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A Aparição - Parte 14

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Pensamento

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O comandante pergunta pela intenção da criatura há semanas e nunca pergunta se existe intenção ali. Tanta medição, e ninguém testa a premissa mais básica, a de que aquilo quer alguma coisa. A psicóloga chamando pelo nome é a única no complexo trabalhando

O comandante pergunta pela intenção da criatura há semanas e nunca pergunta se existe intenção ali. Tanta medição, e ninguém testa a premissa mais básica, a de que aquilo quer alguma coisa. A psicóloga chamando pelo nome é a única no complexo trabalhando com um dado concreto: tem uma garota e tem uma mãe. Aposto que ela tira mais de uma conversa do que eles de mil exames, uai.

Conteúdo da publicação

Ela entrou no complexo acompanhada por um soldado.

Passou por dois portões.

Depois por outro.

Em cada um, alguém conferia seu crachá.

Nome.

Função.

Autorização.

Horário.

Destino.

Mesmo depois de semanas, ainda havia desconfiança.

Ninguém parecia saber exatamente quem podia entrar, quem podia sair ou quem tinha autorização para falar sobre Aurora.

Dentro do complexo, o ambiente continuava o mesmo.

Tenso.

Cansado.

Havia gente demais.

Militares.

Médicos.

Biólogos.

Psicólogos.

Técnicos.

Pesquisadores.

Pessoas discutindo em corredores, falando baixo, olhando para telas, examinando números que não levavam a lugar nenhum.

A pergunta permanecia a mesma.

O que aquela coisa queria?

A psicóloga entrou em uma das reuniões.

Era a mesma reunião de sempre.

Novas medições.

Novas hipóteses.

Novas perguntas.

Nenhuma resposta.

Um dos comandantes falou:

— Precisamos descobrir a intenção da criatura.

A psicóloga levantou os olhos.

— Ela tem nome.

Algumas pessoas olharam para ela.

— O quê?

— O nome dela é Aurora.

Silêncio.

— Sabemos disso — respondeu alguém.

— Então usem.

O comandante continuou olhando para os documentos.

— Não estamos aqui para discutir nomenclatura.

— Não é nomenclatura.

Ela respirou.

— É o nome dela.

O comandante não respondeu.

Para ele, aquilo parecia irrelevante.

— O que importa é descobrir o que aquela criatura quer.

A psicóloga olhou para os outros.

Ninguém parecia confortável.

Era possível sentir o medo no ambiente.

Não um medo declarado.

Era algo mais discreto.

Homens falando mais baixo.

Portas sendo fechadas.

Soldados olhando para Aurora através das câmeras.

Pesquisadores conferindo os mesmos dados várias vezes.

Todos estavam diante de uma coisa que não compreendiam.

E, depois de semanas, isso parecia estar piorando.

Porque Aurora continuava sem fazer nada.

Ela não atacava.

Não fugia.

Não conversava.

Não exigia.

Não ameaçava.

Apenas permanecia ali.

A reunião continuou.

Mais teorias.

Mais possibilidades.

Mais perguntas sobre intenção.

A psicóloga permaneceu algum tempo em silêncio.

Então saiu.

No corredor, havia ainda mais pessoas.

Homens discutiam sobre os procedimentos.

Alguns defendiam contenção.

Outros queriam novos exames.

Outros queriam aproximar equipamentos.

Outros queriam manter distância.

Parecia que todos estavam disputando qual seria a melhor maneira de lidar com alguma coisa que ninguém sabia definir.

Ela caminhou até a secretaria.

— Posso pedir uma coisa?

A secretária levantou os olhos.

— Claro.

— Quero falar com a mãe da Aurora.

A mulher hesitou.

— A mãe?

— Sim.

— Ela está aqui no complexo.

— Então pode chamá-la?

A secretária fez uma expressão de dúvida.

— Ela quase não sai mais.

— Por quê?

— Repórteres.

A psicóloga esperou.

— Eles estão na casa dela o tempo inteiro. Alguns ficam de plantão durante a noite. Tem gente acampada na rua. Pessoas querendo falar com ela, fotografá-la, perguntar sobre a filha...

A secretária balançou a cabeça.

— Ela não consegue nem sair para comprar comida.

A psicóloga ficou em silêncio.

Depois disse:

— Chame-a.

— Agora?

— Hoje.

— Tem certeza?

— Tenho.

A secretária anotou alguma coisa.

A psicóloga olhou para o corredor.

— E a escola?

— Qual delas?

— Da região.

A secretária suspirou.

— Muitas estão suspensas.

— Todas?

— Na região próxima ao acampamento, sim. Faz semanas.

A psicóloga ficou alguns segundos parada.

Pensou na própria filha.

Na mochila.

Na reclamação daquela manhã.

Na promessa de buscá-la.

Depois olhou novamente para a porta que levava à área de observação.

Aurora continuava lá.

E, enquanto todos discutiam o que a criatura queria, quase ninguém parecia lembrar que, antes de tudo aquilo, havia uma mãe que tinha uma filha.

Uma garota chamada Aurora.

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  • navalha_sem_do

    O comandante pergunta pela intenção da criatura há semanas e nunca pergunta se existe intenção ali. Tanta medição, e ninguém testa a premissa mais básica, a de que aquilo quer alguma coisa. A psicóloga chamando pelo nome é a única no complexo trabalhando com um dado concreto: tem uma garota e tem uma mãe. Aposto que ela tira mais de uma conversa do que eles de mil exames, uai.

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