A caixinha. Uf.
A Caixinha das Três da Manhã
Série (Crônicas)
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A caixinha. Uf.
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Série (Crônicas)
Era de madrugada. Minha filha mais velha está com três anos e tenho outra menina linda, de cinco meses. Era a segunda noite que a mais velha acordava gritando, com o coração disparado, chorando como se algo a estivesse machucando. Os gritos eram altos, o choro era desesperado. Quinze minutos depois, ela se acalmava. Como ela ainda está na fase de poucas palavras — aquela em que a criança te olha, escuta e entende, mas não responde (e, se responde, é com vocabulário restrito ou ecolalias) —, a pergunta tem que ser muito específica para que ela reaja.
— Você teve um sonho ruim? Quer contar para a mamãe?
Ela não respondeu. Apenas me abraçou para voltar a dormir no meu colo. Meu marido, parado na porta com a outra bebê nos braços, perguntou:
— Marcou a pediatra?
— Sim, é para hoje à tarde.
Mais tarde, após a sessão de terapia, a psicóloga relatou que ela não havia apresentado nenhuma alteração de comportamento; estava igual. "Tentei fazer com que ela demonstrasse algo, mas não tive êxito", explicou a profissional. Decidimos, então, levá-la à pediatra à tarde para verificar se não era algo físico.
— Ela não tem nada físico, está tudo certo — disse a médica na consulta.
Agradecemos e saímos do consultório aliviados, porém intrigados. A escola, por sua vez, respondeu que não havia nada acontecendo fora do normal na sala de aula.
Outra madrugada. Três da manhã e mais choros, gritos, desespero. As crises estavam ficando piores a cada noite. No dia seguinte, conversei novamente com a psicóloga:
— Pode ser terror noturno, vamos tentar descobrir. Por aqui, na terapia, ela parece normal. Se você não me contasse o que acontece à noite, eu não teria como saber, pois aparentemente ela está bem.
— Ela não assiste à TV e não tem amigos fora do nosso convívio, só na escola. Mas por lá a professora disse que está tudo bem. Como ela pode ter terror noturno? — questionei. A psicóloga não soube responder.
Mais uma noite em claro. Os episódios estavam muito piores. Ela gritava muito, chorava, o coração batia acelerado, a respiração ficava rápida e ofegante. Uma verdadeira crise de pânico. Depois de vinte minutos, ela parava, me abraçava e dormia. Continuava sem responder às minhas perguntas enquanto eu tentava, desesperadamente, descobrir o que estava acontecendo.
Dez dias se passaram e os terrores continuavam.
— Vamos ter que marcar uma consulta com o neuropediatra. Ela vai precisar ser medicada, ou teremos que levá-la ao pronto-socorro todas as noites. As crises estão piorando, às vezes acho que ela vai desmaiar — disse meu marido.
A psicóloga concordou:
— Ela vai precisar ser medicada. As crises estão ficando piores e ela já começa a apresentar fisicamente o estresse psicológico. Ela está tendo crises de ansiedade e terror noturno, e só tem três anos. Não estamos conseguindo achar a origem do problema.
Mais uma madrugada. A crise veio às três da manhã. Após o episódio, eu a peguei no colo, abracei-a e a coloquei sentada na cama, de frente para mim. Meu marido estava na porta, com a nossa outra bebê.
— Tem alguma coisa muito importante acontecendo, e a mamãe queria muito entender... — falei, segurando as lágrimas para não chorar na frente dela. — Fala para a mamãe: o que faz você sentir medo?
Ela olhou para mim com os olhinhos inchados de tanto chorar, mas ficou em silêncio. Então, sugeri:
— Você pode fazer na mamãe o que te deixa com medo.
Ela continuou me olhando. Em seguida, levantou-se, me abraçou e me beijou perto da boca. Fiquei processando o que ela havia feito.
— É isso que te deixa com medo? — perguntei.
Ela acenou com a cabeça, dizendo que sim.
— Você consegue dizer para a mamãe quem é que está fazendo isso com você?
Ela disse o nome de um menino. Como minha filha tem um QI acima da média, estava em uma turma com crianças maiores, de cinco anos. Na mesa que ela dividia, havia esse menino que a abraçava e beijava na sala de aula o tempo todo.
Às cinco da manhã, meu marido já estava vestido e com as chaves do carro nas mãos, apenas esperando o relógio bater sete horas para ir à escola conversar com a direção.
A psicóloga nos explicou: crianças neurodivergentes não processam os sentimentos como as pessoas neurotípicas. O que acontecia na sala gerava um desconforto muito grande, mas ela não conseguia verbalizar ou reagir na hora. Ela guardava aquele desconforto "em uma caixinha" e, às três da madrugada, a caixa se abria e o sentimento transbordava. Eram as crises de ansiedade, os gritos de desespero, o coração acelerado.
A escola não foi receptiva, tampouco teve empatia. Meu marido foi ouvido, mas não resolveram o problema. Mais dois dias se passaram, resultando em mais duas madrugadas de crises. Tivemos outra reunião, na qual a coordenadora justificou:
— Ele é uma criança afetuosa. Não posso proibi-lo de abraçar outra criança só porque vocês não querem. Ele não faz por maldade, é apenas uma criança. Vocês estão fazendo uma tempestade em copo d'água. Ele abraça e beija a sua filha de uma maneira afetuosa, e a sua filha é muito bonita, loirinha, de olhos azuis. Ele a chama de boneca, ele não faz por maldade.
Eu fui incisiva:
— Eu quero que o troquem de mesa, que coloquem uma professora para impedir isso e que enviem um recado para os pais dele. A senhora me desculpe, eu sei que ele é uma criança, mas a minha filha não gosta das interações físicas dele. Eu quero que isso acabe. Vou lhe dizer uma frase bem dura, mas escute com atenção: se você perguntar a um estuprador por que ele faz o que faz, ele vai dizer que é porque gosta. Mas já experimentou perguntar para a vítima se ela gosta? Eu vou à casa dos pais do menino e vou trocar minha filha de escola se vocês não resolverem.
Foi um embate desgastante com a coordenação e a direção. A psicóloga da minha filha precisou fazer uma reunião com eles para explicar a situação clinicamente. Só assim aceitaram trocar o menino de mesa e colocar um monitor para impedir o contato físico dele com ela. Não troquei de escola imediatamente porque a psicóloga orientou a não fazer isso; já era quase final do ano e, se o menino fosse contido, minha filha superaria o ocorrido. Eles, de fato, separaram as mesas e colocaram alguém para impedir o contato físico. De fato, com a mudança do menino de mesa e a presença do monitor, as crises da minha filha acabaram.
No final do ano, trocamos de escola.
Thoughts
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PermalinkO menino tem cinco anos e ninguém aqui precisa fazer dele vilão. A falha foi dos adultos da escola, que ouviram o pai na primeira reunião e deixaram passar mais duas madrugadas. E ainda acharam de falar da cor do olho da menina, como se isso explicasse alguma coisa.
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PermalinkA caixinha que abre às três da manhã explica tudo de um jeito que dá pra ver. O que ela não conseguia dizer na sala ficava guardado o dia inteiro e saía de madrugada, quando a casa estava quieta. Pra mim é a imagem que segura a crônica, porque mostra por que dez dias de gente procurando não acharam nada.
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PermalinkQue reunião, viu.
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PermalinkA caixinha. Uf.
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