Série Crônicas
Minha amiga secreta não apareceu do nada ou de uma explosão de circunstâncias, mas foi construída, pedaço por pedaço, desde a primeira infância. Ganhou forma por meio da voz meiga e suave da minha mãe a me ensinar que a minha melhor amiga sempre seria eu mesma. Hoje ela é furtiva, esgueirando-se entre meus pensamentos conscientes e inconscientes, apenas para me mostrar a linha fina e delicada da lucidez.
Mais um dia comum, como tantos outros nos últimos cinco anos. Fui despertada às três da madrugada com um chamado: "Mama". É assim que sou chamada pelo meu filho de cinco anos. Ele tem atraso na fala e só agora começa a desenvolvê-la, repetindo monossílabos. Sempre acorda a essa hora; é o seu despertar natural, fruto da melatonina desregulada em seu hipotálamo, em um cérebro ainda em desenvolvimento. Às vezes, acorda feliz; outras, chateado. Chora, grita, expressa a sua frustração... Algo natural para uma criança neurodivergente.
Tudo difere da rotina de uma maternidade típica. Dormir pouco é algo que se normaliza com o passar dos anos na maternidade atípica. Para pais que não lidam com isso, essa privação constante de sono seria uma tortura de guerra diária; para nós, é superada com sorrisos, bocejos e força. No entanto, dormir poucas horas, por dias seguidos, continua sendo a receita perfeita para o caos mental. É exatamente aí, nesse caos, que a minha amiga secreta atua: ela traz luz à minha escuridão e sanidade aos momentos de desespero.
A rotina recomeça. Organizar a mochila, a agenda das terapias, as consultas, o trabalho, a casa. Tudo precisa ser anotado, pois a minha memória curta já não funciona como antigamente. Não há tempo para a vida social adulta. Em uma rara hora livre, a missão é levá-lo ao parquinho para brincar e socializar.
O dia passa rápido, pontuado por pequenos lapsos temporais. Há aqueles momentos em que o menino chora, desregulado, e os minutos parecem se arrastar como horas. Em contrapartida, há o silêncio sereno do trajeto para as terapias ou os instantes em que ele está entretido, adorando as atividades, e as horas escorrem como se fossem meros minutos. Nada é mais lindo do que um sorriso no rosto do próprio filho.
O parque costuma ser caótico. Crianças correm, brincam, gritam. E você fica ali, observando a sua criança com seu interesse restrito, parada, como se o caos ao redor não existisse. O mundo dele se resume ao fascínio de girar o mesmo brinquedo, repetidas vezes, e você o leva ao parque porque lhe disseram que ele precisa socializar.
As outras mães, quase sempre curiosas — mas com aquela curiosidade pontiaguda e um tanto maldosa —, aproximam-se tentando forçar um diálogo. Eu me limito a responder com monossílabos. No fundo da minha mente, a minha amiga insiste: respira e responde.
— É sua aquela criança? — Sim. — Ela parece ser... "diferente". — É... — Ele está ali, brincando de girar aquele brinquedo há mais de trinta minutos. — É...
Dou dois passos em direção ao meu filho, encerrando o interrogatório.
Estou acordada desde as três da madrugada. Já sobrevivi a salas de espera de consultas, a terapias e ao caos escolar. Estou cansada demais para explicar ou para pedir desculpas. A intenção daquela mulher não era ajudar, mas apenas especular, recolher matéria-prima para ter o que falar com as outras mães.
Logo ali perto, um grupo de crianças brinca em roda com uma bola de futebol. Em um movimento inesperado, a bola voa na direção do meu filho, que brincava alheio a tudo. Num puro reflexo de defesa, ele rebate a bola com o braço. Ela ganha velocidade e atinge o rosto de uma criança menor. O menino chora e os pais se aproximam. Meu filho permanece absorto, focado em girar o seu brinquedo.
Os pais da criança machucada esbravejam sua indignação. Aproximo-me e digo:
— Peço desculpas, não foi a intenção dele machucar. Ele apenas se defendeu num reflexo...
O pai da criança, ainda embalando o filho que chorava em seu colo, dispara com raiva:
— Crianças como a sua não deveriam estar em um parquinho como este.
Minha mente se incendeia. Várias perguntas fervem: Como não poderia? Por que não poderia? O que lhe dá o direito de dizer isso? Como consegue viver com tanto preconceito dentro de si?
Ele dá dois passos na direção do meu filho. Imediatamente, coloco-me entre os dois. Fito os seus olhos profundamente.
— O senhor sabe que tipo de mãe eu sou?
Ele recua um passo, parecendo confuso com a pergunta. Prossigo, com a voz embargada por uma calma cortante, sem desviar o olhar:
— Existem dois tipos de mães. Aquela que entregaria o próprio filho para salvar o mundo, e a outra mãe... — Desvio os olhos para a criança em seu colo, com o rostinho ainda vermelho de choro. — A mãe que colocaria fogo no mundo inteiro.
Volto a olhar para aquele pai. A raiva em seu semblante agora cede lugar à compreensão do peso daquelas palavras. Eu sinto muito, mas foi um acidente, diz internamente a voz da minha amiga secreta, a minha razão, puxando-me de volta para a lucidez. Completo, em tom baixo e sereno:
— Peço desculpas. Não foi a intenção dele machucar o seu filho. Foi um acidente.
Ele olha novamente para o meu menino, que continua a girar o brinquedo. Olha para mim. Engole o seu preconceito, resmunga um insulto quase inaudível, vira-se e afasta-se a passos largos.
A noite chega. Deitada na cama, abraçada ao meu filho, leio historinhas para dormir. Quando a história acaba e o cansaço já pesa em seus olhinhos, entre piscadas longas e pálpebras pesadas de sono, ele se concentra nas minhas palavras:
— Hoje foi um dia especial. Foi um dia bom porque você deu o melhor de si. Quero que você se lembre, sempre, de ser bom consigo mesmo. Lembre-se de que você é especial, inteligente, amigo, maravilhoso, esforçado, destemido, corajoso, autêntico e perfeito. Você pode fazer o que quiser. A única pessoa capaz de te limitar é você mesmo. Então, seja o seu melhor amigo. Não se cobre tanto. Todo dia é uma nova oportunidade.
Eu bocejo, vencida pelo cansaço. E a minha voz interior, a minha amiga secreta, sussurra feliz em minha consciência:
— É assim que se constrói um amigo. Um amigo que estará com você para sempre. Você está fazendo um belo trabalho como mãe.