Quando éramos criança, saíamos da aula e íamos brincar no cemitério no fim da rua lateral da escola. Havia umas linhas fininhas, desenhadas na terra bem no pé do muro, que eram réstias das almas que saíam pra penar. Seguíamos as linhas até sumirem nas areias do leito exposto do Rio da Cobra.
— É bem uma alma sedenta procurando a alma do rio pra beber água. Diz que se a pessoa morrer sangrando muito, a alma sente muita sede.
— Isso de morrer sangrando é verdade — já tinha ouvido isso de pai — se o cabra morrer sangrando, só sossega se botarem água no pé da cruz pra alma beber.
Mas outro perguntava:
— Alma de rio?
— Sim! O povo diz que às vezes escuta zoada de água aqui, mesmo sem chuva… Deve ser a alma do rio.
— É costume! É que nem quando a gente escuta o sino, mesmo sem o sino estar tocando.
Mesmo assim, ficamos calados, prestando atenção ao silêncio, procurando fora da imaginação o som de água.