Às vezes, me apego às poeiras daquilo que não existe mais. Sou fascinada pelo vocabulário antigo. Palavras que hoje soam antiquadas, mas que ainda me fazem desejar ósculos e amplexos ao mundo. Sinto que, ao abandoná-las, perdemos também um pouco da sutileza dos significados que um dia soubemos enxergar.
Ósculo vem do latim osculum, que significa literalmente “boca pequena” ou “boquinha”. É uma junção de os, “boca” ou “face”, com o sufixo diminutivo -culum. Para os romanos, a aproximação da boquinha ao rosto de alguém tornou-se uma forma de nomear o beijo, particularmente aquele atravessado pela amizade, pelo respeito ou pela fraternidade.
Amplexo vem do latim amplexus, “abraço”, “contorno” ou “circuito”. O termo deriva de amplector, “envolver”, “rodear com os braços”, formado por ambi-, “ao redor”, e plectere, “dobrar”, “entrelaçar”, “tecer”. A imagem etimológica de amplexo é, portanto, a de entrelaçar-se ao redor de alguém.
Quando foi que perdemos a graciosidade dos significados?
As coisas não necessariamente perderam sua beleza. Perdemos, em algum momento, o hábito de procurá-la. Um abraço continua sendo um abraço, mas há alguma coisa diferente quando ele deixa de ser apenas o encontro de dois corpos e passa a carregar, dentro da própria palavra, a ideia de envolver alguém, de fazer-se ao redor do outro.
Penso nisso com uma certa melancolia: em algum momento, começamos a preferir palavras que apenas informam àquelas que também sugerem. “Beijo” diz o que aconteceu. “Ósculo” parece perguntar o que havia naquele gesto. “Abraço” descreve. “Amplexo” ainda guarda uma imagem. E talvez seja justamente isso que me fascine nas palavras antigas. Elas parecem carregar mais mundo dentro delas. Não porque fossem necessariamente melhores, mas porque ainda conseguimos enxergar as coisas de que nasceram. Há nelas uma espécie de memória que a linguagem cotidiana foi deixando pelo caminho.
Talvez nomear alguma coisa seja também uma maneira de impedir que ela desapareça completamente. Enquanto existe uma palavra para uma experiência, existe um pequeno lugar onde ela pode continuar vivendo. Damos nomes ao que sentimos porque, de alguma forma, temos medo de que aquilo que não conseguimos nomear se dissolva dentro de nós.
Penso nas palavras que desapareceram e nas coisas que foram junto com elas. Não consigo deixar de imaginar quantas formas de delicadeza foram se tornando estranhas simplesmente porque já não temos o costume de dizê-las. Há sentimentos que continuam acontecendo, mas que parecem menores quando não encontramos uma palavra capaz de abrigá-los. Como se a experiência permanecesse intacta e nós tivéssemos perdido a gaveta onde costumávamos guardá-la.
Tenho medo de que isso aconteça também com outras coisas. Que certas experiências continuem existindo, mas percam, pouco a pouco, a capacidade de significar alguma coisa. Que o amor permaneça e a palavra se desgaste. Que a saudade continue doendo, mas já não saibamos muito bem o que fazer com ela. Que os gestos permaneçam, enquanto aquilo que os tornava importantes desapareça.
Talvez seja por isso que algumas palavras antigas me causem uma espécie de nostalgia por um tempo que sequer vivi. Não sinto falta exatamente das pessoas que as pronunciavam, nem de uma época que idealizo. Sinto falta da possibilidade de olhar para uma coisa simples e encontrar nela mais do que sua função imediata. Um beijo poderia ser um ósculo. Um abraço poderia ser um amplexo. E, por alguns segundos, aquilo que parecia banal recuperaria uma história.
Existe uma espécie de violência silenciosa em transformar tudo em algo simples demais. Quando reduzimos o amor a uma palavra de quatro letras, o luto a uma ausência, a saudade a uma vontade de voltar, talvez estejamos apenas tentando tornar suportável aquilo que é grande demais para caber em definições. Mas, ao simplificarmos as coisas, também corremos o risco de esquecer sua profundidade.
A linguagem cotidiana tem pressa. Ela precisa que as coisas sejam compreendidas rapidamente, respondidas rapidamente, esquecidas rapidamente. Talvez por isso eu goste tanto das palavras que exigem uma pausa. Das palavras que parecem estranhas na boca. Das que nos obrigam a perguntar de onde vieram e por que alguém, um dia, decidiu chamar determinada coisa daquele jeito.
Há uma intimidade nisso. Descobrir a origem de uma palavra é quase como descobrir uma fotografia antiga dentro de uma casa que julgávamos conhecer. De repente, percebemos que aquela coisa sempre carregou uma história que não estávamos mais enxergando.
A perda dos significados não é necessariamente o desaparecimento das coisas, mas o momento em que deixamos de enxergá-las para além do nome que lhes demos. Pode ser que seja isso que mais me assuste: perceber que uma coisa pode continuar diante de nós e, ainda assim, desaparecer. Um gesto permanece, uma palavra permanece, uma pessoa permanece, mas alguma coisa que antes existia entre nós e aquilo já não está mais lá.
De certa forma, crescer também tem um pouco disso. Não apenas descobrir novos significados, mas assistir silenciosamente à morte de alguns deles. Lugares que deixam de ser casa. Pessoas que deixam de ser abrigo. Objetos que perdem a história que carregavam. Palavras que continuam escritas, embora já não consigamos sentir tudo o que um dia significaram.
E há uma espécie de luto nisso que não sabemos nomear. Não é exatamente a perda de uma coisa, mas a perda daquilo que uma coisa costumava ser para nós. Como se o mundo permanecesse no mesmo lugar enquanto nós, sem perceber, tivéssemos aprendido a olhá-lo de outra maneira.
Por isso me apego às poeiras daquilo que não existe mais. Não porque queira recuperar o passado, nem porque acredite que tudo o que veio antes fosse mais bonito. Talvez eu apenas tenha medo de passar pela vida e, um dia, perceber que deixei de reconhecer o significado das coisas que um dia me fizeram sentir alguma coisa.
No fim, talvez seja isso que procuro nas palavras antigas: não palavras, mas maneiras de olhar. Pequenas provas de que já existiram outras formas de nomear o mundo e, portanto, outras formas de habitá-lo.
E se uma palavra pode desaparecer sem que aquilo que ela nomeava desapareça junto, talvez o contrário também seja possível: talvez algumas coisas morram justamente quando já não encontramos palavras para vê-las.
Então continuo recolhendo essas poeiras. Não para trazê-las de volta, mas para lembrar que estiveram aqui. Que alguma coisa um dia significou alguma coisa. E que, por mais que o tempo transforme os nomes, ainda existe uma diferença entre olhar para o mundo e realmente enxergá-lo.