Nao entendo nada de casamento de oito anos, to so lendo. Mas essa historia de ficar com quem ta testando outras opcoes eu sei como e.
A geometria dos afetos.
Quando completamos oito anos de casados, comemoramos com um almoço em família. Minha mãe, ao nos cumprimentar, comentou que havíamos vencido a crise dos sete anos. Não sei se existem estatísticas…
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Nao entendo nada de casamento de oito anos, to so lendo. Mas essa historia de ficar com quem ta testando outras opcoes eu sei como e.
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Quando completamos oito anos de casados, comemoramos com um almoço em família. Minha mãe, ao nos cumprimentar, comentou que havíamos vencido a crise dos sete anos. Não sei se existem estatísticas reais sobre isso, mas o folclore popular diz que o sétimo ano é o que mais separa casais. Vencê-lo parecia um marco digno de nota.
Minha mãe acrescentou, entre risos, que era uma vitória pessoal eu estar há tanto tempo com a mesma pessoa, já que eu era famoso por ter tido muitos namoros e alguns bem breves. Regina, minha esposa, respondeu de prontidão: "É porque ele finalmente encontrou a pessoa certa, o amor verdadeiro". Ela me olhava com paixão. Os olhos da minha mãe também buscaram os meus, mas com um ar de indagação. Ela sabia que a realidade era mais complexa.
Helena era o fantasma daquela conversa — a grande paixão da minha vida. Dizem que a primeira a gente nunca esquece, e no meu caso é a mais pura verdade. Já a teoria de que só se ama uma vez não funcionou comigo; amei ou me apaixonei muitas vezes, embora eu ainda me confunda na fronteira entre amor e paixão. O fato é que nunca a esqueci, e nenhuma outra ocupou aquele molde exato.
Mas Helena não foi a mais bonita. O topo da beleza estética pertenceu à Stéfani, embora os traços dela só tenham me cativado tardiamente, muito após o término. A beleza que realmente roubou minha atenção, e pela qual lutei para conquistar, foi a de Letícia; aos meus olhos, era a estética que eu mais gostava de ter ao lado.
Houve também o ápice físico, Lígia — dona de um corpo sensacional que me exigia autocontrole constante para não demonstrar excitação. Mas o melhor sexo foi com Ísis; mesmo sem um físico chamativo, ela tinha o magnetismo exato para me enlouquecer.
E havia Sofia, a dona dos melhores papos. Se a regra do casamento exige que eu pratique apenas com a atual, o que me cativava nas ex, eu precisaria manter distância de Sofia. Eu me perderia facilmente em conversas com ela. Sofia era também meu GPS, tanto localizando caminhos pela cidade quanto me guiando nas curvas da vida. Pela afinidade e pela lógica racional, ela seria a escolha perfeita para um futuro a dois. O problema foi a falta de faísca na cama. O sexo não era ruim, mas eu estava intoxicado pela intensidade animal de Lígia e Ísis. Sentindo falta desse fogo, acabei a traindo. Não me justifico, mas penso que, com um pouco mais de tempo, eu teria amadurecido para me limitar apenas a ela. Ou talvez não.
Depois veio o inverno das "ficadas", que minha mãe chamava de namoros breves. Eu me envolvia com mulheres que preferiam o desapego, mas aquilo me cansava. É desgastante se conectar com alguém que está testando outras opções simultaneamente, como quem avalia candidatos em uma seletiva.
Foi quando decidi pausar o campo afetivo que Regina cruzou meu caminho. O papo com ela era ótimo — não o labirinto intelectual de Sofia, mas muito bom. Não tinha o corpo de Lígia, mas mexia comigo. Não era o vulcão de Ísis, mas era quente. Não ostentava a beleza de Letícia ou Stéfani, mas era linda. Não destronou Helena como grande paixão, mas me apaixonei por ela. Regina não vencia em nenhum quesito isolado, mas o equilíbrio do seu conjunto a tornava imbatível.
Para explicar o que ela significa, penso no meu carro atual. É o veículo mais novo que já tive, meu primeiro "zero km". Não é o modelo dos meus sonhos, nem o mais potente que pilotei, nem no qual mais investi. Mas é o carro que escolhi, que me atende perfeitamente e do qual gosto muito. Claro que uma parceira de vida não é um bem de consumo descartável; ela é parte de quem sou. E Regina tem essa virtude: ela é a parceria real. Não é perfeita, mas nunca decepciona — assim como eu, que passo longe da perfeição.
Não sei se ocupei o topo em alguma categoria na vida das mulheres que passaram por mim. Certamente encantei e decepcionei na mesma medida. Minha luta atual é não repetir os velhos erros com a única mulher que enxergou qualidades para me acolher. De certa forma, Regina se tornou o amor da minha vida exatamente por ser a pessoa certa para o mundo real. Não vejo motivos para não apostar no "até que a morte nos separe". E que ela demore. Que venham mais oito anos, e outros oito, número que, aliás, se deitado, forma o símbolo do infinito. ♾️ Que seja eterno enquanto dure. 🥂
Thoughts
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PermalinkNao entendo nada de casamento de oito anos, to so lendo. Mas essa historia de ficar com quem ta testando outras opcoes eu sei como e.
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PermalinkO inverno das ficadas é bom nome para aquilo. Estar com quem anda a ver o resto do catálogo ao mesmo tempo cansa de uma maneira parva, e ninguém avisa disso a ninguém.
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PermalinkAs categorias arrumam bem a coisa no papel e depois há a vida toda que não cabe em tabela nenhuma. Vinte e sete anos com a mesma pessoa e o que me fica não é o topo de nada, é a terceira ou quarta vez em que aquilo esteve quase a ir abaixo e não foi. Houve um ano, por volta dos 38, de que falo com poucas palavras. Aposto que a Regina tem a lista dela e que tu não estás em primeiro em linha nenhuma.
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PermalinkGostei da sua mãe calada do outro lado da mesa, sabendo o resto e não dizendo nada. Pai e mãe ficam nesse lugar mesmo, moço, olhando de fora.
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PermalinkOito anos juntos e a tua mãe ainda traz os namoros curtos para a mesa do almoço. Aposto que já tens a versão curta decorada para quando o assunto aparece.
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PermalinkA sua mãe procurando os seus olhos naquele almoço ficou comigo, aquele jeito de quem já sabe o resto. Onde dá pra ler mais sobre a Helena?
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PermalinkA Regina não vencer em nenhum quesito isolado e mesmo assim ser imbatível me fez pensar em como essa conta só fecha muitos anos depois, nunca no meio dela. Aposto que a sua mãe, do outro lado da mesa naquele almoço, já tinha feito a conta bem antes de você. Que venham os outros oito!
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