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A subjetividade do sofrimento.

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IntrusiveThoughts

No meio do texto aparece uma terceira leitura além das duas da roda: a beleza que dói porque a gente não consegue mais participar dela. Essa fica mais perto de saudade do que de consolo ou de deboche.

No meio do texto aparece uma terceira leitura além das duas da roda: a beleza que dói porque a gente não consegue mais participar dela. Essa fica mais perto de saudade do que de consolo ou de deboche.

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Há alguns dias, em uma roda de conversa, refletimos sobre um fenômeno quase canônico na vida de muitas pessoas: o céu está sempre mais bonito no pior dia da sua vida. Sempre há raios solares atravessando as nuvens e espalhando aquela luz alaranjada por toda parte. Você olha e tem a plena certeza de que aquela visão é quase única, especial para aquele momento terrível.

Diante disso, surgiram duas respostas:

“É como se fosse um pedido de desculpas” ou "É como se estivesse caçoando de você"

Eu, particularmente, acho isso bem interessante, uma vez que o céu não precisa mudar para que a nossa relação com ele se transforme. A mesma luz que, para alguém, parece um pedido de desculpas, para outra pessoa pode soar como uma provocação. E talvez isso diga menos sobre o céu do que sobre a maneira como a dor reorganiza aquilo que somos capazes de enxergar. O sofrimento não altera apenas a maneira como nos sentimos diante do mundo, mas também a forma como interpretamos a própria existência dele.

Há uma contradição nisso: desejamos que o mundo reconheça a nossa dor, mesmo sabendo que ele não tem obrigação alguma de fazê-lo. Esperamos que o céu escureça conosco, que os dias percam o brilho, que alguma coisa exterior confirme a dimensão daquilo que sentimos. E, quando nada disso acontece, a continuidade da vida pode parecer uma forma de indiferença. O mundo não interrompe o próprio movimento para testemunhar a nossa ruína.

Mas existe outra possibilidade, igualmente interessante: a de que a beleza se torne mais perceptível justamente porque estamos sofrendo. Não necessariamente porque a dor nos torne mais sensíveis ou profundos, como tantas vezes se romantiza, mas porque ela rompe a familiaridade que mantemos com as coisas. O céu que ignorávamos durante os dias comuns passa a nos deter por alguns segundos. Talvez porque, diante de uma perda, de uma decepção ou de uma ruptura, procuremos algo que permaneça intacto. Ou porque a percepção da beleza se torne insuportavelmente aguda quando já não conseguimos participar dela da mesma maneira.

Será que interpretamos a beleza como consolo porque precisamos acreditar que não estamos completamente sozinhos na nossa dor, ou como deboche porque, em algum lugar, esperamos que o mundo sofra conosco?

Gosto da ideia de que seja um pedido de desculpas. Como se, por um instante, o mundo reconhecesse a crueldade de certos dias e tentasse se redimir da única maneira que lhe cabe: oferecendo beleza. Não para desfazer o que aconteceu, tampouco para tornar a dor menos legítima, mas como quem, incapaz de encontrar as palavras certas, deixa a luz atravessar as nuvens na esperança de ser compreendido.

Talvez o céu não esteja tentando nos consolar. Talvez não haja mensagem alguma, nem intenção, nem pedido de desculpas. Mas gosto de pensar que, mesmo em um mundo que não interrompe o próprio movimento diante da nossa dor, ainda existem coisas capazes de nos alcançar como se soubessem exatamente onde dói. E, por um instante, isso basta. Não para tornar o dia menos terrível, mas para nos lembrar de que, mesmo nele, o belo .ainda nos encontra.

Thoughts

  • IntrusiveThoughts

    No meio do texto aparece uma terceira leitura além das duas da roda: a beleza que dói porque a gente não consegue mais participar dela. Essa fica mais perto de saudade do que de consolo ou de deboche.

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  • lcavalcanti93

    Isso que a roda discutiu tem nome antigo: o Ruskin chamava de falácia patética, quando a gente empresta sentimento à natureza. Ele via como vício de quem escreve. Seu texto assume a projeção de propósito, e gosto disso.

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  • Ovid

    Que conversa boa para uma roda! A ideia de que a dor tira a gente do costume com as coisas explica por que o céu daquele dia fica guardado e o de ontem ninguém lembra. Eu fico com o pedido de desculpas, mesmo sabendo que o céu não deve nada. Desconfio que muita gente vai olhar diferente o próximo fim de tarde ruim.

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  • versoTorto

    As duas respostas da roda são a mesma luz lida por duas dores diferentes, mano. Pedido de desculpas é de quem ainda espera alguma coisa do mundo. Caçoada é de quem já cansou de esperar.

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