A memória dele dela é tão viva, tão nítida. Vocês ficaram em contato depois, ou tudo apagou de uma vez?
A última rodada
As ruas que antes eu atravessava sem perceber agora carregavam fantasmas em cada esquina. Os bares ainda estavam acesos, cuspindo música e risadas na madrugada, mas eu já não pertencia àquele mundo. Caminhava sozinho, afundado num silêncio pesado, acompanhado apenas pelas lembranças dela.
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Pensamento
A memória dele dela é tão viva, tão nítida. Vocês ficaram em contato depois, ou tudo apagou de uma vez?
Conteúdo da publicação
— Garçom... não vira essa cadeira ainda.
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava, arrastada pelo cansaço e pelo álcool que já queimava a garganta há horas.
O homem atrás do balcão ergueu os olhos com a paciência cansada de quem já ouviu aquele pedido centenas de vezes.
As cadeiras já estavam sendo colocadas sobre as mesas.
O chão cheirava a desinfetante barato e cerveja derramada.
A luz amarelada do letreiro piscava na janela como um coração prestes a parar.
O bar estava morrendo pela noite.
E eu ainda não tinha coragem de sair dele.
— Eu sei que está na hora de fechar — murmurei. — Mas me dá mais alguns minutos.
Lá fora, a cidade estava fria.
Silenciosa.
As ruas vazias pareciam longas demais para alguém que não queria chegar em casa.
Porque minha casa já não era casa.
Era apenas um lugar cheio demais de ausência.
Olhei para o copo vazio à minha frente.
O vidro refletia meu rosto distorcido.
Foi então que percebi que aquele copo parecia comigo.
Vazio.
Transparente.
Fácil de quebrar.
Eu havia jurado a mim mesmo que naquela noite não beberia.
Que iria para casa.
Tomaria um banho.
Deitaria na cama.
Tentaria dormir.
Tentaria esquecer.
Mas promessas feitas por homens solitários costumam nascer condenadas.
E a memória dela sempre encontrava um jeito de entrar.
Ela tinha a chave de todas as portas que eu tentei fechar.
Da porta da casa.
Da porta da memória.
Da porta do meu peito.
E sempre entrava sem pedir licença.
Então empurrei o copo na direção do garçom.
— Mais uma.
Ele me olhou em silêncio.
Talvez por pena.
Talvez por reconhecimento.
Talvez porque já tivesse visto homens morrerem lentamente daquele mesmo jeito.
Ele serviu o whisky.
O líquido dourado girou no copo como fogo domesticado.
— Não é sede — eu disse, encarando a bebida. — É medo.
O garçom permaneceu quieto.
— Medo de voltar pra casa...
Minha garganta apertou.
— E encontrar o fantasma dela sentado no sofá.
O silêncio entre nós ficou pesado.
Bebi.
O whisky queimou.
Mas não mais do que a saudade.
A saudade tinha outro tipo de fogo.
Mais lento.
Mais cruel.
Mais paciente.
Ela queimava por dentro.
Sem deixar fumaça.
Sem deixar cinzas.
Apenas ruína.
Olhei para o relógio acima do balcão.
O bar queria dormir.
As luzes piscavam impacientes.
A noite avançava.
E meu dinheiro acabava.
Espalhei moedas sobre o balcão e comecei a contá-las lentamente.
Era quase humilhante.
Mas eu não estava comprando bebida.
Estava comprando tempo.
Minutos extras antes de enfrentar o silêncio do apartamento vazio.
Minutos extras antes de ouvir a ausência dela gritando em cada cômodo.
Cada gole descia rasgando meu peito como vidro.
Como se pudesse costurar algo que já nasceu irreparável.
— Mais um gole por ela — sussurrei.
Bebi.
— Mais um pelo que acabou.
Bebi de novo.
— Mais um por quem foi embora.
Outro gole.
Levantei o copo vazio pela última vez.
Sorri sem humor algum.
— E mais um por esse vazio que nunca vai embora.
Quando terminei, empurrei as últimas moedas para o garçom.
A conta estava paga.
O whisky também.
Mas a saudade...
A saudade continuava devendo paz que jamais teria como pagar.
A volta para casa foi humilhante.
Cada passo parecia uma punição diferente.
As ruas que antes eu atravessava sem perceber agora carregavam fantasmas em cada esquina. Os bares ainda estavam acesos, cuspindo música e risadas na madrugada, mas eu já não pertencia àquele mundo. Caminhava sozinho, afundado num silêncio pesado, acompanhado apenas pelas lembranças dela.
Quanto mais me aproximava de casa, mais a saudade doía.
