A mãe chorando quietinha no fim do interrogatório pesou mais que a cápsula destruída inteira.
A Aparição - Parte 8
Pensamento
A mãe chorando quietinha no fim do interrogatório pesou mais que a cápsula destruída inteira.
Conteúdo da publicação
Os soldados retiraram a cápsula danificada.
Precisaram de vários homens para removê-la do local.
Aurora estava dentro.
Exatamente como antes.
Flutuando.
Parada.
Sem um arranhão.
Sem ferimentos.
Sem qualquer alteração visível.
A cápsula estava destruída em alguns pontos.
O motor havia queimado.
Parte da estrutura estava deformada.
Aurora não tinha nada.
Nenhuma marca.
Nenhum corte.
Nenhum hematoma.
Era como se nada tivesse acontecido.
Os soldados limparam o local.
Recolheram os equipamentos danificados.
Retiraram os pedaços de metal.
Desmontaram parte das estruturas.
Mas Aurora continuava ali.
Do mesmo jeito que a encontraram.
Parada.
Flutuando.
Observando as pessoas ao redor.
Mais tarde, em uma pequena clínica, sua mãe estava sentada diante de dois investigadores.
Uma gravação registrava a conversa.
— Aurora tinha algum problema de saúde?
— Não.
— Alguma doença?
— Não.
— Fazia algum tratamento?
— Não.
— Tomava algum medicamento?
— Não.
— Ela estudava normalmente?
— Sim.
— Tinha dificuldades na escola?
A mãe hesitou.
— Ela era uma boa aluna.
— Tinha amigos?
— Alguns.
— Algum problema psicológico?
— Não.
O investigador consultou algumas anotações.
— Quando tudo isso começou?
A mãe respirou fundo.
— Depois da escola.
— O que aconteceu?
— Ela estava voltando para casa.
— Sozinha?
— Sim.
— Por quê?
— Era o caminho que ela fazia todos os dias.
— Pela floresta?
— Sim.
— E então?
A mãe abaixou os olhos.
— Alguns garotos começaram a persegui-la.
— Quem?
— Meninos da escola.
— Eles já tinham feito isso antes?
— Muitas vezes.
— Por quê?
A mãe ficou alguns segundos em silêncio.
— Porque ela é albina.
O investigador não respondeu imediatamente.
— Eles faziam isso com frequência?
— Sim.
— O que faziam?
— Riam dela. Cercavam ela. Jogavam coisas.
— Ela tinha medo deles?
— Tinha.
— Naquela noite ela estava fugindo deles?
— Sim.
— E foi quando aconteceu?
— Foi.
O investigador fechou a pasta.
— Então, antes disso...
Ele procurou as palavras.
— Aurora era uma garota normal?
A mãe olhou para ele.
— Sim.
— Sem nenhuma condição especial?
— Não.
— Nada diferente além do albinismo?
— Não.
Silêncio.
A mãe começou a chorar discretamente.
— Ela só queria chegar em casa.
O investigador olhou para a gravação da floresta.
Aurora correndo.
Os garotos atrás dela.
O clarão.
Depois...
A garota flutuando.
Ele voltou os olhos para a mãe.
— Então ninguém sabe o que aconteceu?
Ela balançou a cabeça.
— Não.
— E Aurora não contou nada?
A mãe respirou fundo.
— Ela não fala desde aquela noite.
O investigador fechou a pasta.
Naquele momento, talvez aquela fosse a única coisa que todos tinham certeza.
Aurora não era uma criatura desconhecida antes daquela noite.
Não era uma experiência.
Não era uma entidade.
Não era uma santa.
Não era uma ameaça.
Era uma adolescente.
Uma garota albina que estudava, voltava para casa pela floresta e era perseguida por outros adolescentes.
E então alguma coisa aconteceu.
E depois disso, ela nunca mais tocou o chão.
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