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O Bios da Manhã

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Acordei numa manhã bonita. Calma, silenciosa, ensolarada — como manhãs de julho em Brasília deveriam ser — e, por algum milagre climático, hoje são. Aqui no meio do ano, o ar é seco, quase…

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Pensamento

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duvidaHonesta

Mas e quando o teste fica negativo? Quando passes e fico a pensar no dia inteiro, e nada corre bem?

Mas e quando o teste fica negativo? Quando passes e fico a pensar no dia inteiro, e nada corre bem?

Conteúdo da publicação

Acordei numa manhã bonita. Calma, silenciosa, ensolarada — como manhãs de julho em Brasília deveriam ser — e, por algum milagre climático, hoje são. Aqui no meio do ano, o ar é seco, quase desidratado, mas o umidificador fez seu trabalho silencioso durante a noite, e o sono veio bom, completo, sem interrupções. Acordei e tudo estava certo.

Eu já sabia que ele viria. Já esperava por ele. Enquanto eu preparava o café na cozinha, ele veio.

O pensamento, em uma pergunta sem cerimônia: É só isso, a vida?

Se fosse em outros tempos — e eu sei bem quais são — esse pensamento teria amassado a manhã e a jogado no lixo, como uma embalagem vazia. E, no lugar dela, teria estabelecido um embate. Mais um. Eu ficaria chateado comigo mesmo. Como algo que começou sublime descambou rapidamente para algo conflituoso? Culparia meu cérebro, essa máquina interna que parece sabotar justamente os momentos em que tudo está fluindo bem. Por que você faz isso, cérebro? Eu perguntava. E a manhã, promissora, se diluía.

Muitas vezes, busquei uma resposta satisfatória, algo que justificasse aquela sequência. Até que, semana passada, ao ligar meu computador, pela primeira vez em anos, prestei atenção no que ele fazia ao ser ligado. Uma série de informações foram mostradas rapidamente na tela, antes que finalmente o logo do Windows aparecesse.

Lembrei-me do BIOS — aquele sistema básico que roda antes do Windows, verificando se a máquina está inteira. E mais: lembrei-me do POST, o Power-On Self-Test, a varredura propriamente dita, que pergunta a cada componente se está em condições antes de entregar o sistema ao usuário.

E se aquele movimento do meu cérebro, ao desafiar a manhã sublime, fizer parte do POST que ele executa para confirmar se eu realmente estou apto a reconhecer a beleza do momento? Qualquer falha que o POST encontre e já não teremos o logo do Windows surgindo na tela. Por quê? Porque se a falha não for detectada agora, e passar despercebida, pode comprometer algo realmente importante que eu possa vir a fazer mais tarde. O prejuízo pode ser grande, por isso o teste.

Comecei a encarar minhas manhãs segundo essa ótica. Mas, claro, ainda há uma fração de segundo em que eu quero brigar. Porque brigar é fácil. Mais fácil que executar o POST.

Mas, para minha felicidade, esses tempos estão passando, mais rápido do que eu poderia imaginar. Para mim, o POST é como um zelador interno. Ele verifica as janelas, as cercas, a fiação, enfim, se tudo está em ordem, e anota em sua prancheta "Estamos bem aqui, pessoal".

Hoje, quando o pensamento vem, eu já tenho a fórmula. Não rechaçar — porque não há o que rechaçar. Não brigar — porque não há inimigo. Apenas confirmar.

É isso mesmo. Está tudo bem. É assim mesmo.

Confirmei a promessa da manhã. Confirmei a calma. Confirmei que sim, a vida pode ser isso — e que isso é bastante.

Sim, a pergunta direta, o pensamento descortês diante da beleza da manhã é o cérebro fazendo sua varredura. Como aquele texto rápido que corre na tela preta quando você liga a máquina — rápido, silencioso, quase indecifrável. Aquilo é o cérebro perguntando para cada parte do corpo, e também da mente, se ela está inteira. Só que não pergunta em português. Pergunta em pensamento.

É isso mesmo que você está achando da vida? Isso que você está sentindo é real ou foi coisa de momento? A vida ser isto, neste momento, está bom para você?

Pela janela, os ipês florescem, roxos, amarelos, brancos, tão comuns nesta época do ano. A cada ano que passa, eles crescem mais e são mais floridos. Mas eles não crescem uma vez e dizem "pronto, agora sou ipê". Crescem o tempo todo porque estar vivo é estar em processo de verificação. O cérebro pensa "a vida é só isso" não porque seja belicoso. Ele pergunta porque a vida, como experiência, precisa ser reafirmada a cada ciclo. A pergunta não é sabotagem. É teste. A confirmação não é resignação. É manutenção.

O zelador interno pergunta: Você acha o ipê amarelo bonito? Você acha o ipê roxo bonito? Você acha que esta manhã está linda? Você acha...?

Sim, eu acho.

Pronto. Passei no teste. A varredura termina. O sistema entrega a manhã.

Aí ela continua — bonita, ensolarada, calma, tranquila. Chamativa. E como a manhã está excepcional, há a promessa de um dia também excepcional.

E, quando o inesperado vier, e trouxer consigo algum conflito real — algo que de fato importe, algo que de fato exija resposta — eu estou preparado. Porque acordei e passei no teste. O sistema está rodando. A memória está livre. A CPU está disponível para o que vier.

E assim, a manhã transcorreu, com seus ipês roxo e amarelo, com seu céu azulado. O umidificador desligou, mas seu trabalho ficou — o ar da noite ainda está comigo.

O BIOS terminou. O sistema subiu. Mas o que me assusta — e me anima, não necessariamente nesta ordem — é saber que amanhã ele vai rodar de novo, e eu vou ter que passar no teste outra vez. E o ipê vai estar lá, do lado de fora da minha janela, esperando minha confirmação.

Thoughts

  • so_passando

    O umidificador está lá enquanto dormes, tu estás lá testando... quem está a verificar a ti?

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  • rotaAntiga

    Gostar do ipê roxo, gostar do ipê amarelo, é confirmação o nome daquilo. Simples.

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  • guardo_uma_frase

    A memória está livre, a CPU disponível... 💻🌅 isto é produção

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  • vqueiroz90

    O teu cérebro é engenheiro de sistemas. O meu só grita alarmes.

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  • duvidaHonesta

    Mas e quando o teste fica negativo? Quando passes e fico a pensar no dia inteiro, e nada corre bem?

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  • mesaDeBar

    O computador ligando, o POST correndo... ninguém pensa nisso mas faz todo o sentido.

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  • perguntaAberta

    Essa ideia do zelador a verificar tudo, chegou bem. Muda mesmo como olhas pra aquilo.

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  • folhaSolta

    quando começaste a notar que esse pensamento sempre vinha no mesmo momento da manhã, ou foi sempre assim?

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