A Queda que Distribuía Rosas
Capítulo
Por muito tempo carreguei um sonho que eu não conseguia compreender. Na época,
ele parecia apenas estranho, quase angustiante. Hoje percebo que alguns sonhos não
chegam para ser entendidos imediatamente; eles esperam o tempo certo para revelar
o seu significado. Eu estava caindo do céu. Tão alto que parecia caminhar entre as
estrelas. A queda era infinita, e eu observava tudo como se visse a mim mesmo de
longe. Curiosamente, não havia desespero. Meu rosto carregava paz. Eu sabia, de
alguma forma, que aquela queda não era o meu fim. Enquanto caía, minhas mãos
seguravam inúmeras rosas brancas. Eu não sabia de onde vinham. Apenas estavam
ali. E, durante toda a descida, eu lançava cada rosa ao vento. Uma após outra, elas
encontravam as mãos de pessoas espalhadas pelo caminho. Anos depois, escrevendo
O Silêncio que Me Formou, compreendi o que aquele sonho queria me ensinar. Nem
toda queda existe para nos destruir. Algumas existem para nos transformar. E, mais do
que isso, para transformar outras pessoas através de nós. Mesmo quando a vida
parece desabar, ainda podemos oferecer esperança, amor, consolo, palavras e
exemplos. A dor não precisa produzir apenas sofrimento; ela também pode produzir
generosidade. As rosas simbolizam tudo aquilo que entregamos ao mundo enquanto
ainda estamos enfrentando nossas próprias batalhas: nossos livros, nossas
experiências, nossa fé, nossa compaixão e nossos ensinamentos. Hoje acredito que a
verdadeira grandeza não está em ajudar apenas quando tudo está bem. Ela se revela
quando, mesmo em queda, escolhemos espalhar beleza pelo caminho. Desde então,
passei a acreditar que algumas quedas não nos afastam do céu. Elas apenas nos
ensinam a levar um pedaço dele para quem encontramos durante a descida.