A CARTA DE ALETHEIA, APÁTE E MEFISTO
Arcano sem número: O Poeta Desvelado
Hoje, Aletheia me encontrou.
Ela abriu as portas que passei uma vida inteira mantendo trancadas
e colocou a verdade diante dos meus olhos.
Hoje eu vejo a verdade.
Hoje eu sou a mentira.
E, enquanto Aletheia rasga meus véus,
Apáte costura outros sobre minha pele.
Ela sussurra:
“Finja.”
Então eu finjo.
Amanhã, talvez, eu seja a tristeza.
Mas, para aqueles que amo,
eu vestirei novamente a máscara da alegria.
Ninguém precisa conhecer o abismo
quando eu aprendi a decorá-lo com flores.
Mefisto observa.
Sentado no trono entre a verdade e o engano,
ele embaralha as cartas do meu destino
e pergunta:
“Quanto de você está disposto a perder
para finalmente descobrir quem é?”
Eu não respondo.
Porque talvez já tenha perdido demais.
Sou um poço de desespero
com a mente beirando a epifania.
Procuro a luz nas palavras da poesia,
mas minhas próprias palavras
parecem nascer de lugares onde o sol morreu.
Então escrevo.
Escrevo para esquecer.
Escrevo para lembrar.
Escrevo para arrancar de mim
cada pedaço da antiga dinastia
que governa meus pensamentos.
Cada verso é uma ruína.
Cada palavra, uma lâmina.
Cada poema, uma pequena tentativa
de encontrar minha própria ambrosia.
Mas como encontrar aquilo que alimenta os deuses
se eu sequer reconheço o rosto
da criatura diante do espelho?
Eu não me conheço.
Eu não me reconheço.
Eu me descubro.
Eu me testo.
Eu falho.
Miseravelmente.
E volto a tentar.
Como alguém condenado a percorrer
o mesmo labirinto
até aprender que o monstro no centro
sempre foi ele mesmo.
Não sei onde estou.
Não sei o que estou fazendo.
Não sei qual caminho é meu.
Só sei que estou perdido.
E, pela primeira vez,
tenho coragem de dizer:
eu preciso de ajuda.
Aletheia sorri.
Apáte chora.
Mefisto permanece em silêncio.
E então escrevo uma carta
para um velho poeta
que talvez exista somente dentro de mim.
Digo a ele:
“Eu vejo a música como aquilo que fui.
Vejo as palavras como minha magia.
Vejo meus versos como pequenos feitiços
lançados contra o esquecimento.”
E, perdido entre pensamentos,
desço até as profundezas do meu subconsciente.
Lá encontro alguém.
Sou eu.
Mas é o eu que perdi.
O eu que ria sem precisar esconder a tristeza.
O eu que acreditava.
O eu que sonhava.
O eu que ainda sabia seu próprio nome.
E sinto falta dele.
Talvez essa seja minha maior assombração:
não sentir falta de alguém que partiu,
mas sentir falta
de quem eu mesmo fui.
Pelos amigos que tenho hoje,
eu continuo caminhando.
Pelos amores que perdi,
procuro respostas nas estrelas.
E por aqueles que já partiram,
mantenho os braços abertos.
Ofereço abrigo aos fantasmas.
Dou morada às lembranças.
Guardo os mortos
como quem guarda relíquias sagradas.
Mas então Aletheia me pergunta:
“E você?”
E eu não sei responder.
Porque tenho braços para acolher aqueles que partiram,
mas nunca aprendi a usá-los
para me abraçar.
Tenho um refúgio para todos,
menos para mim.
E talvez seja por isso
que continuo perdido.
Será que alguém poderia me defender?
Ou terei de levantar sozinho
mais uma vez?
Mefisto coloca uma carta sobre a mesa.
Não existe nome nela.
Apenas um espelho.
Olho para ele.
Apáte aparece atrás de mim
e cobre meus olhos.
Aletheia segura suas mãos
e as afasta.
Então finalmente compreendo:
não preciso escolher entre a verdade e a mentira.
Preciso descobrir
por que precisei da mentira
para sobreviver à verdade.
E talvez essa seja a verdadeira carta.
O verdadeiro arcano.
A resposta que eu procurava
não estava no destino.
Estava em mim.
Então continuo.
E continuo.
Porque, se eu não lutar
para descobrir quem sou,
quem fará isso por mim?
Para todos aqueles que caminham comigo,
eu ofereço meu coração.
Para aqueles que se colocaram contra mim,
deixo que o tempo seja o juiz.
Um por todos.
Todos por um.
Contra todos.
E, às vezes,
contra mim mesmo.
De meu singelo coração,
retiro estas palavras
como quem retira uma última carta
do fundo do baralho.
Quebrem-me.
Rasguem minhas certezas.
Pulverizem os nomes
que já não me pertencem.
Deixem partir aquilo que preciso deixar partir.
Mas, antes que o silêncio me encontre,
peço apenas uma coisa:
conte-me uma mentira.
Diga que eu sou amado.
Diga que ainda existe lugar para mim
neste mundo.
Diga que não preciso ser perfeito
para merecer permanecer.
Talvez seja mentira.
Talvez seja Apáte falando.
Talvez seja Aletheia
disfarçada de mentira
porque ainda não consigo suportar
a verdade inteira.
Mefisto então vira a última carta.
Nela não há demônios.
Não há deuses.
Não há destino.
Há apenas um nome.
O meu.
E, pela primeira vez,
eu não desvio os olhos.
Porque talvez a última coisa
que eu precise ouvir
não seja uma mentira sobre a morte,
mas uma verdade sobre a vida:
“Você ainda está aqui.”
E talvez,
por enquanto,
isso seja o suficiente....