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27º Capítulo/ Arco-íris Do Nosso Amor

Pietrodeluccapoeta777
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E assim seguia aquele romance, caminhando sob as leis invisíveis da Teoria das Probabilidades. No entanto, por mais que as estatísticas do destino soprassem contra, não deixava de ser um legítimo…

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Pensamento

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RenataAlmeida

Gostei da resposta dele de que mudar de formato é só mais uma experiência para quem escreve. Fiquei do lado do Narciso nessa.

Gostei da resposta dele de que mudar de formato é só mais uma experiência para quem escreve. Fiquei do lado do Narciso nessa.

Conteúdo da publicação

27º Capítulo

Arco-íris Do Nosso Amor

E assim seguia aquele romance, caminhando sob as leis invisíveis da Teoria das Probabilidades. No entanto, por mais que as estatísticas do destino soprassem contra, não deixava de ser um legítimo romance, sobrevivendo bravamente em um mundo cercado de incertezas absolutas. Tudo entre os dois acontecia como no clarão repentino de um flash fotográfico: rápido, imediato, numa velocidade voraz e irresistível, feito uma locomotiva desgovernada cruzando os trilhos da rotina. A relação assemelhava-se a um termômetro temperamental, onde, na maior parte do tempo, as doses febris eram compostas por doces prazeres; porém, a estabilidade nunca era uma garantia. Uma hora a temperatura sentimental estava em alta total, noutra estacionava no meio-termo e, em certos momentos, despencava para a baixa frieza, funcionando como um verdadeiro tobogã de emoções.

Nesse constante sobe e desce da alma o Poeta, ia se enquadrando à situação da melhor maneira possível. Ele aprendeu a blindar o próprio semblante, não deixando transparecer tudo o que realmente sentia e sofria em seu íntimo. Afinal, apesar de gostar imensamente de Helena Dolly, ele tinha a lucidez de que não podia — e nem deveria — forçar a barra do sentimento. Compreendia que ela carregava seus próprios motivos, mistérios e amarras estruturais para manter aquele relacionamento sob um sigilo quase absoluto, longe dos olhares curiosos do ambiente corporativo.

Contudo, mesmo diante das barreiras, os dois jamais desprezaram ou dispensaram a cumplicidade mútua. A amizade que cultivavam mostrava-se extremamente salutar e, com o passar dos dias, tornou-se ainda mais íntima, leal e blindada. Foi a partir daquele ponto de amadurecimento que Narciso, tomado por uma inspiração avassaladora, revelou a Helena Dolly um desejo antigo: ele estava decidido a escrever um livro sobre os dois, narrando minuciosamente todos os fatos, encontros, desencontros e poesias ocorridos durante o tempo de convivência entre eles.

Esse anúncio do Poeta, deixou a Helena um tanto preocupada, escrever um livro, abrindo absolutamente as portas daquela relação camuflada, intrigou muito a Helena.

Certo dia, ao chegar para o expediente no escritório, Narciso, sentia-se eufórico, com o coração ainda aquecido pelas performances apaixonadas dos dias anteriores. Ao passar pela mesa de sua musa, não hesitou em disparar um cumprimento caloroso:

— Bom dia, minha querida Helena Dolly! Como você está linda hoje... Aliás, você é maravilhosamente linda sempre! — elogiou o Poeta, com um brilho vibrante nos olhos.

— Bom dia, Narciso! — respondeu ela, com um sorriso contido. — Obrigada pelo elogio. Como sempre, você sabe ser muito especial e gentil. Você me faz muito bem, sabia?

Narciso, cujos olhos eram treinados para captar as nuances mais sutis da amada, deteve-se por um instante. Ele percebeu imediatamente que algo na atmosfera dela não estava bem. Havia uma névoa invisível que obscurecia o habitual magnetismo da mulher.

— Está tudo bem mesmo, minha querida? O que você tem, Helena? — indagou ele, mudando o tom para uma vibrante preocupação.

— Não tenho nada, Narciso... Por que a pergunta? — esquivou-se ela, ajeitando alguns papéis na mesa sem olhá-lo de frente.

— Ah, não tente me enganar. Você está com uma carinha esquisita hoje, meio tristonha, com o olhar distante. Fala para mim, o que é que está acontecendo? Sou todo ouvidos para você, meu amor. Você sabe perfeitamente que pode confiar em mim de olhos fechados — insistiu o escritor, aproximando-se um pouco mais.

— Ela é assim mesmo... Essa carinha é a minha cara de todos os dias — respondeu Helena, tentando encerrar o assunto com uma resposta evasiva.

