Você vê o sorriso que ele força no rosto,
Mas não vê o cansaço que o corpo carrega,
Julga o silêncio, o olhar de desgosto,
Mas ignora a guerra que a alma nega.
É fácil apontar o deslize e a falha,
Medir o cansaço com a sua régua,
Enquanto o outro, sozinho, batalha
Numa rotina que nunca dá trégua.
Por trás do atraso, do tom mais ríspido,
Pode haver um peito chorando o luto,
Um medo profundo, um nó invisível,
Um grito de socorro que dura um minuto.
Ninguém sabe a noite que o outro chorou,
Os monstros internos que teve que expor,
O sonho bonito que o tempo enterrou,
Nem o tamanho exato da sua dor.
Não julgue a pressa, a falta de abrigo,
A cicatriz que você não causou,
Se não puder ser o abraço amigo,
Não seja a pedra que o machucou.
Antes de dar o seu veredito,
Lembre que a vida é um mar de mistérios,
O que para você parece um mito,
Destrói o outro em mundos severos.
Acolha o cansaço, estenda a mão pura,
O mundo já tem julgamento demais,
Seja a palavra que acalma e que cura,
E deixe que o outro descanse em paz.
Autor: João Guilherme.