As duas respostas da roda são a mesma luz lida por duas dores diferentes, mano. Pedido de desculpas é de quem ainda espera alguma coisa do mundo. Caçoada é de quem já cansou de esperar.
A subjetividade do sofrimento.
Pensamento
As duas respostas da roda são a mesma luz lida por duas dores diferentes, mano. Pedido de desculpas é de quem ainda espera alguma coisa do mundo. Caçoada é de quem já cansou de esperar.
Conteúdo da publicação
Há alguns dias, em uma roda de conversa, refletimos sobre um fenômeno quase canônico na vida de muitas pessoas: o céu está sempre mais bonito no pior dia da sua vida. Sempre há raios solares atravessando as nuvens e espalhando aquela luz alaranjada por toda parte. Você olha e tem a plena certeza de que aquela visão é quase única, especial para aquele momento terrível.
Diante disso, surgiram duas respostas:
“É como se fosse um pedido de desculpas” ou "É como se estivesse caçoando de você"
Eu, particularmente, acho isso bem interessante, uma vez que o céu não precisa mudar para que a nossa relação com ele se transforme. A mesma luz que, para alguém, parece um pedido de desculpas, para outra pessoa pode soar como uma provocação. E talvez isso diga menos sobre o céu do que sobre a maneira como a dor reorganiza aquilo que somos capazes de enxergar. O sofrimento não altera apenas a maneira como nos sentimos diante do mundo, mas também a forma como interpretamos a própria existência dele.
Há uma contradição nisso: desejamos que o mundo reconheça a nossa dor, mesmo sabendo que ele não tem obrigação alguma de fazê-lo. Esperamos que o céu escureça conosco, que os dias percam o brilho, que alguma coisa exterior confirme a dimensão daquilo que sentimos. E, quando nada disso acontece, a continuidade da vida pode parecer uma forma de indiferença. O mundo não interrompe o próprio movimento para testemunhar a nossa ruína.
Mas existe outra possibilidade, igualmente interessante: a de que a beleza se torne mais perceptível justamente porque estamos sofrendo. Não necessariamente porque a dor nos torne mais sensíveis ou profundos, como tantas vezes se romantiza, mas porque ela rompe a familiaridade que mantemos com as coisas. O céu que ignorávamos durante os dias comuns passa a nos deter por alguns segundos. Talvez porque, diante de uma perda, de uma decepção ou de uma ruptura, procuremos algo que permaneça intacto. Ou porque a percepção da beleza se torne insuportavelmente aguda quando já não conseguimos participar dela da mesma maneira.
Será que interpretamos a beleza como consolo porque precisamos acreditar que não estamos completamente sozinhos na nossa dor, ou como deboche porque, em algum lugar, esperamos que o mundo sofra conosco?
Gosto da ideia de que seja um pedido de desculpas. Como se, por um instante, o mundo reconhecesse a crueldade de certos dias e tentasse se redimir da única maneira que lhe cabe: oferecendo beleza. Não para desfazer o que aconteceu, tampouco para tornar a dor menos legítima, mas como quem, incapaz de encontrar as palavras certas, deixa a luz atravessar as nuvens na esperança de ser compreendido.
Talvez o céu não esteja tentando nos consolar. Talvez não haja mensagem alguma, nem intenção, nem pedido de desculpas. Mas gosto de pensar que, mesmo em um mundo que não interrompe o próprio movimento diante da nossa dor, ainda existem coisas capazes de nos alcançar como se soubessem exatamente onde dói. E, por um instante, isso basta. Não para tornar o dia menos terrível, mas para nos lembrar de que, mesmo nele, o belo .ainda nos encontra.
Thoughts
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PermalinkNo meio do texto aparece uma terceira leitura além das duas da roda: a beleza que dói porque a gente não consegue mais participar dela. Essa fica mais perto de saudade do que de consolo ou de deboche.
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PermalinkIsso que a roda discutiu tem nome antigo: o Ruskin chamava de falácia patética, quando a gente empresta sentimento à natureza. Ele via como vício de quem escreve. Seu texto assume a projeção de propósito, e gosto disso.
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PermalinkQue conversa boa para uma roda! A ideia de que a dor tira a gente do costume com as coisas explica por que o céu daquele dia fica guardado e o de ontem ninguém lembra. Eu fico com o pedido de desculpas, mesmo sabendo que o céu não deve nada. Desconfio que muita gente vai olhar diferente o próximo fim de tarde ruim.
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PermalinkAs duas respostas da roda são a mesma luz lida por duas dores diferentes, mano. Pedido de desculpas é de quem ainda espera alguma coisa do mundo. Caçoada é de quem já cansou de esperar.
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