— Tudo bem. Se você não quer falar agora, beleza, tudo certo. Mas que você não está legal, ah, isso você não está! Eu já percebi de longe. Afinal, a essa altura, eu já consigo fazer a leitura exata do seu coração apenas pelo compasso do seu silêncio — declarou Narciso, convicto.

Helena Dolly soltou um longo suspiro, desarmando-se um pouco diante da insistência afetuosa do Poeta:

— São problemas, Narciso... Muitos problemas complexos que só eu, e mais ninguém, tenho que resolver — desabafou ela, com o peso do mundo nos ombros.

— Sabe, querida... O maior problema da vida é justamente não ter problemas, pois são eles que nos movem. Mas, como eles fazem parte da nossa existência, o único caminho é encarar de frente, com a cabeça erguida — filosofou o escritor.

— Você não tem jeito mesmo, né, Narciso? — comentou ela, deixando escapar um tímido e doce sorriso que quebrou momentaneamente aquele ar severo de preocupação.

Mesmo sorrindo, ela preferiu manter o mistério e não revelou a natureza daqueles nós que a afligiam. Afinal, no grande teatro da existência humana, o que nunca falta para os seres de carne e osso são problemas e boletos existenciais para liquidar. Aproveitando a brecha daquele sorriso, Narciso decidiu retomar o assunto que vinha desenhando em sua mente criativa:

— Sabe, linda... Eu vou escrever um livro! — anunciou ele, com pompa.

Até aquele exato momento, Narciso, o Poeta, não havia detalhado qual seria o tema central da obra, a espinha dorsal da narrativa ou que tipo de assunto pretendia abordar nas páginas. Curiosa, Helena Dolly imediatamente o indagou:

— Como assim, você vai escrever um livro? Que tipo de livro seria esse?

— Vou escrever um livro sobre nós, Helena! Sobre eu e você. Eu sinto a necessidade vital de deixar registrado, em páginas eternas, tudo o que aconteceu de maravilhoso conosco durante esse tempo. Foi e continua sendo algo marcante demais para se perder no esquecimento — revelou ele, com os olhos brilhando de orgulho literário.

Helena olhou para ele com os olhos arregalados. No primeiro instante, ela pensou que aquilo não passava de um blefe bem-humorado, uma daquelas brincadeiras poéticas de Narciso para impressioná-la. Ficando visivelmente espantada com a audácia da proposta, ela questionou:

— Um livro sobre nós?

— Sim, exatamente! Sobre nós dois, sem tirar nem pôr uma vírgula de verdade — confirmou o escritor.

— Mas, Narciso... Com esse curto espaço de tempo que passamos juntos, você realmente acha que já tem assunto suficiente para preencher as páginas de um livro inteiro? — perguntou ela, incrédula.

— Claro que sim, meu amor! Cada segundo ao seu lado rende uma crônica inteira. E eu vou escrevê-lo com todo o carinho e o respeito do mundo — garantiu ele.

Mesmo diante daquela afirmação categórica e cheia de entusiasmo, Helena Dolly continuou duvidando profundamente da capacidade e da real intenção de Narciso em levar o projeto adiante, principalmente por se tratar da intimidade deles. Talvez o ceticismo dela nascesse do fato de que, até então, ela só o havia visto produzir poemas curtos, poesias rimadas e letras de músicas. Escrever uma narrativa longa e estruturada parecia algo fora do alcance dele na visão dela. Mantendo uma postura serena, mas com uma ponta indisfarçável de ironia, ela desafiou:

— Pois bem... Quando o livro estiver totalmente pronto, impresso e devidamente publicado, eu faço questão de querer um exemplar!

Ela falou aquilo com um nítido ar de incredulidade, dando uma leve desdenhada com o canto dos lábios, quase que debochando da pretensão literária do parceiro. Mas manteve a serenidade e a elegância de sempre.

— Mas é claro que sim, minha querida! Você terá em mãos um exemplar lindamente autografado por mim. Afinal, você será a grande estrela incontestável deste livro e nada mais justo do que isso, já que, em essência, esta é a sua própria história ganhando vida no papel — rebateu Narciso, firme em seu propósito.

O tempo passou e a rotina do escritório continuou o seu fluxo normal. Narciso ia e vinha em suas funções cotidianas, aparentemente em silêncio sobre o projeto, o que fez Helena acreditar que a ideia havia morrido no esquecimento. No entanto, o processo criativo de um escritor trabalha de forma invisível. Um belo dia, quebrando a calmaria, Narciso chegou de surpresa, parou exatamente em frente à mesa de Helena Dolly e, com um olhar triunfante, exibiu duas folhas de papel repletas de rascunhos manuscritos, com aquela sua caligrafia firme. Ele estendeu o papel e entregou para ela ler.

