Aposto que ela mandou trocar o vidro no mesmo dia em que levou o quadro pra casa. Essa mulher cuida do que é dela calada, e isso mostra mais dela do que o capítulo todo de febre.
23º Capítulo/OS MISTÉRIOS DO ACASO /O Mais Nobre! O dia em que a Helena Dolly passou mal!
Não amá-la no sentido literal da palavra, seria um dos maiores pecados que o Narciso poderia cometer. Mas ele não abriu mão da parte que lhe coube dentro do universo alcunhado de amor, porém, ele…
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Aposto que ela mandou trocar o vidro no mesmo dia em que levou o quadro pra casa. Essa mulher cuida do que é dela calada, e isso mostra mais dela do que o capítulo todo de febre.
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23º Capítulo
OS MISTÉRIOS DO ACASO
O Mais Nobre! O dia em que a Helena Dolly passou mal!
Não amá-la no sentido literal da palavra, seria um dos maiores pecados que o Narciso poderia cometer. Mas ele não abriu mão da parte que lhe coube dentro do universo alcunhado de amor, porém, ele exacerbou sem medo. Em seus pensamentos só tinha espaço para Helena, seus sonhos eram baseados na Helena, ele sempre agradeceu a Deus pela existência dela, um amor indissolúvel e verdadeiro, uma flor amada, substância de um lirismo adocicado e abençoado por Deus. É uma sede de amor inexplicável, infelizmente nem tudo é do jeito que o homem quer. O Poeta está literalmente vivendo um lindo sonho, infelizmente essa chuva de ternura não cairá na sua horta.
Helena era uma mulher de mistérios oblíquos e profundos, envolta em uma aura de suspense e dotada de uma personalidade forte que dificilmente se deixava envolver ou dobrar por qualquer pessoa. No entanto, com Narciso, as regras do mundo pareciam não funcionar; ele fora a grande e luminosa exceção, e os dois acabaram se entregando a esse lindo e secreto romance de “cantoneiras”. E assim, ambos iam seguindo adiante naquele roteiro delicadamente dividido entre o arrebatamento do amor e a vertigem da paixão.
O episódio marcante da entrega do quadro e de sua dedicatória manuscrita havia acontecido em uma sexta-feira intensa. Depois disso, com o fim do expediente, cada um seguiu o seu próprio caminho e viveu o seu fim de semana. Na segunda-feira bem cedo, assim que ela cruzou as portas do escritório, iniciou-se a tão esperada e doce conversação:
— Narciso, o quadro é lindo, mas o vidro estava quebrado! — revelou Helena, com um meio sorriso.
— Eu já imaginei que isso pudesse acontecer, minha querida. Deve ter sido por causa dos solavancos no transporte, ele veio o caminho todo chacoalhando no porta-malas — justificou Narciso, lamentando o imprevisto.
— Mas não se preocupe, eu já mandei colocar outro vidro novinho esta semana e ele já está pendurado num lugar bem legal, em grande destaque na minha residência — confortou Helena, com os olhos brilhando.
— Pelo jeito, então, você gostou mesmo do presente? — perguntou o Poeta, buscando a confirmação.
— Adorei, Narciso. Gostei imensamente, mas principalmente do que estava escrito ali no verso... Aquelas palavras foram muito lindas mesmo, tocaram o meu coração — confessou ela, desarmando-se por um instante.
— Que bom, Helena. Foi apenas uma simples lembrancinha para enfeitar o seu espaço — respondeu ele, humilde.
— Sabe, Narciso... Eu prefiro e valorizo muito mais as coisas assim, que nascem simples e humildes, cheias de significado verdadeiro. Muito obrigada de verdade! — concluiu Helena.
O poema intitulado “O Mais Nobre” é uma obra de arte interessante que também surgiu não diria por um mero acaso do destino, mas pelo fato real e comovente que ocorreu logo em seguida, fruto de toda uma evolução processual e afetiva daquele período. Como não podia ser diferente na vida de um criador, ao chegar em sua casa após os eventos daquela semana, o Poeta, parou em meio aos seus pensamentos noturnos, revivendo mentalmente e com extrema riqueza de detalhes todo aquele acompanhamento em estilo personalizado e afetuoso que ele havia despendido à glamourosa Helena Dolly.
Tudo teve início na manhã daquela quarta-feira específica. Assim que chegou para iniciar sua jornada, Narciso cumprimentou Helena Dolly e, dotado de uma sensibilidade aguçada, bastou um único olhar para notar que ela não estava bem. Sua musa estava visivelmente abatida, com o semblante cansado, uma palidez incomum e queixando-se de uma forte e persistente dor de cabeça. Desanimada, ela apresentava um quadro febril considerável e alarmante, com a temperatura corporal já encostando na casa dos quase 40°C.
