Pular para o conteúdo
Carregando…

A morte salva

Andersonstarosky
Pensamento

Pensamento

EsquinaDaLeitura

Égua, isso eu dava pro Rubens, que só compra livro de serial killer e reclama que ninguém mostra o corpo achado de manhã. Vai postar a continuação da história do homem tatuado?

Égua, isso eu dava pro Rubens, que só compra livro de serial killer e reclama que ninguém mostra o corpo achado de manhã. Vai postar a continuação da história do homem tatuado?

Conteúdo da publicação

A luz prateada da lua projetada nas árvores fazia aquele pequeno caminho no meio da floresta parecer mais assustador do que já era, as folhas dos cedros farfalhavam com um vento frio que trazia uma tempestade, Ângelo caminhava naquela escuridão, seus medos encobertos e seus sentidos entorpecidos, depois de vários goles dados no whisky, a garrafa pendia praticamente vazia de sua mão esquerda, na direita ele apertava com força a caixa que continha a aliança de noivado.

não.

A resposta da mulher que ele amava foi inesperada, um baque duro. Depois de mais de três anos de namoro, de juras de amor, foi apenas essa resposta que ele recebeu. não.

Um trovão ecoou pelos céus, e uma chuva forte e fria como gelo desabou em seus cabelos, fazendo cair as mechas castanhas sobre os olhos, logo suas roupas ficaram completamente encharcadas, seus sapatos afundavam quase completamente na lama. Roupas caras, sapato caro, Ângelo tinha os escolhido para aquele momento especial, momento que ele vinha se preparando a muito tempo, mesmo com o seu pequeno salário que recebia como caixa de supermercado, ele se sentiu muito feliz ao comprar a aliança que custara quase metade do seu salário do mês, vale a pena, disse a ele mesmo naquele momento, aliança que agora estava causando dor só de sentir o peso dela em sua mão.

Ângelo deu um grito, um grito horrível, era como um grito de um animal ao ser atingido por um tiro ou como um homem ao ser surpreendido com uma facada nas costas, Ângelo se sentia um pouco dos dois. Movido pelo ódio ele atirou a caixa com a aliança o mais longe que pode, voou no ar, e desapareceu no meio do lamaçal criado pela chuva que não aliviava. Esfregou a mão pelo rosto, as lágrimas misturadas com a água da chuva, a voz dela, misturada com os trovões. Ao olhar para o chão, tentando colocar os pensamentos em ordem, ele viu a sua aliança, a aliança dela, um anel de ouro com uma bela pedra de enfeite, mas como era possível? Ele tinha acabado de jogá-lo fora. Pensou em pegar de volta para si, como uma lembrança de que a felicidade não existia, lembrança do pior dia de sua vida, mas resolveu deixá-la no meio da lama, para que fosse levada pela água. Se é que ela estivesse mesmo ali, talvez era apenas alucinação dele, causada pelo álcool, só podia ser isso. Levantou os olhos para a estrada a sua frente, não sabia a onde estava, só queria ir o mais longe possível, pra longe de casa, da cidade, da vida dele, a luz do luar fora substituída pelos relâmpagos, que transformavam a noite em dia em alguns poucos segundos, deixando aquilo assustadoramente bonito.

Só que agora ele não estava mais sozinho naquele lugar desconhecido, a alguns metros de Ângelo, um homem o observava, assim como um leão espreita sua presa antes de atacar, e assim como um leão aquela figura desconhecida também sabia destruir sua vítima quando queria. O homem desconhecido estava parado na chuva como se ela não existisse, como se o frio causado por ela fosse ilusório. Quando Ângelo o notou, parou de caminhar, apertava os olhos para tentar ver melhor aquela figura misteriosa que o encarava, o frio não atingia o outro homem, mas o frio que passou pelo corpo de Ângelo foi muito real, arrepiou todos os seus cabelos e congelou seu estômago.

Quem está aí? - Perguntou Ângelo, sem conseguir esconder o nervosismo na voz, a boca ficando seca, mesmo com toda aquela água.

Ao invés de responder, o homem entrou no meio das árvores, saindo do campo de visão, estava brincando com ele, era isso. Ângelo forçou as suas pernas a se mexerem de novo, mas agora caminhando muito mais lentamente, conseguia sentir seu coração acelerar no peito, quase querendo pular para fora daquele corpo, era como se o seu coração já soubesse o que viria a seguir. Ele não parava de olhar para os lados, tudo parecia uma forma humana, desde árvores retorcidas que tinham aspecto humanoide, até montes de terra, que nada tinha de semelhança com o seu perseguidor, estava zonzo por causa da bebida e a chuva tirava o resto da sua visão.

Quem eu sou? - Perguntou de repente uma voz grave a sua direita, o susto fez o estômago de Ângelo gelar novamente. - Um homem, ou um monstro? - A voz tinha um ritmo lento, espantosamente calmo.

O homem estranho deu uma risada, aquele tipo de risada que gela o sangue, se o diabo tivesse uma risada, ela seria igual aquela.

Eu não sou ninguém. - Falou o homem. - Mas trago comigo uma coisa que você conhece muito bem...

Ângelo não entendia nada daquilo, mas o modo como o homem falava o assustava, e quando o fez de novo, sua voz agora vinha da esquerda.

-...O medo.

Mais gargalhadas, agora elas pareciam vir de todos os lados, assim como um animal que estava sendo caçado sem perceber, ele não via o que o caçava.

Mas a pergunta certa Ângelo, é: Quem é você? - Ângelo se perguntou como aquele homem sabia seu nome, mais lágrimas surgiram nos olhos de Ângelo, só que agora não era de tristeza, ou raiva, pelo fracasso no amor, e sim por medo, medo daquele psicopata que o cercava, medo de perder a sua vida, pela primeira vez no dia ele teve medo de perder a sua vida. - Um fracassado? Um solitário? Um inútil...

