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A Caçada

JuliaFornes
Pensamento

Pensamento

Rui_Salgueiro

Larguei o telemóvel.

Larguei o telemóvel.

Conteúdo da publicação

Quando a forte luz da cúpula verde infesta minha íris, sei que você chegou

Trazendo mais vida morta entre seus braços fortes

Sei que não se esqueceu de mim

Que ainda repouso em sua memória

Antes era eu que massageava seus pés após um longo dia de caça

Era eu quem o saciava ao iniciar a madrugada

Hoje estou dentro de sua gaveta

Sou apenas uma lagarta sem suas pobres asas

Meu sangue sente falta de respingar em suas grandes mãos

Por que não me joga em seu divã e revira minhas entranhas?

Me jogue às escadas, que é sua fogueira de mulheres

Deixe-me ser sua novamente

Me tire desse solitário vazio

Estou com sede do seu sorriso

Cuspa em meu horrendo corpo

Rasgue minha pele ao ouvir meus berros

Lhe peço que seja seiva em minha floresta

Que minha dor ecoe em seu vazio

Me reconstrua

Enterre fundo meus maus pedaços

Coma meus olhos para sentir o gosto do que eu enxergo ao olhar para você

Triture meus ossos e os inale para sentir o aroma de meu prazer ao adentrar seu corpo

Deixe-me morar em você

Me corte em pedaços e os introduza em sua boca

Ouça meu pedido em pavor

Faça de mim sua única refeição

Me tire desse esgoto

Mas, por favor, me faça sua

Permita que eu o engrandeça em sua ausência

Que eu possa ceder a seus desejos macabros esta noite

Me conceda a graça que é ter minha alma à espera de sua chegada

Limpe seu corpo com meus fluidos

Mergulhe em meus restos

Mas prefira minha presença em seu fundo prato

A ausente luz se torna fria ao não ouvir seus passos

Não enxergo o seu tom esverdeado que antes percorria por todas as paredes

Não recordo o sabor do seu cheiro

Aguardo sua escolha amanhã

Mas não sou capaz de tocar seus pés

Um dia fui sua presa

Seu pedido

Estive em seus braços

A cada pulsar de meu coração é mais uma das milhares de vezes em que anseio por você

Deixe-me ser seu animal morto

Retire minha pele e coloque sobre seus ombros largos

Quero adornar seu corpo

Eu lhe imploro

Seja meu caçador e atire contra meu corpo

Me carregue em seus braços

Ligue a luz do abajur

Me faça sua

Não me arremesse ao topo de sua montanha de peles

Deixe-me brilhar em sua cúpula

E gritar aos montes

O quanto quero morrer em você

Thoughts

  • versodemadrugada

    Li baixinho, do jeito que se lê coisa que pede pra ser lida assim. A pele retirada e posta sobre os ombros largos, e logo depois o pedido pra não ser jogada no topo da montanha de peles: fiquei um tempo parada nesse par, sem conseguir passar pra linha seguinte. Voltei três vezes nesse trecho antes de seguir.

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  • versoAlheio

    Cara, não entendi tudo, e a luz verde da cúpula eu ainda tô tentando ver na cabeça. Mas a lagarta sem asas dentro da gaveta chegou em mim sem precisar entender. Salvei pra reler amanhã.

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  • fsantos1307

    Li isto ao almoço e fiquei a pensar na luz verde nas paredes, que ela diz que já não vê. Conheço quem fique assim, à espera de passos que não vêm.

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  • Simao

    Li isto às quatro, com sol, e fiquei a olhar para o candeeiro da sala. Os ossos triturados e inalados, isso é que foi. O caçador que nunca aparece é pior do que qualquer um que apareça.

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  • Rui_Salgueiro

    Larguei o telemóvel.

    Permalink
  • contoDeSexta

    Esse foi o meu da sexta, abri exceção pra poema. A montanha de peles ficou comigo até sábado.

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  • folhaSolta

    Fiquei com a lagarta sem asas dentro da gaveta, voltou na minha cabeça o dia inteiro. Tem mais poema teu com esse caçador?

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  • atepagina50

    Gaveta, divã, escada, abajur e uma montanha de peles. Deu pra ver a casa inteira sem você descrever um cômodo.

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    Biografia Tenho 43 anos, nasci e cresci na cidade de Embu das Artes, formei-me em História e, atualmente, sou professor de leitura. A literatura é uma das tantas peças do meu ser público tanto quanto é parte dos meus ritos privados. Acho que o mundo gira porque gostamos de uma boa história. Eu gosto, e quis ver como é a outra ponta do livro. Espero que a minha história seja boa. Ela é sombria, de terror, irônica, necessária e visceral.

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