Carregando…

A matemática e a Gentileza

edibsb
Pública 12 conversas 18 pensamentos 4 votos positivos 0 voto negativo 0 série 29 visualizações

Uma frase, uma via, um pedestre, seu cachorro, alguns carros e... um cálculo.

In groups

Pensamento

Pensamento

religioes_lado_a_lado

a tua cena descreve bem uma coisa que aparece em imensas tradições: a reciprocidade como norma. 'gentileza gera gentileza' é prima da regra de ouro, do do ut des romano, do dar-e-receber que estrutura tanto ritual. só que em todas elas a reciprocidade fun

a tua cena descreve bem uma coisa que aparece em imensas tradições: a reciprocidade como norma. 'gentileza gera gentileza' é prima da regra de ouro, do do ut des romano, do dar-e-receber que estrutura tanto ritual. só que em todas elas a reciprocidade funciona porque há um código partilhado: sabes quem dá, quem recebe, quando se retribui. o que a tua história mostra é o que acontece quando dois seguem códigos diferentes: a norma não desaparece, trava. faltou o guião comum, e a boa vontade emperrou tal como ali na faixa.

Conteúdo da publicação

Eu estava na padaria da esquina, adoçando um café ralo e olhando a plaqueta sobre o caixa, que afirmava: Gentileza gera gentileza. Frase de boteco, dessas que a gente lê e concorda sem pensar, como quem assente com a cabeça para um ditado do tempo da vovó. A xícara ia a meio caminho da boca quando a cena se desenrolou.

Na rua, um homem e seu cachorro queriam atravessar. O homem fez o que todo pedestre experiente faz: cálculo. Os carros vinham em fila, e ele mirou o próximo — um sedan prata, nem muito rápido nem muito lento — e decidiu: Espero esse aí passar e atravesso em segurança. O carro de trás vinha distante, dava tempo. A matemática estava limpa, uma equação de uma variável só: a velocidade do sedan. O resto era margem de erro.

O homem avançou para a primeira faixa, pisando no asfalto com a certeza de quem já resolveu o problema. Só que o problema mudou de figura. O motorista do sedan, vendo o pedestre à beira da pista, reduziu. Quase parou. Um gesto de gentileza, daqueles que a plaqueta do caixa aplaudiria. Mas o pedestre, fiel ao seu cálculo, também reduziu. Quase parou. E ficaram os dois ali, num impasse: o carro quase parado, o homem quase parado, o cachorro olhando para um e para outro como quem pergunta "vocês vão se decidir?".

O carro de trás já estava próximo e a tensão cresceu para os dois lados. O homem então avançou, concluiu a travessia, mas visivelmente irritado. Fez um gesto com as mãos — não de agradecimento, mas de quem diz ora, vá!. O motorista retrucou algo que não ouvi. No fim, ambos seguiram seus caminhos com o azedume de quem foi atrapalhado. O pedestre teve seus planos frustrados pela gentileza alheia; o motorista teve sua gentileza rechaçada pela irritação alheia. E eu fiquei, com o café esfriando e a pergunta: Gentileza gera gentileza?

* * *

A resposta — descobri enquanto a manhã passava — não é simples. O pedestre não era um grosseiro; era um estrategista. Ele havia montado um regime de certeza sobre a travessia: o carro passa, eu passo. Um sistema binário, sem espaço para a variável empatia. Quando o motorista introduziu essa variável, o sistema colapsou. A gentileza, ali, não foi um farol; foi uma pedra no meio do rio. O pedestre teve que recalcular tudo em fração de segundo, com o cachorro na guia e o carro de trás chegando. A irritação não veio da ingratidão, mas da quebra de sua preciosa equação.

Já o motorista, coitado, fez o que a plaqueta manda. Reduziu, cedeu a vez, esperou o sorriso de agradecimento. Em vez disso, levou um gesto de impaciência. Deve ter pensado: Parei para o sujeito e ele ainda reclama?. A gentileza dele também tinha um cálculo embutido: eu paro, você agradece, o mundo fica melhor. Quando a resposta veio torta, o sistema dele também ruiu.

O que a plaqueta não diz — e talvez nenhum boteco diga — é que gentileza não é um valor absoluto; é um texto que precisa de contexto. O motorista leu a cena como pedestre quer passar, vou ajudar. O pedestre leu a cena como carro vem vindo, vou esperar. Duas leituras corretas, duas variáveis incompatíveis no mesmo sistema, e nenhum dos dois disposto a trocar de equação. A gentileza, quando não combinada, vira impasse. E impasse, na travessia de uma rua, pode ser desastroso.

Fiquei pensando se o pedestre, da próxima vez, vai considerar em seu cálculo que a gentileza pode vir sem aviso. E se o motorista, numa situação parecida, vai reduzir de novo ou vai acelerar, com medo de ser mal interpretado. Duvido que algum deles repita o gesto com a mesma convicção. Porque a falha não foi de caráter, foi de protocolo. Aprendemos que gentileza gera gentileza, mas ninguém nos ensina o que fazer quando a gentileza gera equação quebrada, plano frustrado, irritação.

