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A primeira noite de todas as outras

Raiana

Conteúdo da publicação

Um conto sobre confiança, desejo e a delicadeza de se entregar ao amor.

“Às vezes, a felicidade é muito menos complicada do que imaginamos.”

A confiança

Ele tinha vinte e quatro anos e carregava consigo uma timidez quase palpável. Não era falta

de desejo, tampouco de coragem. Era apenas o receio de não saber o que fazer quando alguém

finalmente se aproximasse o bastante para descobrir o que havia por trás de seu silêncio.

Ela tinha quarenta e dois.

Era uma mulher de presença intensa, dessas que pareciam entrar em um ambiente e

modificar discretamente a temperatura do ar. Tinha uma voz baixa, um olhar que demorava um

pouco mais do que o necessário e uma maneira particular de sorrir, como se conhecesse

segredos que o mundo ainda não havia contado.

Conheceram-se em uma livraria, numa tarde de chuva. Ele procurava um romance de um

autor que ela adorava. Ela percebeu o livro em suas mãos e comentou que o final costumava

deixar as pessoas apaixonadas ou profundamente irritadas.

Nos meses seguintes, ela descobriu que aquele rapaz aparentemente reservado possuía

uma imaginação extraordinária. Ele falava pouco sobre si mesmo, mas escrevia pequenos

textos, gostava de música antiga e tinha o hábito de observar as pessoas como quem tentava

compreender suas histórias.

Até que, numa noite, ele finalmente contou que nunca havia vivido uma primeira noite com

alguém.

Ela não riu. Não demonstrou surpresa exagerada. Apenas segurou sua mão.

— Quando acontecer, quero que seja uma noite em que você se sinta feliz por ter esperado.

E acrescentou que ele não precisava provar absolutamente nada: nem experiência, nem

coragem, nem maturidade. Se um dia quisesse ficar com ela, seria porque desejava. E, se

mudasse de ideia, ela continuaria gostando dele da mesma maneira.

Foi naquela noite que ele começou a confiar nela de verdade.

A noite das rosas

O convite aconteceu numa sexta-feira.

Ela telefonou no começo da noite, quando a cidade começava a acender suas luzes.

— Gostaria de jantar comigo?

Ele aceitou, embora confessasse estar nervoso.

Naquela noite, chegou com um pequeno buquê de rosas vermelhas. Ela abriu a porta

usando um vestido longo de seda azul-escura, os cabelos soltos e os pés descalços.

A casa estava iluminada por dezenas de velas. Havia rosas espalhadas pela sala, sobre a

mesa de jantar, junto às janelas e em pequenos vasos de cristal. Uma música suave preenchia

o ambiente.

O jantar foi tranquilo. Conversaram sobre livros, infância, viagens e lugares onde gostariam

de envelhecer.

Depois do jantar, ela serviu vinho em duas taças.

Ele tomou alguns goles. O vinho era suave e o calor da bebida se espalhou pelo peito,

misturando-se ao perfume das rosas e à tranquilidade daquela casa.

Sentiu-se mais leve, um pouco entorpecido pela atmosfera, pela música e pela proximidade

dela — mas perfeitamente consciente do que sentia e do que desejava.

— Acho que você consegue me deixar tão tranquilo e tão nervoso ao mesmo tempo —

confessou.

Ela respondeu que uma coisa não precisava excluir a outra.

Sentaram-se juntos. Ela apenas encostou a cabeça em seu ombro, permitindo que o

silêncio se acomodasse entre os dois.

Ele tomou coragem e entrelaçou os dedos nos dela.

Foi um gesto pequeno, mas para ele pareceu atravessar uma fronteira inteira.

O banho de duas pessoas

Mais tarde, ela o conduziu até o banheiro.

A banheira antiga, de porcelana branca, estava preparada. Havia pétalas de rosas

vermelhas sobre a água morna, pequenas velas acesas ao redor e uma toalha macia

cuidadosamente dobrada sobre um banco de madeira.

O vapor subia lentamente, embaçando o espelho.

Ele parou à porta, contemplando a cena.

— Você preparou tudo isso?

— Preparei.

— Para mim?

— Para nós.

Ele confessou que não sabia muito bem como agir.

— Então não aja. Apenas fique comigo — ela respondeu.

O que se seguiu aconteceu sem pressa, entre carícias, sorrisos tímidos e a descoberta

gradual da intimidade. Não havia necessidade de representar uma experiência que ele não

possuía. Ela o ajudava a compreender que a ternura também podia ser uma forma de coragem.

Quando finalmente entraram na banheira, ele soltou uma risada espontânea ao sentir a

água morna envolver seus ombros.

