Depois da hiena e do rio, agora uma fábula quase receita: máscara, janela fechada, olho nas formigas! Aposto que tem alguém de verdade por trás dessa menina que espirra em toda primeira chuva.
A doença do cheiro de terra molhada.
Pensamento
Depois da hiena e do rio, agora uma fábula quase receita: máscara, janela fechada, olho nas formigas! Aposto que tem alguém de verdade por trás dessa menina que espirra em toda primeira chuva.
Conteúdo da publicação
Havia, numa aldeia cercada por árvores antigas, uma menina que tinha medo da primeira chuva.
Não da chuva miúda que caía depois de muitas outras, nem das tempestades que faziam os galhos dançarem no céu. O que ela temia era aquela primeira chuva que chegava depois de longos dias de calor, quando a terra parecia adormecida sob o sol.
Sempre que ela vinha, a menina adoecia.
Certa vez, cansada de sofrer, a menina abriu a janela e falou com as nuvens:
— Chuva, por que me adoeces? Todos esperam por ti com alegria, mas quando chegas, meu corpo se entristece.
Uma gota pousou em sua mão e respondeu:
— Pequena, não me culpes pelo que acontece depois que caio. Eu apenas desperto aquilo que dorme na terra.
A menina franziu a testa.
— O que dorme na terra?
— Pergunte a ela.
Na manhã seguinte, a menina correu até o jardim. A terra ainda guardava o perfume da chuva da noite anterior.
Ela se ajoelhou e perguntou:
— Terra, por que teu cheiro me faz adoecer quando és tocada pela primeira chuva?
A terra estremeceu sob suas pequenas mãos.
— Porque meu ventre guarda uma multidão de criaturas invisíveis. Elas vivem comigo, alimentam minhas raízes, transformam folhas mortas em alimento e cuidam dos segredos que existem debaixo dos teus pés. Quando a primeira chuva chega depois de muitos dias de calor, ela desperta esse pequeno povo escondido. E o vento leva parte desse despertar para o mundo.
— E meu corpo não gosta deles?
— Talvez teu corpo seja apenas mais sensível aos meus segredos — respondeu a terra. — Mas não precisas ter medo de mim. Precisas aprender a me ouvir.
— Como?
A terra respondeu:
— Eu aviso quando a primeira chuva está próxima.
A menina arregalou os olhos.
— Avisas?
— Sim. O céu começa a vestir seu manto cinzento. O vento muda de voz. As folhas se agitam de maneira diferente. As formigas recolhem seus caminhos. Os pássaros procuram abrigo. O ar se torna pesado, como se carregasse uma promessa. E, às vezes, antes mesmo de uma gota cair, podes sentir no mundo aquele silêncio estranho que antecede a chuva.
— E quando eu perceber todos esses sinais?
— Não esperes teu corpo adoecer para começar a cuidar dele.
— O que devo fazer?
— Afasta-te do solo quando ele começar a despertar. Fecha as janelas se o vento trouxer o perfume da terra para dentro de casa. Protege teu rosto e tua respiração. E, se já sabes que a primeira chuva te faz mal, coloca uma máscara antes que a chuva chegue. Aprende também a reconhecer quando teu corpo precisa de ajuda.
A menina ficou pensativa.
— Então posso me proteger antes de ficar doente?
— É justamente isso que quero te ensinar — respondeu a terra. — Há quem só procure abrigo quando a tempestade já está sobre a cabeça. Mas os sábios observam o horizonte.
Desde aquele dia, a menina passou a prestar atenção aos sinais.
Certa tarde, depois de muitos dias de calor, percebeu que as folhas das árvores haviam começado a se mover. O céu escurecia lentamente. As formigas desapareciam pelas frestas do chão. Os pássaros voavam para os galhos mais protegidos.
Então ela ouviu um trovão distante.
— É ela — sussurrou. — A primeira chuva.
A menina correu para casa, colocou sua máscara e fechou as janelas.
Pouco depois, a primeira gota caiu.
Depois outra.
E outra.
Até que o céu inteiro se abriu.
A chuva beijou a terra, e a terra devolveu ao mundo seu perfume antigo. As sementes despertaram, as folhas beberam, os rios começaram a cantar e o jardim inteiro pareceu respirar.
A menina permaneceu protegida junto à janela.
Naquela noite, não adoeceu.
Olhou para a terra molhada e sorriu.
— Eu não precisava ter medo da chuva. Só precisava aprender a escutar os seus avisos.
E a velha terra, escondida sob as flores, respondeu:
— A natureza fala antes que as coisas aconteçam. Feliz é aquele que aprende a escutar.
Desde então, a menina nunca mais esperou a doença chegar para lembrar-se da própria saúde.
E assim descobriu uma das mais antigas sabedorias do mundo:
Quem só procura cuidado depois que adoece chega tarde ao próprio corpo. A prevenção começa quando aprendemos a reconhecer os sinais antes que a dor bata à porta.
Thoughts
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PermalinkO cheiro tem nome e data: petricor, cunhado em 1964 por Isabel Bear e Richard Thomas, na Austrália.
E o povo invisível que a terra descreve existe mesmo, para mim é a melhor parte: bactérias do género Streptomyces, que libertam a geosmina. O nariz humano apanha-a em quantidades ínfimas e isso torna a menina plausível.
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Havia, numa aldeia cercada por árvores antigas, uma menina que tinha medo da primeira chuva.