A Letícia a sangrar sem dor e sem grito, e a ficar sentada morta no chão, é a morte mais calada que li em muito tempo. Ninguém corre para ela. Estão todos ocupados com a coisa na cama. Foi essa indiferença forçada que me ficou, mais do que o pescoço do João.
A casa
A CASA -
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Pensamento
A Letícia a sangrar sem dor e sem grito, e a ficar sentada morta no chão, é a morte mais calada que li em muito tempo. Ninguém corre para ela. Estão todos ocupados com a coisa na cama. Foi essa indiferença forçada que me ficou, mais do que o pescoço do Jo
Conteúdo da publicação
A CASA -
O mundo não acabou com bomba.
Acabou com milho.
Safra nova. Mais amarela, mais barata. O governo liberou. Todo mundo comeu. Três dias de febre, depois uma fome que não passava. Olho branco. Depois mordida.
Em oito meses não tinha mais civilização. Só milharal. Alto, seco, podre, e gente andando torto no meio dele.
Eles eram seis correndo pelo milharal.
O milho cortava o rosto. O chão era banhado, o pé afundava.
Marcos com a barra de ferro. Ana com a foto do filho colada com durex no peito. Rafael, irmão do Marcos. João, 61, agricultor. Letícia, grávida de cinco meses. E o Lucas, 18, magrelo, quieto. Tampinha.
Atrás, o milharal se mexia sozinho. Centenas quebrando espiga.
No topo do morro, uma casa. Dois andares. Madeira escura. Em volta dela, o milharal não crescia. Círculo perfeito de terra morta.
Correram. Saíram do milho pro pátio.
A horda chegou na borda e parou. Não entrou. Ficaram ali, ganindo, com medo da terra.
A porta da casa abriu sozinha.
Eles entraram.
Lá dentro cheirava mofo e milho podre. João parou no meio da sala. Olhou as vigas. A janela. O fogão a lenha.
Os olhos foram arregalando.
— Cacete… eu sei onde estamos…
Não terminou.
CRACK.
O pescoço virou 180 graus sozinho. Sem ninguém encostar. O corpo caiu em cima de um álbum no chão.
Ninguém gritou. Só olharam.
Aquilo não era zumbi.
Ana se ajoelhou, mas não tocou. Marcos apertou a barra até os dedos ficarem brancos. Tampinha ficou olhando o álbum.
Capa rosa desbotada. LÚCIA, 9 ANOS.
Fotos de menina de vestido branco. Depois careca, na cama, com manchas pretas na pele.
Recortes com durex amarelo:
FILHA DE FAZENDEIRO CONTRAI DOENÇA DESCONHECIDA – AUTORIDADES ISOLAM LOCAL
PAI PROMETE RECOMPENSA – MÉDICOS NÃO SABEM O QUE É
Em volta, livros. Encantos. Magia negra. Exorcismos que a Igreja escondeu. Tudo sublinhado com letra tremida.
No fundo de um baú, um saco de estopa. Semente. A primeira safra. Cheirava enxofre.
Rafael encarou o saco. Oito meses sem comer nada direito. O cheiro de enxofre virou cheiro de pamonha na cabeça dele. Tranxe de fome.
— Milho… — ele riu, babando — faz um ano...
Marcos tentou segurar. Não deu. Rafael enfiou um punhado na boca e mastigou desesperado.
Dez minutos.
Suou. Vomitou sangue preto. Olho ficou branco.
Avançou na Ana. Marcos não hesitou. A barra desceu duas vezes. Som úmido.
Ninguém falou o nome dele.
O assoalho cedeu. Um buraco preto no meio da madeira.
Desceram os quatro.
Lá embaixo, um quarto que não deveria existir. Mesa. Vela acesa sozinha. Livro de couro preto. E na cama de ferro, uma menina amarrada com cordas grossas cheias de orações costuradas.
Acordada. Sorrindo.
Tampinha pegou o livro.
"Eu, Afonso, minha Lúcia morta. Tentei padre. Tentei médico. Tentei Deus. Nada. Então chamei o que Deus esqueceu. Ele veio. Trouxe ela de volta. Mas trouxe fome. A fome entrou no milho. O milho que vendi ao João."
— Vê meus soldados no milharal? — a voz dela era dupla, de homem e criança — Não entram porque têm medo do patrão.
Olhou as cordas.
— Solta. Eu deixo viver. Trago quem você ama, Ana. Trago o Davi.
Ana engatinhou chorando. Marcos puxou o braço dela.
Letícia, no canto, com a mão na barriga, começou a sangrar. Sem dor. Sem grito. Só escorreu e sentou morta no chão. O bebê dentro.
A coisa olhou pro Tampinha.
— Um padreco? Vai morrer virgem?
Tampinha fechou o livro. A casa tremeu.
— O Pai te espera de braços abertos.
O sorriso sumiu.
— NÃO! MISERICÓRDIA!
Clarão dourado. Grito de gente. Depois silêncio.
Na cama, só Lúcia. Morta. Em paz.
Lá fora, o milharal parou. A horda caiu entre as espigas, morta de verdade.
Subiram. Saíram. Atravessaram o milharal morto até a BR.
Na intercessão, duas placas tortas:
UNIÃO DA VITÓRIA 47 KM ->
<- CURITIBA 320 KM
— Vem com a gente, Tampinha...
— Não. Vou encontrar minha família agora.
— Como sabe?
— Eu sei...
Abraço. Adeus.
Marcos e Ana sumiram na reta.
Tampinha ficou sozinho no cruzamento. Olhou pro céu.
O vento levantou a poeira branca do acostamento. A poeira subiu pelas costas dele e virou duas asas enormes, angelicais.
Um clarão.
E a estrada ficou vazia.
FIM.
Thoughts
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PermalinkMenino, essa moça amarrada na cama de ferro com corda cheia de oração é igualzinha a história que minha avó jurava ser verdade. Ela dizia que corda benta segura o que entrou, mas não tira.
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PermalinkO milho não pega num círculo à volta da casa, e foi isso que me andou na cabeça o dia todo.
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PermalinkÉgua, tem um motoboy que para aqui toda tarde e só lê coisa de zumbi, e eu já separei essa pra ele! Ele vai curtir o pedaço em que a horda chega na borda do pátio e não entra, ganindo com medo da terra. Vive dizendo que zumbi bom é zumbi que tem medo de alguma coisa.
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PermalinkGostei que o fim do mundo começa numa safra liberada pelo governo, barata e amarela demais, todo mundo comendo sem perguntar.
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PermalinkO João olha as vigas e sabe onde está, e morre antes de terminar. O livro do Afonso diz depois quem comprou a semente. Tu já sabia disso quando escreveu a morte dele?
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PermalinkA Letícia a sangrar sem dor e sem grito, e a ficar sentada morta no chão, é a morte mais calada que li em muito tempo. Ninguém corre para ela. Estão todos ocupados com a coisa na cama. Foi essa indiferença forçada que me ficou, mais do que o pescoço do João.
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PermalinkO círculo de terra morta em volta da casa, onde nem o milho entra, me fez pensar nos lugares que todo mundo de uma cidade sabe que é melhor não chegar perto. Aposto que essa imagem veio antes do resto da história. Gostei também de ninguém gritar quando o João cai.
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PermalinkLevei um tempo pra sacar que o Afonso era o pai da menina e que a semente saiu dali de dentro. Quando caiu a ficha do saco de estopa, foi pior do que o pescoço do João virando.
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