Fico criando cenas em minha cabeça
que parecem estar tão distantes,
impossíveis para mim.
Cenas em que sou livre.
Não carrego o peso do corpo,
da pele que pesa tanto
que formiga e, às vezes, adormece.
Sem medo de me mostrar,
sem que tenha antes que buscar
e destrancar diversos cadeados
postos lá no fundo,
onde me escondo
e, às vezes, me perco
no meio das trancas.
No meu mundo,
sou vista.
Falo o mesmo idioma,
tenho o mesmo tamanho,
não me perco,
não sou engolida
na barriga de quem habita ali.
Sou reconhecida
como alguém que ali pertence.
Eu gosto de falar outro idioma,
mas falar sozinha, às vezes,
é solitário.
Já estou tão acostumada
com a solidão.
Ela é calma,
mas, às vezes, grita.
Parece querer atenção.
E não se cala.
Isso me incomoda muito.
Mas eu entendo.
É chato demais
aprender tantas coisas,
entender como o mundo gira
e as coisas andam.
Só para, no fim,
não querer encarar
a dor do tédio
de carregar o próprio peso.
Será que um dia
vou estar livre de mim?
Poesia autoral