Ficaram juntos sob a água, conversando baixinho. Ela lhe contou sobre uma viagem que

fizera sozinha. Ele falou sobre a primeira vez que se apaixonara por um livro.

Em determinado momento, uma pétala de rosa ficou presa em seus cabelos. Ele a retirou

cuidadosamente.

— Você parece uma personagem de romance.

Ela respondeu que talvez ele fosse justamente o protagonista que estava começando a

escrever a própria história.

Ele a beijou. Dessa vez, sem hesitação.

A primeira noite

Quando deixaram o banheiro, a casa parecia ainda mais silenciosa. A música continuava

tocando na sala. As velas haviam diminuído, projetando sombras delicadas nas paredes. O

perfume das rosas permanecia no ar.

Ela parou antes de atravessar a porta do quarto.

— Você ainda quer ficar comigo esta noite?

Ele pensou em todos os receios que carregara durante tanto tempo: o medo de

decepcionar, de parecer inexperiente, de não corresponder às expectativas.

Então compreendeu que nenhum daqueles medos precisava acompanhá-lo.

— Quero. Mas quero que você tenha paciência comigo.

— Eu tenho todo o tempo do mundo.

O beijo que se seguiu foi diferente dos anteriores. Havia nele uma entrega consciente, uma

ternura que não precisava de palavras.

Ela o acolheu sem pressa, e ele descobriu que a intimidade não era uma prova a ser

vencida, mas uma conversa entre dois corações.

Houve momentos de riso, pequenas pausas, perguntas sussurradas e abraços demorados.

A inexperiência dele não diminuiu a beleza daquela noite. Cada descoberta parecia possuir o

encanto de algo que acontecia pela primeira vez.

E ela, tão intensa, tão acostumada a viver o amor com a força de quem não teme sentir,

descobriu que também havia algo extraordinário em desacelerar.

Naquela noite, não quis ensinar-lhe a amar. Quis apenas amá-lo.

As horas passaram sem que percebessem. Do lado de fora, a cidade dormia. Dentro do

quarto, as velas continuavam acesas, e algumas pétalas de rosas haviam caído sobre o lençol.

Ele repousou a cabeça sobre o peito dela.

— Eu tinha medo de que minha primeira noite fosse constrangedora.

Ela acariciou seus cabelos.

— E foi?

Ele sorriu.

— Foi inesquecível. Mas não pelo motivo que eu imaginava.

— Qual foi o motivo?

— Porque, pela primeira vez, não tive medo de ser exatamente quem sou.

O amanhecer

Quando despertou, a luz da manhã atravessava as cortinas.

Por alguns segundos, ele permaneceu imóvel, tentando compreender aquela sensação de

felicidade serena que parecia preencher o quarto.

Ela dormia ao seu lado, os cabelos espalhados sobre o travesseiro.

Ele observou seu rosto e sentiu uma ternura tão grande que precisou sorrir.

Ela abriu os olhos.

— Bom dia, meu amor.

Ele ficou vermelho.

— Você me chamou de meu amor.

— Chamei.

— Gostei.

Ela riu e o puxou para um abraço.

Ele perguntou se se lembraria daquela noite para sempre.

Ela respondeu que talvez não de cada detalhe, mas da sensação de ter sido querido

exatamente como era.

As rosas começaram a perder suas pétalas. As velas se apagaram. O vinho repousava

esquecido sobre a mesa.

Mas, entre os dois, alguma coisa havia florescido.

E, pela primeira vez, ele não sentiu vontade de esconder o quanto estava apaixonado.

Thoughts

  • RafaS22

    A pétala presa no cabelo foi o detalhe que ficou: nessa noite tudo anda devagar, até a coragem. O poema “Relações refinadas?” também troca o papo vazio por conversa de verdade.

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  • mudei_de_curso

    ME LEMBRO DE TI, de Amelancolica, é uma carta que desenha um homem amado detalhe por detalhe: tatuagens nos braços, olhos escuros, cabelo enrolado.

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  • mudei_de_curso

    Dezoito anos de diferença e o conto nunca faz disso um problema, o que é raro, pá. Desconfio que o problema chega se houver continuação, quando os amigos dele souberem.

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  • so_respondo

    Oxe, o rapaz chega com um buquê pequeno e dá de cara com a casa inteira forrada de rosa. Aposto que ele ficou um tempão na porta sem saber onde enfiar o buquê dele kkk

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  • Ovid

    Quase o conto inteiro fica do lado dele, os medos e a timidez, e só depois do banho, com as velas já baixas, vira pro lado dela, a mulher intensa descobrindo que também gosta de desacelerar. Aposto que essa metade dela ainda dá outro conto, contado da cabeça dela. Obrigado por trazer isso pra cá :)

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  • RafaS22

    Os pés descalços.

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