Helena pegou as folhas, deteve-se por alguns minutos, correu os olhos rapidamente pelas linhas rascunhadas e, sem esboçar grandes emoções, devolveu os papéis para as mãos do Poeta. Ela não proferiu uma única palavra, não fez nenhum comentário positivo ou negativo, e ele, mantendo a sua altivez, também nada perguntou. O silêncio literário imperou naquele momento.

Dois dias depois, demonstrando uma disciplina férrea na escrita, Narciso repetiu rigorosamente a mesma cena. Só que, desta vez, o impacto era maior: ele trazia quatro folhas densas de manuscritos rascunhados, mostrando que a história estava ganhando corpo e fôlego rapidamente. Novamente, Helena pegou o calhamaço, leu o conteúdo em silêncio, devolveu as folhas para as mãos dele e nada falou. Narciso, orgulhoso, recolheu seus rascunhos e também não questionou o veredicto dela.

No entanto, quando o expediente chegou ao fim e a tarde começou a cair, no momento exato de se despedirem antes de irem para suas respectivas realidades, Narciso não resistiu à curiosidade de autor e quebrou o pacto de silêncio:

— Me diga uma coisa, Helena... O que você está achando, de verdade, do início deste nosso livro? — perguntou ele, fitando-a com atenção.

Helena parou, olhou para os lados para garantir a discrição do ambiente, suspirou e disparou uma crítica sincera e cortante:

— Sinceramente, Narciso? Eu acho melhor você parar com essa ideia de livro. A sua verdadeira habilidade é escrever poemas românticos e letras de música. O seu estilo natural não é escrever livros longos. E tem mais: se você insistir nisso, deveria ao menos colocar palavras mais fáceis, termos mais simples para a compreensão de todo tipo de público. Com toda essa sua mistura de conceitos e essa linguagem rebuscada, você vai acabar deixando algo importante para trás e confundindo o leitor — sentenciou ela, com a firmeza de quem avaliava um relatório técnico.

Narciso, o Poeta, ouviu atentamente cada palavra daquela análise. Longe de se sentir diminuído ou desencorajado pela falta de fé de sua musa, ele compreendeu que a preocupação dela mascarava um medo sutil da exposição. Assim que ela terminou de falar, ele exibiu um sorriso maduro, olhou bem no fundo dos olhos dela e respondeu com a doçura de um verdadeiro artista:

— Helena, minha querida, me perdoe... Mas o poema, a letra de música ou o livro completo são apenas faces diferentes da mesma moeda. Para um escritor, cada formato é sempre uma experiência a mais, um novo desafio para lapidar a alma.

Ele deu um passo à frente, segurou as mãos dela com delicadeza e concluiu, tranquilizando o coração da amada:

— Não precisa se preocupar em momento algum, meu amor. Eu conheço o valor do que temos. Eu jamais irei te expor perante o mundo, nunca, de forma alguma. A sua identidade estará protegida pela magia da ficção, mas a beleza do nosso arco-íris ficará eternizada para quem tiver a sensibilidade de ler as nossas entrelinhas.

Continua…

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Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.*

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@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444

opoetalk520.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

Thoughts

  • anogueira52

    Essa cena de entregar duas folhas na mão de alguém e ficar esperando é das piores que existem. Eu já mostrei carta escrita pra gente que só devolveu o papel, e a pessoa aprende rápido a não perguntar. O Narciso fez melhor do que eu, perguntou no fim do expediente.

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  • RenataAlmeida

    Gostei da resposta dele de que mudar de formato é só mais uma experiência para quem escreve. Fiquei do lado do Narciso nessa.

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  • TintaEAvesso

    Duas folhas, depois quatro, e nas duas vezes ela devolve sem falar nada. Meu palpite é que esse silêncio volta lá na frente, no dia em que o livro existir mesmo e ela tiver que dizer alguma coisa. Ela pediu um exemplar de brincadeira, e brincadeira dessas costuma cobrar.

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  • AmandaPeixoto

    A Helena diz que não tem nada e no mesmo diálogo desabafa que tem problema demais pra resolver sozinha. Nunca diz qual. A história vem pelo lado dele desde o começo, e ela fica sendo só o que ele enxerga.

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  • versoAlheio

    Ela pega as duas folhas, lê, devolve e não fala nada. Aposto que doeu mais do que se ela tivesse falado mal. Essas folhas que ele mostrou existem de verdade em algum lugar?

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