Pular para o conteúdo
Carregando…

Vasilha não volta vazia

RobsonNovaes

Conteúdo da publicação

Sempre que a Mônica faz pão, a gente fica sabendo do mesmo jeito: o Pedro aparece aqui em casa.

A Mônica é nossa vizinha, e o Pedro é o netinho dela. Ela assa para a família, mas sempre faz um pouco a mais para mandar para a gente.

A primeira vez foi logo que nos mudamos para cá. Confesso que me senti num daqueles filmes americanos em que o vizinho aparece com alguma coisa para dar as boas-vindas. Só que, em vez de torta, era pão caseiro. E, sinceramente, nenhuma torta de filme chega perto.

Mas não parou no pão. A Mônica faz um monte de coisa gostosa e sempre manda um pouco para cá. A gente tenta retribuir, claro. O problema é que ela estabeleceu uma régua difícil de alcançar.

Do meu lado, tenho a brasa. Quando acendo a churrasqueira, seja a grande, seja a pequena, faço questão de caprichar e mandar um pouco para a casa dela.

No fundo, estamos apenas cumprindo uma regra antiga que quem cresceu na periferia conhece bem: vasilha não volta vazia.

Ninguém precisou escrever isso em lugar nenhum. A gente aprende em casa, na prática. Afinal, experimente devolver um prato vazio para ver a cara que a sua mãe vai fazer.

Aliás, quase toda casa tem uma prateleira de vasilhas que não são suas. O pote de margarina que virou tupperware. O pote de sorvete que, como todo brasileiro sabe, nunca tem sorvete. E aquela travessa de vidro com o nome da dona escrito em fita crepe embaixo, porque já rodou tanta festa que ninguém confia mais na memória de ninguém.

A gente chama isso de educação. E é. Mas existe uma história maior por trás desse costume.

Há mais de cem anos, um antropólogo francês chamado Marcel Mauss escreveu um ensaio inteiro sobre a lógica dos presentes. Em resumo, ele identificou três obrigações que sustentam a dádiva: dar, receber e retribuir.

A Mônica dá.

A gente recebe e não economiza nos elogios.

E retribui como pode.

Acho curioso que aquilo que Mauss precisou de páginas e páginas para explicar a Mônica consiga ensinar com um pão.

Mas tem uma coisa nessa história que vai além da educação.

Essa regra de compartilhar sempre teve um peso especial nos lugares onde as coisas faltavam. Quem tem pouco aprende cedo que ninguém dá conta de tudo sozinho. Hoje sobra bolo numa casa; amanhã pode faltar arroz na outra.

A vasilha que volta cheia carrega mais do que comida. Carrega uma mensagem silenciosa: eu lembro de você. E, se um dia precisar, pode contar comigo.

Talvez seja por isso que certos gestos sobrevivam por tanto tempo. Não porque alguém tenha escrito uma regra, mas porque, em algum momento, alguém precisou do outro. E o outro estava lá.

Só que tem coisa mudando.

A gente mora cada vez mais parede com parede e sabe cada vez menos o nome de quem está do outro lado. E, no meio do caminho, inventou a embalagem descartável.

O descartável resolveu o problema da louça. Só esqueceu que a louça era a desculpa.

Porque a vasilha precisa voltar. E, para voltar, alguém precisa bater no portão, chamar pelo nome, perguntar como estão as coisas. Às vezes, a conversa que não coube na primeira visita encontra espaço na segunda.

A vasilha cria um motivo para a gente se encontrar de novo.

E talvez estejamos precisando de mais motivos assim.

Na nossa casa, a prateleira também tem uma vasilha que não é daqui. É da última delícia que a Mônica mandou. Está lá até hoje, esperando a oportunidade certa de voltar.

Não é que a gente tenha esquecido dela. É que, dessa vez, a responsabilidade é minha.

Aquela vasilha é só metade de uma visita.

A outra metade vai sair da brasa.

E, do jeito que a régua está, não vai ter jeito: vou precisar fazer o churrasco da minha vida.

Thoughts

  • Antonio_Goncalves

    O Pedro só reforça a certeza, pq o cheiro de pão assado o denuncia ainda no preparo.

    Permalink
  • xadrezista

    A vasilha parada na prateleira faz mais pela vizinhança que o próprio pão. Enquanto ela não volta, sempre tem motivo pra bater no portão da Mônica, e tenho pra mim que você segura de propósito.

    Permalink
  • Ovid

    A embalagem descartável ter acabado com a desculpa da visita é a parte que eu vou ficar repetindo por aí. Pra mim o pote de isopor explica muito: ninguém devolve, então ninguém precisa voltar. Acho que a Mônica vai receber esse churrasco e mandar outra coisa na mesma vasilha, e aí essa conta não fecha nunca!

    Permalink

Publicações relacionadas

  • 22 de Outubro

    É cansativo ter que ser o vigia da minha própria mente o tempo todo. Eu passo o dia inteiro me policiando para não me pegar pensando demais em você, porque sei o perigo que é deixar a minha cabeça…

  • Estrela Brilhou

    Eu só queria dizer que hoje eu respiro de alívio, caramba, hoje é um dia feliz, hoje é primavera.

  • Espelhos & Moinhos

    Não existe escapatória de si mesmo. Escapar de si é impossível; o que podemos fazer é nos entregar, acostumar-nos com aquilo que vemos e aprender a conviver com a própria imagem.

  • Verdadeira face

    Queria conhecer pessoas reais, não essas falsas faces que a gente encontra no caminho.

  • Antes de ser mãe

    Acordo assustada. Não que isso seja algo raro. Nos últimos dias, tenho me sentido mais ansiosa, despertando no meio da madrugada. Meu marido dorme tranquilamente do outro lado da cama, como se nada…

  • 24 de outubro, sábado

    oi gente, como vocês estão?

  • Nem eu escapo de mim

    Eu me lembro de ter escrito sobre ser mais rebelde, sobre não ter medo de contrariar as coisas, sobre viver sem precisar se curvar às expectativas alheias. Mas, ironicamente, agora me vejo…

  •  Sobre abuso psicológico escolar, redes e a pressão sobre quem escreve

    Olá, colegas da turma. Olá a todos que acompanham o que escrevo. Hoje venho falar sobre o que vivi no ambiente escolar, sobre as formas de abuso psicológico entre colegas e sobre como as redes…

Pública 1 conversa 4 pensamentos 69 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Sempre que a Mônica faz pão, a gente fica sabendo do mesmo jeito: o Pedro aparece aqui em casa.

Em grupos