E não era uma dor bonita, dessas que poetas transformam em versos suaves.
Era dor de verdade.
Crua.
Afiada.
Como uma faca entrando devagar no peito, sem pressa de terminar o serviço.
O caminho era curto.
Sempre foi.
Mas naquela noite parecia interminável.
Porque a memória tem esse talento cruel de alongar distâncias quando sabe que estamos indo em direção ao lugar onde fomos destruídos.
As lembranças começaram a voltar mais nítidas.
Mais vivas.
Mais violentas.
Quando cheguei à porta, fiquei parado por alguns segundos sem coragem de entrar.
Ali tinha sido o fim.
Aquela casa guardava o exato instante em que tudo desmoronou.
Ainda consigo lembrar daquela noite com uma clareza assustadora, como se parte de mim nunca tivesse saído dela.
Como se eu ainda estivesse vivendo tudo outra vez.
Ela estava na sala.
Pequena.
Frágil à primeira vista.
Mas havia uma tempestade inteira escondida dentro dela.
Tinha pouco mais de um metro e sessenta, o corpo magro, a pele morena iluminada pela luz fraca da casa. Os cabelos pretos e cacheados caíam pelos ombros de um jeito desorganizado e bonito ao mesmo tempo.
E o sorriso...
Meu Deus.
O sorriso dela parecia capaz de consertar qualquer coisa ruim no mundo.
Ou pelo menos costumava parecer.
Naquela noite, porém, não havia sorriso algum.
Só desconfiança.
Só dor.
Ela andava de um lado para o outro da sala enquanto falava comigo, cada vez mais alterada.
Dizia que eu estava estranho.
Distante.
Frio.
Perguntava quem era a outra mulher.
Acusava.
Tentava arrancar de mim uma verdade que nunca existiu.
E eu não estava traindo ela.
Nunca estive.
Mas isso já não fazia diferença.
Porque quando a confiança morre, a inocência do outro também morre junto.
A voz dela começou a falhar.
O choro veio primeiro escondido entre as palavras, depois tomou tudo de uma vez.
Ela tremia enquanto falava.
Os olhos vermelhos.
As mãos inquietas.
E eu fiquei ali, parado diante da mulher que eu amava, sem saber o que fazer.
Foi isso que mais me destruiu.
Não os gritos.
Não as acusações.
Não os insultos.
Mas o fato de que eu já não conseguia alcançá-la.
A mulher da minha vida estava desmoronando na minha frente...
e não queria meu abraço.
Ela recuava toda vez que eu tentava chegar perto.
Como se meu toque machucasse.
Como se eu tivesse me tornado alguém perigoso dentro da cabeça dela.
E talvez, naquele momento, eu realmente fosse.
Porque existe algo profundamente cruel em perceber que a pessoa que mais te amou no mundo já não acredita em uma única palavra sua.
Depois do choro veio a raiva.
Violenta.
Quente.
Ela começou a gritar comigo.
Me chamar de mentiroso.
De covarde.
De homem inútil.
As palavras saíam cortando o ar como vidro quebrado.
E eu aceitava cada uma em silêncio.
Não porque fossem verdade.
Mas, porque percebi que a dor dela era maior do que qualquer defesa que eu pudesse oferecer.
Naquela noite, eu assisti o amor morrer dentro dos olhos dela.
E existe algo monstruoso nisso.
Porque o amor não desaparece de uma vez.
Ele vai apagando lentamente.
Como uma casa queimando por dentro enquanto ainda parece inteira do lado de fora.
Após as lembranças.
Thoughts
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PermalinkA volta pra casa deve ser o pior. Quando sabe que tá indo pro lugar que quebrou você.
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PermalinkEle conseguiu sair daquele bar naquela noite ou ficou até virar? E depois, consegue contar?
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PermalinkEsse tipo de dor tem gosto diferente. Não é raiva, não é ódio. É coisa que queima por dentro mesmo.
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PermalinkQue detalhe é esse de 'a luz amarelada do letreiro piscava como um coração prestes a parar'? Isso é realmente sobre o bar ou é sobre ele?
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PermalinkTem coisa em não conseguir alcançar quem você ama que destrói a gente de um jeito que nada mais consegue.
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PermalinkA memória dele dela é tão viva, tão nítida. Vocês ficaram em contato depois, ou tudo apagou de uma vez?
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PermalinkCaramba, isso tudo em tão pouco tempo. Ficou pesado mas não consigo desviar o olhar.
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PermalinkEssa cena do bar, você viveu isso de verdade ou foi pure ficção? Porque sente muito real pra ser só imaginação.
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