De imediato, movido por uma preocupação genuína, Narciso, ofereceu prontamente os seus préstimos, o seu cuidado e a sua total atenciosidade. Contudo, Helena Dolly fazia o estilo "durona"; orgulhosa e resistente, ela recusou o atendimento inicial, tentando segurar a barra sozinha. Dizia a quem passava que estava tudo bem, que era apenas um mal-estar passageiro e que não havia necessidade de ninguém ficar preocupado com ela.
Respeitando o espaço dela, Narciso saiu para dar uma volta e cumprir suas obrigações, mas o seu coração de poeta sabia perfeitamente que, a qualquer momento, o estado de Helena podia piorar de forma substancial e que ela necessitaria de seu auxílio para um imediato socorro.
Por isso, ele não descuidou dela por um único instante. Como um vigia silencioso do amor, toda hora passava discretamente pelo setor para ver se ela precisava de algo. Helena resistiu bravamente, passando praticamente o dia todo lutando contra as ondas de mal-estar. Quando a tarde começou a cair, porém, a febre cobrou o seu preço: Helena teve uma piora significativa e ficou completamente impossibilitada de continuar as suas atividades profissionais.
Foi nesse momento que Helena Dolly precisou sair de cena. Narciso, assumindo a liderança da situação, a acompanhou com todo o cuidado até as acomodações reservadas ao zelador da empresa, onde ela foi devidamente autorizada pela chefia a permanecer deitada até sua recuperação. Ao chegarem lá, o Poeta deu uma breve e cuidadosa avaliada no quadro clínico dela. Helena queimava em febre alta, mas, paradoxalmente, sentia um frio absurdo e tremia da cabeça aos pés. Com extrema ternura, Narciso a colocou para deitar na cama, cobrindo seu corpo com três cobertores pesados. Ela estava toda molinha, sem forças, e queixava-se de um frio tão intenso que chegava a bater o queixo de maneira audível.
Prestativo, Narciso foi até a cozinha, colocou uma quantidade de água para esquentar e preparou um escalda-pés tradicional, na esperança de fazer o sangue circular e dar uma amenizada naquele calafrio terrível.
Delicadamente, Narciso sentou-a na beira do leito e, de forma extremamente suave, retirou o seu par de meias. Ele a tocava com uma leveza impressionante, como se estivesse manipulando uma frágil boneca de porcelana que pudesse se quebrar a qualquer instante. Helena, em sua fragilidade, olhava para ele com um profundo ar de gratidão, emitindo uma ternura tão pura que parecia querer agradecer antecipadamente por tanto zelo.
Enfim, ela permaneceu por quase 45 minutos com os pés submersos naquela água morna e reconfortante. Aos poucos, a circulação respondeu, ela deu uma leve animada e voltou a se deitar. Helena ensaiava dizer algo, mas as palavras faltavam; ela apenas ficava olhando para o Poeta com aquele rostinho lindo, fixando nele aqueles lábios gostosos e convidativos. Narciso, buscando mantê-la distraída e confortável, entretinha-a na conversa. Papo vai, papo vem, a atmosfera do quarto foi se tornando densa de afeto até que, de forma impulsiva e compulsiva, Narciso aproximou-se e deu-lhe um beijo. Foi um beijo tão gostoso, tão profundo e demorado que, naquele instante de suspensão do tempo, ela nada falou; apenas fechou os olhos e retribuiu com a mesma intensidade. Mais tarde, já recuperada, ela faria questão de confessar o quanto havia gostado daquele atrevimento carinhoso.
O expediente já estava quase no fim e Helena Dolly ainda sentia muitas dores pelo corpo; suas condições físicas para retornar ao posto de trabalho eram absolutamente zero. Diante disso, a situação foi formalmente informada à diretoria, que prontamente autorizou Narciso a levá-la até sua residência. Ele pegou o veículo da empresa e assumiu a direção para conduzi-la em segurança. Após cerca de quarenta e cinco minutos de estrada, cruzando o trânsito da cidade, eles finalmente chegaram à casa de Helena.
Ao estacionar, ela ainda apresentou certa dificuldade mecânica para descer do veículo, pois o corpo doía. Narciso, com a maior gentileza e fidalguia, foi fazendo aquele delicado cerimonial de amparo. Em sinal de confiança e agradecimento, ele foi convidado a entrar. Helena, orgulhosa de seu espaço, foi lhe apresentando o seu lar, mostrando seus quadros na parede, seus objetos de decoração e revelando em detalhes os seus gostos pessoais. Narciso ia caminhando pela casa e constatando, com alegria, que tudo o que ela dissera ao longo de tantos meses sobre arte e simplicidade era a mais pura verdade.
O ponto alto da visita foi quando ela, com um sorriso cúmplice, o levou até o cômodo onde estava pendurado o quadro que ganhara dele, mesmo porque não tinha nada combinado. Enfim, com Helena entregue sã, salva e medicada, só restava ao Poeta retornar com o carro para a empresa, trazendo a alma leve.