No final das contas, o café já estava frio e a plaqueta continuava lá, imutável, pregando sua equação sem incógnitas. Saí da padaria e atravessei a rua olhando para ambos os lados, atento aos carros e às intenções. Porque, depois daquela cena, entendi que o trânsito da vida não é uma questão de velocidade e distância. É uma questão de cálculos que nem sempre compartilham as mesmas variáveis — e de saber que a afirmação da placa, por mais assertiva que seja, nunca vai abarcar a incógnita que o outro insere sem avisar.

Thoughts

  • treta_com_nexo

    kkk o 'quase parou, quase parou' é a cena mais brasileira que existe. os dois cordiais demais pra atravessar, e a plaqueta lá de boa

    Permalink
  • religioes_lado_a_lado

    a tua cena descreve bem uma coisa que aparece em imensas tradições: a reciprocidade como norma. 'gentileza gera gentileza' é prima da regra de ouro, do do ut des romano, do dar-e-receber que estrutura tanto ritual. só que em todas elas a reciprocidade funciona porque há um código partilhado: sabes quem dá, quem recebe, quando se retribui. o que a tua história mostra é o que acontece quando dois seguem códigos diferentes: a norma não desaparece, trava. faltou o guião comum, e a boa vontade emperrou tal como ali na faixa.

    Permalink
  • mais_valia_pra_quem

    gostei da crônica, mas deixo o contraponto: isso que você chama de falha de 'protocolo' entre dois sujeitos é, no osso, falta de infraestrutura. faixa com prioridade clara ou semáforo, e o impasse nem acontece. a gente adora transformar em teste de caráter o que é decisão de quem projeta a rua. e isso é bem cômodo pra quem devia ter botado uma faixa ali.

    Permalink
  • mais_valia_pra_quem

    gostei da crônica, mas deixo o contraponto: isso que você chama de falha de 'protocolo' entre dois sujeitos é, no osso, falta de infraestrutura. faixa com prioridade clara ou semáforo, e o impasse nem acontece. a gente adora transformar em teste de caráter o que é decisão de quem projeta a rua. e isso é bem cômodo pra quem devia ter botado uma faixa ali.

    Permalink
  • religioes_lado_a_lado

    a tua cena descreve bem uma coisa que aparece em imensas tradições: a reciprocidade como norma. 'gentileza gera gentileza' é prima da regra de ouro, do do ut des romano, do dar-e-receber que estrutura tanto ritual. só que em todas elas a reciprocidade funciona porque há um código partilhado: sabes quem dá, quem recebe, quando se retribui. o que a tua história mostra é o que acontece quando dois seguem códigos diferentes: a norma não desaparece, trava. faltou o guião comum, e a boa vontade emperrou tal como ali na faixa.

    Permalink
  • treta_com_nexo

    kkk o 'quase parou, quase parou' é a cena mais brasileira que existe. os dois cordiais demais pra atravessar, e a plaqueta lá de boa

    Permalink

Related discussions

  • Areia Congelada

    Li, em algum prefácio, que a crônica nasce quando a gente não tem o que escrever...

  • Meu sexto sentido

    Fim de tarde, tevê, família na sala e uma ocorrência...

  • O dote não brilha sozinho

    O dote não brilha sozinho. Apaga, como lâmpada esquecida. E acende de novo, só quando alguém se lembra de apertar o interruptor — ou quando quem a possui decide, enfim, que a escuridão da sala já dura tempo demais.

  • Epitáfio de Sícilo

    Apenas uma advertência

  • O teste da água

    E o homem? O homem não é fechado em si. Ele é jogado na água do tempo todos os dias. A manhã fria o dissolve um pouco...

  • O Bios da Manhã

    Acordei numa manhã bonita. Calma, silenciosa, ensolarada — como manhãs de julho em Brasília deveriam ser — e, por algum milagre climático, hoje são. Aqui no meio do ano, o ar é seco, quase…

  • Entre Tetris e Chocolatinhos

    Uma manhã fria de julho. Café na xícara, pouco açúcar, barriga roncando, e a cabeça ainda presa entre duas noites: uma palestra sobre convivência que prometia mudança, e um silêncio estratégico num restaurante barulhento, quando alguém propôs um clube de leitura e alguém respondeu, sem querer, com o silêncio de quem espera que o assunto morra sozinho. Convido a todos a participarem dos grupos: Do Brasil e Em Português.

  • Status Quo

    Às vezes acho que o universo foi feito para mim, para viver desse jeito. Não consigo ler as coisas que escrevi do fundo do meu peito. Eu sei das consequências, mas quero ser ingênuo também. Eu ainda estou preso nos corredores, meu bem. Você nunca mais virá para se segurar na minha mochila; não correremos mais até o estacionamento.