Ela discutia com o vento,
corrigia o rumo das horas,
impunha ordem ao caos pequeno
das coisas que ninguém nota.
Havia nela um decreto invisível:
o mundo devia caber no lugar certo —
e se não coubesse,
ela ajeitava.
Dizia verdades como quem acende luz,
às vezes queimava,
mas era claridade.
Porque por trás da rigidez das palavras
havia um coração indomável,
incapaz de amar pela metade.
Amava como quem sela destino,
como quem toma partido da vida —
dos seus, sobretudo,
jamais deixava em empate a existência.
Era abrigo em forma de exigência,
era cuidado vestido de bronca,
era oração que não fazia alarde,
mas sustentava mundos invisíveis.
Serva — não no dizer,
mas no gesto escondido,
no joelho que conhecia o chão,
na fé que não precisava de testemunha.
E agora —
o silêncio.
Um silêncio estranho,
porque até a ausência dela
parece corrigir o espaço.
Falta o som das certezas,
falta o peso das verdades,
falta esse amor firme
que não sabia ser pouco.
Mas há algo que não se despede:
um rastro de eternidade
nas coisas que ela tocou.
Porque quem vive assim —
inteira,
incorrigível,
profundamente entregue —
não morre:
permanece.