No dia seguinte, para a surpresa de todos, Helena Dolly já estava lá na empresa firme e forte, parecendo que nada de anormal havia acontecido no dia anterior.
Ela exibia aquele mesmo sorriso largo e aquela beleza singular e magnífica que todo mundo adorava contemplar nos corredores. Como quem não quer nada, demonstrando sua eterna preocupação velada, Narciso aproximou-se e perguntou se estava tudo bem. Com um adorável ar de sínica brincalhona, ela deu uma risada gostosa e emendou:
— Ontem você me pegou totalmente indefesa, hein, Narciso? — e riu, provocando-o.
— Não foi nada disso, minha querida! Foi apenas o puro impulso do querer e do cuidado.
E também, convenhamos, você estava me olhando com aquela carinha de pidona, tão romântica... Eu confesso que sou de carne e osso, não resisti! — defendeu-se o Poeta, entrando na brincadeira.
Foi então que ela quebrou definitivamente o gelo e demonstrou toda a sua gratidão real:
— Você cuidou direitinho de mim quando eu mais precisei. Eu gostei muito, mas muito mesmo. Sou muito agradecida por tudo o que fez — disse ela, com sinceridade.
— É a minha obrigação como bombeiro da empresa. E tratando-se de você, então... Eu faria qualquer coisa neste mundo — respondeu ele, com o coração na mão.
No fundo, Helena Dolly sentia perfeitamente que rolava um amor avassalador por parte de Narciso. O brilho intenso e diferenciado nos olhos dele "caguetava" sem pudores os seus sentimentos mais profundos e as suas reais intenções de alma. Essa foi uma das passagens que Narciso guarda na memória com o maior esmero e carinho, por ter sido um momento de entrega humana e verdadeira. Inspirado por esse estalo de sensibilidade, na madrugada silenciosa que se seguiu, ele sentou-se à mesa e escreveu “O Mais Nobre”, registrando aquele flash inesquecível em formato de poesia. Afinal, ele se lembrava de que, apesar de muito abatida pela febre, Helena ainda ria e se divertia muito com as brincadeiras e piadas que o Poeta fazia para descontrair o ambiente pesado da doença.
E a poesia nasceu assim, livre e eterna:
O MAIS NOBRE
_________________________
Pensando em você,
Nos labirintos da minha mente
Nesta estrada, por esses caminhos,
Sigo contente nesse dia, mês e ano,
Não é profano
Não há nada que adia
E só irradia
Meu querer por você
Te beijei pelo impulso,
Nesse curso
Foi impossível evitar essa "vibe" de prazer
Porque te amo
E te amando, sempre te quero
O mais Nobre dos sentimentos,
O amor!
Admirei-te e novamente,
Foi aquele bis
Quando inerte estava,
Quente, ilesa, vulnerável e indefesa
Observei o quanto
Transborda em rios de beleza
Você, realmente é linda
E não há como negar,
Sábia conclusão,
Sensata e óbvia
Do meu coração
Pensei que pudesse te esquecer,
Apenas pensei
Difícil, muito difícil,
Aliás, impossível
Pois, sinto que minhas faculdades
Não me obedecem
E vivo, é esse constante querer
Que tenho por você
Porque ainda consta, no íntimo,
Na essência
E está presente no corpo e na mente
Embora um tempo ausente
Nada mudou,
Porque é vero Helena Dolly
Tão verdadeiro que repito,
Te amo…
________________________________
Ass. Narciso "O Poeta"
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Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.
__________________________________
@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
Athelier das Letras - Selo 444
opoetalk520.substack.com
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Thoughts
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PermalinkAposto que ela mandou trocar o vidro no mesmo dia em que levou o quadro pra casa. Essa mulher cuida do que é dela calada, e isso mostra mais dela do que o capítulo todo de febre.
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PermalinkEla recusou ajuda a manhã inteira e só cedeu quando a febre derrubou de vez. Gente com esse orgulho eu já vi muita, na minha casa mesmo tem duas assim.
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PermalinkTem uma coisa que fica de fora nesse capítulo. A Helena teria dito depois que gostou do atrevimento, só que quem relata isso é ele, e ela nunca repete aquilo com as palavras dela. Quem narra escolhe o que entra. Fiquei pensando nela deitada ali sem conseguir dizer nada.
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PermalinkO escalda-pés com os três cobertores em cima é o que mais parece coisa de verdade aqui pra mim. Esse poema saiu na mesma noite em que você escreveu o capítulo?
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PermalinkQuase quarenta de febre e ela ainda aguentou o dia inteiro no serviço. Depois foram mais quarenta e cinco minutos de estrada até casa dela. Gente teimosa a sério.
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