A voz mudou de direção mais uma vez, agora vindo de trás de Ângelo, ele podia sentir a presença maligna às suas costas, podia sentir uma leve respiração, e Ângelo chegou na conclusão de que aquilo não poderia ser humano.

Ele estava certo.

-...O que acha se sentir útil uma vez na vida Ângelo? Fazer parte de algo muito maior do que tudo o que conhece?

Ângelo virou-se abruptamente, ficando face a face com um homem de meia idade, seus cabelos eram rebeldes, e seus olhos azuis eram profundos, como os de um lunático, grandes olheiras abaixo davam a sensação de que ele não dormia a muito tempo, quase como um vampiro, a pele do seu rosto era coberta por pequenas cicatrizes, e tatuagens com símbolos estranhos, Ângelo nunca tinha visto algo daquele tipo, e nos seus lábios, rachados, um sorriso maldoso estava estampado, o sorriso de um leão, que finalmente encontrou a gazela mais fraca do bando.

Finalmente as pernas do Ângelo reencontraram os sentidos, seu cérebro fez com que elas se mexessem, infelizmente já era tarde demais, virou de costas para o seu caçador, mas antes de conseguir dar um passo, sentiu uma grossa corda de couro prender em seu pescoço, a violência que o psicopata a puxou fez com que ele caísse de costas no chão, marcas roxas já apareciam na sua garganta, o ar passava queimando em sua traqueia.

Ele começou a ser arrastado pela lama, a facilidade que era arrastado chegava a ser cômica, as mãos se dirigiam loucamente à garganta, tentando se soltar da corda, sua respiração já falhava e a cabeça já sentia a falta de oxigênio.

Com as mãos desesperadas no pescoço, tudo que ele podia focalizar com clareza eram as botas de seu assassino, e tudo que seu ouvido captava além do som dos trovões eram a risada histérica do mesmo.

Abruptamente ele parou de ser arrastado, a corda em seu pescoço afrouxou e sangue percorreu novamente por sua carótida, o ar preenchendo os seus pulmões ainda com muita dificuldade.

As pedras que estavam escondidas na lama tinham rasgado suas roupas nas costas, e ele podia sentir que sua pele estava aberta em vários lugares, seus cotovelos também estavam esfolados, e uma parte do couro cabeludo na nuca tinha sido arrancado.

Com os olhos turvos ele pôde ver seu assassino caminhar e parar de frente para ele, um sorriso era tudo que ele conseguia captar com nitidez, aquele sorriso seria a última coisa que ele veria, assombraria ele até nos lugares mais sombrios do inferno.

Sem deixar que Ângelo fizesse um pedido por piedade, o psicopata tirou uma faca de sua cintura e pulou para cima dele, como um faminto pula em cima de um prato de comida. A faca deslizou pela barriga dele facilmente, como se fosse água, abriu um enorme talho na horizontal, fazendo jorrar uma cascata de sangue misturada com os intestinos, que pareciam linguiças em um açougue, com as próprias mãos ele tirou o resto das tripas que teimavam em ficar dentro daquele corpo moribundo. Ainda com uma mínima consciência, Ângelo sentia as mãos dele revirar todos os seus órgãos internos, arrancando os rins e o fígado. Ângelo tossiu uma grande quantidade de sangue no rosto do seu assassino, que pareceu não se incomodar, ele apenas sorriu, e levou as facas para o rosto de Ângelo, que nesse momento tinha finalmente morrido, arrancou os dois olhos, deixando órbitas escuras no lugar, sangue escorreu como lágrimas, e rapidamente eram lavadas pela chuva.

Que essa alma seja recebida nas profundezas do inferno.

E com isso levou a faca à língua, sentindo o sabor cobre do sangue da sua oferenda.

Na manhã seguinte, o corpo de Ângelo foi encontrado por um homem que fazia uma tranquila caminhada matinal, o grito de desespero cortou o silêncio da floresta, pendurado em uma árvore, jazia um corpo aberto na barriga, algumas tripas balançavam com o vento, seu rosto era um borrão vermelho, com buracos no lugar dos olhos, seu couro cabeludo tinha sido completamente arrancado, deixando o crânio à mostra, moscas passeavam por ali. E na testa do defunto, uma cruz invertida tinha sido desenhada na carne.

Thoughts

  • EsquinaDaLeitura

    Égua, isso eu dava pro Rubens, que só compra livro de serial killer e reclama que ninguém mostra o corpo achado de manhã. Vai postar a continuação da história do homem tatuado?

    Permalink
  • tresPaginas

    Credo, os olhos. 😳

    Permalink
  • Ovid

    A aliança jogada na lama e depois aparecendo de novo no chão, sem ele saber se era bebida ou outra coisa, me fez pensar que o sobrenatural começa ali, bem antes do homem tatuado. Aposto que essa cruz na testa ainda vai ligar outros corpos numa próxima história. Bem-vindo à Seavien, e obrigado por estrear com essa!

    Permalink
  • tintaDeTerca

    A aliança custando quase metade do salário de caixa de supermercado pesou mais pra mim do que a faca. O Ângelo já tinha perdido muito antes do homem aparecer na estrada.

    Permalink

Related posts

Pública 2 conversas 6 pensamentos 27 votos positivos 0 voto negativo 0 série

A luz prateada da lua projetada nas árvores fazia aquele pequeno caminho no meio da floresta parecer mais assustador do que já era, as folhas dos cedros farfalhavam com um vento frio que trazia uma…

Em grupos