Assim como Fleabag, eu gostaria que alguém me dissesse o que vestir pela manhã, o que comer, o que falar, o que pensar. Pensar só dói. A raposa do inconsciente continua a me perseguir, seja lá qual caminho eu sigo.
Gostaria de sentir como as outras pessoas sentem. Todos parecem saber exatamente o que fazer, mesmo que sejam atitudes ruins. Eu só não sei o que supostamente deveria fazer. Talvez seja por isso que eu inveje tanto as pessoas que parecem ter um destino, mesmo quando caminham na direção errada. Pelo menos elas caminham.
Eu me sinto como se estivesse em uma cidade depois da meia-noite, dessas que não aparecem em cartões-postais, onde as placas estão apagadas e as janelas acesas pertencem a pessoas que, de algum modo, parecem saber o que estão fazendo. Eu caminho entre elas sem saber exatamente para onde ir, esperando que alguma rua, por acidente, me leve a algum lugar que faça sentido.
Tentei seguir uma carreira, mas isso não mudou nada em mim. Tentei amar, descobri que não sei amar em sua total capacidade. Tentei conhecer lugares novos e pessoas novas, como se talvez alguma mudança de cenário pudesse mudar alguma coisa dentro de mim. Mas descobri que, no fim, qualquer lugar em que eu esteja, seja lá com que companhia, eu vou estar lá.
E esse é o maior dos problemas.
As pessoas possuem a tendência de ofender-se com afastamentos. Eu nunca entendi isso. Sempre que percebo que um lugar não é para mim, eu simplesmente saio; pode soar como mau-caratismo, mas é uma maneira de tentar encontrar meus pensamentos. Entretanto, cortar laços é uma coisa que me machuca demais, o que parece controverso, mas qualquer saída me deixa em ruínas, sejam elas propositais ou não.
Um encerramento, pra mim, é como se fosse o fim da minha existência. Eu sinto vergonha, repulsa, nojo. Não do acontecimento em si, mas de mim. Lembrar que eu existo na memória de alguém me deixa repugnada e, com isso, costumo me esconder. Não é legal, eu compreendo isso. Eu sei que há pessoas que contam comigo e eu as deixo na mão, mas é inevitável. Não consigo encará-las nos olhos. Talvez porque, quando vou embora, eu não saiba simplesmente ir embora. Levo comigo a culpa de ter sido a pessoa que fechou a porta. E, do outro lado dela, imagino os rostos daqueles que ficaram, tentando encontrar uma explicação que eu não tive coragem de oferecer.
É estranho ser a própria autora daquilo que te machuca.
Eu poderia dizer que não tive escolha, mas tive. Sempre tenho. Talvez seja justamente isso que torne tudo pior. Ninguém me expulsou. Ninguém me obrigou a desaparecer. Eu fui quem decidiu partir, e ainda assim me sinto abandonada.
Às vezes penso que cortar um laço é como amputar uma parte do próprio corpo e, depois, sentir vergonha de mancar.
Não sei se as pessoas percebem quando eu vou embora o quanto também estou deixando alguma coisa de mim para trás. Talvez, para elas, seja apenas uma ausência. Um nome que deixa de aparecer. Uma cadeira vazia. Uma pessoa que simplesmente decidiu desaparecer sem explicação.
Para mim, não.
Para mim, cada afastamento continua existindo em algum lugar. Eu o revisito em silêncio, reconstruo conversas, procuro o momento exato em que tudo começou a desandar. Penso no que poderia ter dito, no que deveria ter explicado, em todas as maneiras possíveis de ter permanecido sem precisar me perder.
E talvez seja essa a parte mais cruel: eu quase sempre saio para me encontrar, mas acabo deixando alguém para trás no caminho.
Às vezes, inclusive, sou eu quem fica para trás.
Há um momento em que até a fuga perde o sentido.
Passei tanto tempo acreditando que bastava mudar de direção que não percebi que algumas estradas desabam justamente quando começamos a percorrê-las. Primeiro uma pedra, depois outra. Uma ponte que já não alcança o outro lado. Uma placa arrancada pelo vento. E, quando percebo, estou novamente no meio de lugar nenhum, segurando um mapa que já não corresponde à paisagem.
Foi assim que aprendi a partir.
Quando alguma coisa começa a me sufocar, eu abro a porta. Quando um vínculo pesa, eu solto a corda. Quando um caminho deixa de parecer meu, abandono-o antes que ele possa me abandonar. Há uma espécie de alívio nisso. Por alguns instantes, só alguns zeptossegundos , acredito que ainda estou no controle.
Mas há uma crueldade em descobrir que todas as portas dão para fora e nenhuma delas ensina a voltar para casa.
Às vezes me sinto como a Fleabag diante de uma janela, assistindo à própria vida acontecer do outro lado do vidro. As pessoas continuam conversando, amando, errando, escolhendo. Eu consigo vê-las. Consigo até entender seus movimentos. Só não consigo descobrir em que momento deveria entrar em cena.
E então continuo andando. Uma carreira. Um amor. Uma cidade. Uma amizade. Cada escolha se transforma, por algum tempo, em uma espécie de promessa. Eu me aproximo como quem chega diante de uma casa iluminada, imaginando que finalmente encontrou abrigo. Mas basta entrar para perceber que não trouxe comigo a pessoa que esperava encontrar ali.
E as paredes começam a ruir.
No fim, resta apenas o terreno.
Não sei manusear esse vazio. Não sei se devo reconstruir ou continuar caminhando entre os escombros. Tenho medo de fincar raízes sobre aquilo que já morreu e medo ainda maior de passar a vida inteira arrancando-as antes que cresçam.
A raposa continua atrás de mim.
E eu continuo correndo.
Não porque saiba para onde estou indo, mas porque, quando paro, consigo ouvi-la.