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O Bruno mandando pão com ovo e pão com carne cedinho e berrando que vão se atrasar pra uma escola a dez passos de casa kkk
Conteúdo da publicação
Capítulo 2
15 anos atrás...
O sol lá fora parecia morto sob a chuva forte que caíra durante a madrugada. Acordei com meu primo, que morava comigo, gritando no meu ouvido.
— LEVANTA, PORRA!! VAMOS NOS ATRASAR DE NOVO!!! — Bruno gritava enquanto me chacoalhava.
— Bruno... — disse eu, com a voz sonolenta. — A GENTE MORA DO LADO DA ESCOLA, SEU VAGABUNDO!!!
— Ah.
Foi o que ele me respondeu.
Bruno ainda estava se acostumando ao fato de ter se mudado para a minha casa. Bem, já fazia três meses que seu pai havia desistido de criá-lo e passado sua guarda para os meus pais. Na minha concepção, demorou até demais: dois anos após a morte da minha tia Leandra.
Sim, minha mãe amava tanto a irmã que deu o nome dela a mim.
Levantei, coloquei o uniforme e tomei o café da manhã que nossa empregada, a Sra. Olivia, havia preparado.
Bem, minha família não era lá podre de rica, mas tínhamos uma boa condição financeira.
Bruno comeu como um animal. Comeu um pão com ovo, um pão com carne e bebeu café puro, sem açúcar. Aquele menino tinha apenas onze anos e parecia um adulto com disfunção hormonal grave.
— Bruno, a comida não vai sumir — disse eu, comendo apenas um pão com manteiga.
Ele me lançou um olhar de julgamento e voltou a comer.
Quando terminamos, fomos em direção à escola, que ficava LITERALMENTE a dez passos da nossa casa.
Eu morava ao lado da minha escola.
Quando entramos, fomos recebidos por Gabriel, melhor amigo de Bruno e... Sei lá, nunca tinha conversado com ele. Mas, nos últimos três meses, Gabriel havia se aproximado mais de mim.
— OIIIIII!!! — disse ele, animadíssimo. — Olha se não são o anêmico e o morto de fome!!
Ele passou um braço pelo meu pescoço e o outro pelo de Bruno.
— MORTO DE FOME??!! EU NÃO SOU MORTO DE FOME!!
— Eu não tenho anemia — disse eu.
— Ah, sim! E o meu nome é João!
— Oi, João — falei.
Ele me olhou, piscou e começou a rir.
Gabriel era extremamente extrovertido.
Nós três éramos de turmas diferentes. Gabriel estava no oitavo ano, eu estava no sétimo e Bruno, no sexto.
Bem, não éramos exatamente populares na escola. Pelo menos, não eu.
Eu era aquele aluno que tirava boas notas, vivia na biblioteca, era elogiado pelos professores e não falava com ninguém.
Gabriel era do tipo que conhecia a escola inteira, dos pés à cabeça. Se pudesse se candidatar a diretor, provavelmente ganharia a eleição.
E tinha o Bruno.
Bruno era como Gabriel, só que no sexto ano.
No fim das contas, acabei ficando conhecido como "ah, é o amigo do Gabriel" ou "é o amigo do Bruno".
-------
Eu já estava acostumado com alguns apelidos maldosos. Afinal, eu era praticamente um fantasma na minha própria sala. Existia, tirava notas boas e vivia na biblioteca. Para os meus colegas, isso parecia ser motivo suficiente para implicar comigo.
Não que eu me importasse tanto assim.
Pelo menos, era o que eu dizia a mim mesmo.
Eu tinha meus livros, minhas notas e minha paz. Bom, paz era uma palavra generosa quando se morava com Bruno, mas vocês entenderam.
E, de alguma forma, eu também tinha Gabriel.
Ele era o melhor amigo do meu primo e, até pouco tempo atrás, eu era apenas o primo que vinha junto no pacote. Mas Gabriel parecia não se importar. Falava comigo como se me conhecesse havia anos e, aos poucos, começou a fazer parte da minha rotina.
Eu não percebi quando aquilo aconteceu. Só sei que, em algum momento, a presença dele deixou de ser apenas uma consequência de sua amizade com Bruno.
Mas não vamos nos precipitar. Eu tinha doze anos e preocupações muito mais importantes, como passar de ano e impedir que Bruno destruísse a casa dos meus pais.
Enfim...
Naquele dia, alguma coisa mudou.
As zoações, a minha vida e, principalmente, minha amizade com Gabriel.
E, querido leitor, se existe algo que aprendi desde então, é que algumas lembranças nunca desaparecem de verdade.
Mas essa é uma história que ainda não estou pronto para contar.
Pelo menos, não agora.
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O sol lá fora parecia morto sob a chuva forte que caíra durante a madrugada. Acordei com meu primo, que morava comigo, gritando no meu ouvido.