Não existe escapatória de si mesmo. Escapar de si é impossível; o que podemos fazer é nos entregar, acostumar-nos com aquilo que vemos e aprender a conviver com a própria imagem.
O vale das sombras não é escuro. Ele é feito daquilo que recusamos enxergar.
Não mudamos apagando quem fomos, mas acrescentando novas camadas a quem somos. Às vezes, nosso passado parece pertencer a um desconhecido com quem compartilhamos as mesmas memórias. Ainda assim, aquela pessoa também somos nós.
Se investíssemos em nós mesmos a energia e o tempo que desperdiçamos tentando fugir, talvez descobríssemos que o maior obstáculo nunca foi aquilo que fizemos, mas o orgulho que nos impediu de reconhecer nossos erros e aprender com nossos acertos.
Criamos desculpas, direcionamos a culpa para os outros e editamos nossas próprias vidas para preservar a imagem que desejamos ter de nós mesmos. Fazemos isso por preconceito, orgulho ou medo de admitir que erramos. Preferimos distorcer a própria história a aceitar que nem sempre estivemos certos.
Existem três escapatórias.
A primeira é enfrentar a si mesmo. Olhar para o passado sem editar as lembranças, reconhecer os erros sem apagar os acertos e aceitar as próprias contradições sem precisar justificá-las. É abandonar o orgulho como escudo e usar a experiência como aprendizado. Não significa gostar de tudo o que encontramos, mas compreender que não podemos acrescentar algo novo a nós mesmos enquanto negarmos aquilo que já existe.
A segunda é lutar contra si mesmo. Transformar a própria existência em uma batalha interminável, digladiar-se com os próprios pensamentos e insistir no confronto até o limite físico e psicológico. É acreditar que a força pode vencer aquilo que a compreensão não alcançou, ignorando os danos que essa guerra pode causar à saúde. Em vez de aprender a conviver consigo, a pessoa tenta derrotar a si mesma, como se fosse possível sair ilesa de uma luta contra a própria existência.
A terceira é esquecer a si mesmo. Perder, pouco a pouco, as lembranças que sustentam a própria história, até que o passado se torne inacessível. O Alzheimer e outras formas de demência podem comprometer a memória, a identidade autobiográfica e a capacidade de reconhecer partes da própria trajetória. Não se trata de uma escolha, de uma rendição voluntária ou de uma fuga consciente, mas de uma condição que pode retirar de alguém o acesso àquilo que viveu.
Três caminhos, três relações com a própria existência: compreender a si mesmo, combater a si mesmo ou perder o acesso às lembranças de quem se foi.
No fim, talvez a questão não seja como escapar de nós mesmos, mas quanto tempo ainda estamos dispostos a desperdiçar tentando fazê-lo.
Porque o espelho não exige que gostemos daquilo que vemos. Não pede que nos orgulhemos do passado, nem que justifiquemos nossas falhas. Apenas nos devolve uma imagem.
E talvez a verdadeira liberdade comece quando deixamos de tentar destruí-la.
Romantizamos nossa ficção, transformando-nos em heróis de uma causa perdida desde o início da nossa própria trajetória. Construímos narrativas nas quais somos protagonistas de batalhas grandiosas, mas, enquanto acreditamos lutar contra gigantes, o mundo ao nosso redor só enxerga ruínas e moinhos de vento.
Somos Dom Quixote, tentando dar sentido à própria existência por meio de uma batalha que talvez nunca tenha sido aquilo que imaginávamos. E talvez o mais doloroso não seja lutar contra moinhos, mas perceber que passamos tanto tempo tentando ser heróis que esquecemos de perguntar se havia, de fato, alguém para salvar... ou se precisávamos apenas aceitar a realidade que sempre esteve diante de nós.
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