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A Aparição - Parte 17

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Pensamento

Pensamento

LariCavalcanti

Esse véu branco em cima dela, gente. Minha mãe ia ser a primeira ajoelhada naquela estrada, ela chora em procissão até hoje. Aposto que na próxima parte já tem romaria armada na beira da floresta.

Esse véu branco em cima dela, gente. Minha mãe ia ser a primeira ajoelhada naquela estrada, ela chora em procissão até hoje. Aposto que na próxima parte já tem romaria armada na beira da floresta.

Conteúdo da publicação

— Parem de atirar!

A ordem do comandante finalmente atravessou o caos.

— PAREM!

Os disparos cessaram.

Restou apenas o som dos motores, dos alarmes e da respiração nervosa dos soldados.

Aurora continuava avançando.

Devagar.

A aproximadamente meio metro do chão.

Sem olhar para trás.

O comandante observou a garota desaparecer entre as árvores.

— Ninguém atira novamente.

Ninguém respondeu.

— Apenas acompanhem.

Os soldados seguiram.

Não havia mais tentativa de contê-la.

Apenas acompanhamento.

Aurora atravessou a floresta como se conhecesse o caminho.

Sem pressa.

Sem mudar a velocidade.

Até chegar à estrada.

Ali havia centenas de pessoas.

Talvez milhares.

Ufólogos.

Religiosos.

Curiosos.

Jornalistas.

Pessoas acampadas havia dias.

Gente que acreditava que Aurora era extraterrestre.

Gente que acreditava que ela era uma santa.

Gente que dizia que ela era um demônio.

Gente que simplesmente queria vê-la.

Quando Aurora apareceu entre as árvores, a multidão começou a recuar.

Gritos.

Correria.

Pessoas tropeçando.

Carros tentando sair.

Câmeras caindo no chão.

Alguém gritava:

— ELA ESTÁ VINDO!

Outro:

— CORRAM!

Mas alguns não correram.

Eram os religiosos que haviam passado dias esperando por aquele momento.

Eles ficaram parados.

Um deles segurou o braço do homem ao lado.

— Não corra.

— Você está louco?

— Se ela passar entre nós...

Ele olhou para Aurora.

— ...e não fizer nada, significa que ela nos livrou do pecado.

O outro homem não respondeu.

Aurora continuou se aproximando.

A multidão abriu espaço.

Ela entrou no meio deles.

Devagar.

Os religiosos ficaram imóveis.

Aurora passou entre eles.

Um homem estendeu a mão.

Tocou seu braço.

Nada aconteceu.

Outro tocou seu ombro.

Nada.

Uma mulher colocou as duas mãos sobre o corpo de Aurora enquanto ela passava.

Nada.

Aurora não reagiu.

Não olhou para eles.

Não parou.

Não acelerou.

Continuou flutuando.

Então o primeiro homem se ajoelhou.

Depois outro.

Depois outro.

Em poucos segundos, dezenas estavam ajoelhados na estrada.

Alguns choravam.

Outros rezavam.

Um deles começou a repetir:

— Ela passou por nós.

Outro respondeu:

— E não nos feriu.

Os soldados observavam completamente atônitos.

Aurora havia acabado de atravessar uma multidão.

Ninguém tinha sido ferido.

Ninguém havia sido atacado.

Ela simplesmente continuava andando.

Um helicóptero surgiu no céu.

A câmera começou a transmitir.

A imagem de Aurora apareceu nas televisões.

Ao vivo.

Uma garota nua, flutuando lentamente no meio de uma multidão ajoelhada.

O repórter mal conseguia manter a voz firme.

— Estamos acompanhando neste momento uma situação que ainda não foi explicada pelas autoridades...

A imagem tremia com o movimento do helicóptero.

— Aurora deixou o complexo militar e está atravessando a área onde milhares de pessoas aguardavam sua aparição.

Na tela, os religiosos continuavam ajoelhados.

— Não há relatos, até o momento, de pessoas feridas.

A transmissão mostrava soldados acompanhando Aurora.

— Repetimos: não há relatos de feridos.

Um dos fiéis se levantou.

Tirou o próprio véu branco que carregava.

Aproximou-se de Aurora.

Ela continuou andando.

O homem colocou o tecido sobre seus ombros.

Depois cobriu parte de seu corpo.

Aurora não reagiu.

O homem segurou o tecido por alguns segundos, tentando cobri-la como uma imagem religiosa.

Depois soltou.

O véu permaneceu sobre ela enquanto continuava flutuando.

O homem caiu de joelhos.

— Nossa Senhora da Aparição...

Os outros começaram a rezar.

Aurora continuou.

Sem olhar para ninguém.

Sem dizer nada.

O helicóptero acompanhava tudo.

Na televisão, o repórter já falava quase sem conseguir esconder o espanto.

— Estamos vendo isso ao vivo.

A imagem mostrava Aurora atravessando lentamente a estrada.

— Uma jovem que, segundo as autoridades, não apresenta sinais de agressividade acaba de atravessar uma multidão de pessoas que acreditam que ela seja uma entidade religiosa.

O repórter recebeu alguma informação pelo ponto eletrônico.

Seu rosto mudou.

— As autoridades confirmam que nenhum dos presentes foi ferido.

Silêncio.

— Nenhum.

A câmera aproximou a imagem.

Aurora continuava flutuando.

— Isso está acontecendo agora.

Em outro canal, um apresentador gritava:

— É UM MILAGRE!

Em outro:

— O MUNDO ESTÁ DIANTE DE ALGO QUE NÃO CONSEGUIMOS EXPLICAR!

Em outro:

— AURORA É UMA AMEAÇA?

As imagens se repetiam.

Aurora caminhando.

Os fiéis ajoelhados.

Os soldados atônitos.

O helicóptero sobrevoando.

O véu branco sobre seu corpo.

E a mesma pergunta sendo repetida em todas as emissoras:

O que ela quer?

Aurora continuava andando.

Como se não tivesse ouvido.

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  • LariCavalcanti

    Esse véu branco em cima dela, gente. Minha mãe ia ser a primeira ajoelhada naquela estrada, ela chora em procissão até hoje. Aposto que na próxima parte já tem romaria armada na beira da floresta.

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